Os mercados já estavam se preparando para a retomada das elevações dos juros no Japão, o que ajudou a limitar um possível caos derivado do aumento promovido na madrugada pelo Banco do Japão (BoJ), que deixou a taxa de depósito em 0,75% — o nível mais alto desde 1995. Mas, com as indicações claras de continuidade do ciclo de aperto, os mercados devem ficar cada vez mais atentos aos passos do BoJ.
A explicação vem do fato de o mercado de renda fixa japonês ser o segundo maior do mundo. E, com os juros historicamente baixos no país, criou-se o costume de os investidores globais usarem o iene como moeda de “funding” para operações de “carry-trade”, ou seja, apostas no diferencial de juros com outros países.
Com a sacudida (ainda que leve) provocada pelo BoJ, o iene não necessariamente se torna a moeda mais óbvia. Até porque há casas que falam em uma taxa de depósito que se aproxima de 2% em 2027 no Japão…
Já durante a madrugada os mercados começaram a se ajustar. A taxa do JGB (o título público japonês) de dez anos ultrapassou 2% após a decisão do banco central pela primeira vez em 26 anos.
O presidente do BoJ, Kazuo Ueda, foi questionado sobre o assunto e reiterou a visão de que as taxas de longo prazo são determinadas pelas forças de mercado. No entanto, o mercado mantém no radar que o plano de aperto quantitativo (QT) do banco central tem início previsto para junho de 2026.
Até por isso, em vértices ultralongos, também houve pressão vendedora de JGBs. Enquanto o juro de 10 anos ficou em 2,024%, a taxa de 30 anos subiu a 3,419%, maior nível desde 3 de dezembro, e o retorno do papel de 40 anos ficou em 3,713%, no maior patamar desde 20 de novembro.
Nesses níveis, os juros ultralongos japoneses seguem próximos das máximas históricas e ajudam a puxar para cima os juros longos de todos os mercados desenvolvidos. Na manhã desta sexta-feira, Treasuries americanos, Bunds alemães, BTPs italianos… Todos operam com taxas em alta na esteira do BoJ.
“Mesmo antes da decisão, o nível [do yield do JGB de dez anos] já vinha sendo pressionado para cima pelas discussões sobre o nível final dos juros, enquanto o prêmio de risco se ampliou diante da cautela em relação ao orçamento e ao plano de emissões de JGBs para o ano fiscal que termina em março de 2027”, notam os estrategistas do Citi.
“É difícil imaginar que a precificação da taxa de juros no fim do ciclo continue subindo no ritmo atual”, enfatizam os profissionais, ao observarem que, em relação às taxas a termo, o mercado precifica que o diferencial de juros entre Japão e Estados Unidos esteja em 2 pontos percentuais, enquanto o diferencial em relação à zona do euro estará em apenas 1 ponto.
E, na visão do Citi, existe a possibilidade de um estreitamento adicional desse diferencial de juros com a zona do euro, principalmente, o que ajuda a explicar a alta das taxas longas. “Se o referencial for 3% para o euro, então 2,5% estaria dentro do horizonte para o Japão. Níveis acima disso configurariam um ‘overshoot’ [exagero]”, apontam.
A questão central está na política fiscal. “Tanto a decisão do governo sobre o Orçamento de março de 2027 quanto a divulgação do plano de emissões de JGBs estão previstas para 26 de dezembro e os volumes só serão conhecidos imediatamente antes. Caso o montante total de emissões de títulos aumente ainda mais, haverá risco de novas altas nas taxas de juros. Se esse risco não se materializar, o mercado tende a se acalmar em alguma medida, mas o yield de dez anos agora parece distante de voltar a cair abaixo de 1,9%.”
É o que também observam os profissionais do Société Générale em uma análise gráfica após a taxa do JGB de dez anos ultrapassar os 2%.
“O movimento recente de alta se desenvolveu acima de uma linha de tendência de aumento da inclinação da curva, o que sugere que a alta está um pouco esticada. Ainda assim, não há sinais claros, até o momento, de uma correção mais relevante”, nota a equipe liderada pelo estrategista Kenneth Broux.
Para o profissional do banco francês, caso se materialize um recuo pontual, a mínima recente da taxa (de 1,91%) pode atuar como um nível de suporte.
Fonte: Valor Econômico
