O primeiro semestre de 2026 vai terminar de forma muito diferente da que começou para o mercado brasileiro. Os efeitos inflacionários da guerra no Oriente Médio, perspectiva de juros mais altos por mais tempo no Brasil e nos Estados Unidos, a volta do boom de inteligência artificial (IA) e o início das discussões eleitorais criaram um combo que minou o otimismo que embalou os primeiros meses do ano.
O Ibovespa foi de quase 200 mil pontos, marca conquistada em abril após 18 recordes consecutivos, para os atuais 170 mil pontos. O dólar, que chegou a flertar com os R$ 4,90, hoje opera na casa de R$ 5,20.
O saldo de capital estrangeiro na B3 chegou a superar R$ 57 bilhões, mas, com as retiradas dos últimos meses, já caiu para R$ 40,1 bi. Se antes investidores acreditavam que a taxa Selic poderia ser reduzida até 12,00% este ano, agora a projeção principal paira nos 14,00%, com apostas mais pessimistas indicando que o ciclo de afrouxamento monetário já chegou ao fim nos atuais 14,25% de juros.
O principal gatilho para o fim do otimismo no Brasil veio, na realidade, do exterior. O início da guerra entre Estados Unidos e Irã levou a um choque de petróleo, que foi sendo repassado para as economias globais enquanto o conflito se estendia.
Isso levou a um movimento geral de reprecificação das expectativas para os juros – e juros mais altos por mais tempo nos EUA eram exatamente o fator de risco principal que especialistas apontavam no início do ano como algo que poderia reverter o fluxo que estava vindo para emergentes.
Aos poucos, essa piora externa foi tirando de “debaixo do tapete” questões internas que estavam mascaradas pela forte entrada de fluxo estrangeiro no País. O fiscal voltou a preocupar, com medidas de impacto bilionário nas despesas sendo aprovadas em Brasília e revés nas pesquisas eleitorais aumentando a chance de reeleição do governo federal. As expectativas de inflação desancoraram até para horizontes mais longos, de 2027 e 2028, tornando mais difícil a missão do Banco Central com os juros.
Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, explica que o conflito geopolítico é apenas um pedaço disso. Por isso, nem mesmo a chance de fim da guerra, ventilada na última semana, levou a uma melhora muito expressiva do cenário.
“Houve uma deterioração muito forte de todo o arranjo macro. Em fevereiro, discutíamos um cenário de dólar fraco, atividade econômica americana fraca. Tudo beneficiava o Brasil”, diz. “Hoje, estamos expostos à euforia no mercado americano, com a volta do capital para lá, o que nos coloca em uma situação completamente diferente. Foram mudanças muito bruscas em vários pontos.”
Esse revés no cenário inicialmente projetado para 2026 levou a mudanças importantes nas estratégias de alocação. Não faltam exemplos. O Bank of America e o UBS cortaram a recomendação de Brasil para neutra, prevendo um ciclo de afrouxamento monetário mais curto e menos intenso. O BTG Pactual seguiu o mesmo caminho, destacando que o cenário se tornou mais imprevisível.
As gestoras também estão optando por maior cautela. Na prática, isso tem significado reduzir a exposição a Brasil e aumentar a parcela no exterior.
A Verde Asset vinha carregando posições favoráveis ao Brasil na carteira, aumentando a exposição a ações e com uma aposta no real frente ao dólar. Em junho, optou por encerrar a posição na moeda brasileira porque vê um novo fortalecimento do dólar.
Na carta mensal, a gestora de Luis Stuhlberger destacou que os bons resultados das ações americanas roubaram a atenção do mercado global, que vinha muito concentrado na guerra. Os novos ganhos nos ativos ligados à cadeia de semicondutores e capacidade computacional fazem a asset acreditar que o excepcionalismo americano, que ditou os rumos dos mercados entre 2023 e 2024, voltou.
“A resiliência da economia americana, a precificação – mesmo que tímida – de possíveis altas de juro pelo Federal Reserve, e a pujança do ecossistema de IA parecem reforçar esse tema, e temos visto algum fortalecimento do dólar como principal consequência macro dessa lógica”, diz a Verde.
A Legacy Capital também vê mais valor fora do Brasil e mantém 80% do portfólio alocado no exterior. A aposta são moedas ligadas ao avanço da IA, como o won sul-coreano e o dólar taiwanês. “A gente não vê muito valor nos ativos de risco brasileiros. Na verdade, a gente nem gosta muito de Bolsa”, afirma Gustavo Pessoa, sócio fundador da gestora.
O tema da IA voltou a ser considerado um ‘must have’ (indispensável), substituindo a visão que dominou entre 2025 e os primeiros meses de 2026 que questionava as chances de uma bolha de investimentos na Bolsa dos EUA. Também em junho, o Itaú Unibanco ampliou a alocação em ações americanas, entendendo que a tecnologia deixou de ser um tema para fazer stock picking e se tornou um fator macro.
Com o hype de IA e sem perspectiva de queda dos juros nos EUA, o banco entende que há menos espaço para que outros mercados que não o americano performem bem. Por isso, reduziu a alocação em ativos brasileiros – de Bolsa a títulos de renda fixa.
Sem gatilhos que possam atrair o fluxo internacional para a B3 novamente, as ações têm um cenário menos animador à frente, diz o Itaú. E com muitos fatores domésticos na pauta, com a proximidade das eleições, a desancoragem das expectativas de inflação, os juros mais altos por mais tempo e todo o desafio fiscal, a curva de juros tampouco tem espaço para fechar de forma relevante, o que aumenta o risco de carregar as posições em NTN-Bs ou em prefixados.
“Mesmo depois de tanto tempo com a Selic em dois dígitos, o efeito [na economia] não é o esperado. Não vemos espaço para os juros caírem”, diz Thomas Wu, estrategista-chefe do Itaú.
Nas corretoras, otimismo cauteloso se mantém
No lado das corretoras, ainda predomina um otimismo cauteloso com os ativos brasileiros no segundo semestre. A XP Investimentos acredita que deve ser um período de maior volatilidade, com os impactos da guerra ainda no radar e as eleições entrando na pauta do mercado.
Mas reforça sua visão positiva para a Bolsa com projeção de 205 mil pontos para o Ibovespa até o fim deste ano.
Artur Wichmann, diretor de investimentos (CIO) da XP, destaca que a queda recente da Bolsa tornou as ações brasileiras mais atrativas. Depois de quase bater 200 mil pontos em meados de abril, o índice caiu cerca de 15% para os atuais 170 mil pontos e tem encontrado dificuldade para superar tal patamar.
“Não só o nível de valuation (valor do ativo) melhorou, mas as projeções de lucro do Ibovespa, tanto para 2026 quanto para 2027, estão bastante estáveis e foram revisadas para cima nos últimos meses”, diz Wichmann. “Acreditamos que temos espaço para um repique da Bolsa, do ponto de vista tático, nos próximos meses.”
O Banco Inter tem a mesma opinião. Com a correção recente, o Ibovespa voltou a parecer barato e precisaria de pouco – “basta que as companhias entreguem o esperado” – para voltar a negociar em um múltiplo de preço sobre lucro (P/L) de 9,5 vezes. Ainda é um valuation abaixo da média histórica, que fica entre 10 e 11 vezes P/L, mas seria o suficiente para levar o índice de volta às máximas.
O Inter reconhece que os ruídos macro aumentaram, dificultando a precificação de riscos. Mas, olhando para os números apresentados pelas companhias da Bolsa no primeiro trimestre de 2026, vê resiliência apesar do já extenso ciclo de aperto monetário. O caminho é selecionar os ativos bem, priorizando nomes de qualidade em setores que estão surpreendendo as expectativas de resultado.
“Não precisamos contar com cenários mágicos ou lucros astronômicos; basta que as empresas entreguem o que é esperado no meio-termo para que a Bolsa destrave um valor considerável e caminhe para o nosso alvo”, diz o banco.
Fonte: Estadão

