Minissérie traz Matthew Broderick no papel do magnata Richard Sackler, dono da gigante farmacêutica Purdue Pharma
Por Luciano Buarque de Holanda, para o Valor — São Paulo
22/08/2023 05h09 Atualizado há 8 horas
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Matthew Broderick como Richard Sackler e Clark Gregg como Arthur Sackler em “O Império da Dor” — Foto: Keri Anderson/Netflix
Cada um dos sete episódios de “O Império da Dor” abre com um depoimento em vídeo, em que anônimos acrescentam suas tragédias pessoais à mensagem padrão: “Este programa é baseado em acontecimentos reais, mas alguns personagens, nomes, incidentes, locais e diálogos foram ficcionalizados para fins dramáticos. O que não é ficção é minha história (…)”. Eles são parentes enlutados de vítimas da vigente crise de opioides nos EUA, que já matou meio milhão de pessoas e segue registrando mais de 100 óbitos por dia.
A epidemia abarca medicamentos como o Vicodin, o Fentanil e o Percocet, mas a grande escalada começou em 1995, quando a FDA (Food and Drug Administration, órgão que controla alimentos e remédios nos Estados Unidos) aprovou o uso da OxyContin (ou Oxicodona), produzida pela gigante farmacêutica Purdue Pharma.
A “Oxy”, como é chamada nas ruas, foi promovida como um “analgésico milagroso e totalmente seguro”. Na prática, sua composição é muito parecida com a da heroína, enquanto sua potência chega a ser duas vezes superior à da morfina. A diferença é que o comprimido contém um revestimento de liberação prolongada e gradual, reduzindo, assim, os riscos de dependência e morte por overdose. Supostamente.
O uso contínuo da Oxicodona não apenas provoca dependência grave, como também leva o paciente a adquirir tolerância aos princípios ativos da droga. Logo, ele precisará de doses cada vez maiores para suprir suas necessidades — e aliviar os sintomas de abstinência.
Um grande percentual acaba recorrendo ao mercado negro, mas não que seja difícil de se obter uma receita de Oxicodona nos EUA. Muito pelo contrário: estimulados por um programa de comissões da Purdue, os médicos americanos sem grande apego à ética passaram a receitar o medicamento para qualquer enxaqueca.
Paralelamente, o uso recreativo da droga crescia nas ruas. Usuários logo descobriram que o efeito do comprimido poderia ser potencializado quando triturado e inalado ou injetado na veia. Os números de overdoses fatais saltaram, assim como aumentaram os assaltos a farmácias e a violência no círculo da Oxy em geral. Enquanto isso, os lucros da Purdue Pharma seguiam a mesma linha ascendente, acumulando cifras bilionárias.
“O Império da Dor” reexamina a epidemia através de quatro arcos. No centro de tudo está o magnata Richard Sackler (Matthew Broderick, de “Curtindo a Vida Adoidado”), dono do império Purdue e discípulo obstinado do falecido tio, o psiquiatra, mecenas artístico e gênio do marketing Arthur Sackler. Vivido por Clark Gregg (“As Novas Aventuras de Christine”), Arthur faz as vezes de voz da consciência do protagonista, um espectro rondando o sobrinho em seus momentos de hesitação.
Richard é decerto o principal agente da crise de saúde pública que se seguiu. Desde o princípio ciente dos riscos da Oxicodona, ele atuou no limite da legalidade, articulando um agressivo lobby para obter a aprovação da FDA e insuflando os ânimos de sua equipe de vendas. O que nos leva às personagens de Dina Shihabi (“Jack Ryan”) e West Duchovny (filha de David Duchovny), duas representantes da Purdue corrompidas pela política de gratificações da empresa.
Uzo Aduba (“Orange Is the New Black”) interpreta a investigadora Edie Flowers, que, motivada por uma tragédia pessoal, cruza cidadezinhas reunindo provas contra os Sacklers. Do outro lado da moeda, há o drama do pai de família Glen Kryger (Taylor Kitsch, de “A Lista Terminal”), que mergulha numa espiral autodestrutiva ao recorrer à Oxicodona para combater dores crônicas.
Com ecos da narrativa de Martin Scorsese e um pé nas montagens frenéticas de Oliver Stone, “O Império da Dor” por vezes excede no tom pop e nas liberdades autorais, mas nunca perde o foco ou se torna superficial. Baseado no livro de não ficção “Pain Killer: An Empire of Deceit and the Origin of America’s Opioid Epidemic”, de Barry Meier, a minissérie pode ser vista como um complemento do documentário de duas partes da HBO “O Crime do Século” (2021), sobre o mesmo tema.
O Império da Dor – EUA – 2023. Criadores: Micah Fitzerman-Blue, Noah Harpster. Onde: Netflix. Avaliação: ****
Fonte: Valor Econômico