Pesquisa da USP descobre 9 milhões de variações genéticas nunca antes identificadas em outras populações
A população brasileira tem a maior diversidade de genes do mundo, resultado de uma grande mistura de populações indígenas, europeias, africanas e asiáticas. A constatação veio de uma pesquisa que analisou o DNA de 2,7 mil pessoas de todas as regiões do Brasil, liderada por cientistas da USP e publicada na revista científica “Science”, no mês passado.
O estudo, batizado de DNA do Brasil, trouxe a descoberta de quase 9 milhões de variedades genéticas inéditas, ou seja, nunca antes identificadas em nenhuma outra população do mundo.
Hoje, a maior parte das pesquisas clínicas é baseada em genomas da população branca, de estudos realizados na Europa e nos EUA. No entanto, a eficácia dos medicamentos nem sempre tem a mesma resposta nas demais populações.
Lygia da Veiga Pereira, professora da USP e uma das pesquisadores do estudo, destaca que o material é rico porque ajuda, inclusive, outros países que não têm condições de fazer um sequenciamento de genes dessa magnitude. “Na África, vai ser muito mais difícil eles fazerem uma pesquisa para isso. O Brasil tem a maior população de ascendência africana fora da África. Os Estados Unidos receberam em torno de 400 mil africanos escravizados. O Brasil recebeu 6 milhões”, disse.
A pesquisa traz ainda um pedaço da história do Brasil e o impacto da colonização europeia. Uma das constatações é que, no DNA das mulheres, há mais presença de ancestralidade indígena (35%) e africana (42%). Já entre os genes dos homens, a prevalência é europeia (71%).
O auge dessa miscigenação, segundo os dados genéticos do estudo, teria ocorrido entre os séculos 18 e 19, quando a migração de europeus e o tráfico de africanos para o Brasil foram intensificados pelos ciclos de exploração de diamantes e ouro, e pela transferência da família real portuguesa para o Brasil.
“A pesquisa revela todos esses aspectos históricos da formação da nossa população, que a gente conhece dos livros de história, mas a gente enxerga as consequências disso no nosso DNA. Há agora um amplo caminho de pesquisa para entender como é que essas variações genéticas que existem na nossa população impactam na saúde”, disse Pereira.
A pesquisa dos cientistas da USP faz parte do Programa Genomas Brasil, uma iniciativa do Ministério da Saúde, que tem como meta sequenciar o genoma de 100 mil brasileiros.
Fonte: Valor Econômico