Se os primeiros meses de 2026 foram marcados por uma euforia geral no mercado de investimentos brasileiro, o segundo semestre, por sua vez, será um período de muito mais cautela. Além da piora no cenário macro global, com os efeitos da guerra no Oriente Médio e a perspectiva de juros mais altos por mais tempo nas grandes economias, adiciona-se à equação a discussão eleitoral no Brasil – um tema que sempre aumenta a volatilidade dos ativos e deve exigir maior cuidado na alocação.
O acordo mais firme entre Estados Unidos e Irã não deixa o cenário mais tranquilo, diz Bruno Cordeiro, sócio e gestor da Kapitalo Investimentos. Ao tornar temporário o choque no petróleo causado pelo conflito, ele atrapalha a visão sobre se as expectativas sobre a inflação devem se acomodar ou não no segundo semestre. A mudança de comando do banco central americano, o Federal Reserve (Fed), também ajuda a elevar incertezas sobre os próximos passos da política econômica nos EUA.
A principal revisão de cenário feita pela Kapitalo ocorreu na expectativa de que o mercado de trabalho desacelerasse nos EUA no primeiro semestre com o advento da tecnologia, avalia o sócio e gestor Carlos Woelz. “Isso ainda não aconteceu, porque ela está em fase de implantação. Como resultado, a economia dos EUA fica mais forte, o que tem impacto sobre o cenário macro.”
Para Bernardo Carvalho, diretor executivo da Gávea Investimentos, essa perspectiva gera um risco adicional para o Brasil no curto prazo: com o possível fortalecimento do dólar, já que não há mais espaço para corte de juros por lá, a economia americana deve continuar pujante e há menos incertezas sobre o governo de Donald Trump, por ora. “O fluxo de capital estrangeiro levou à valorização do real. Se houver freio neste fluxo nos próximos meses, dada a bonança dos EUA, pode prejudicar o Brasil.”
Agora, as grandes gestoras estão ajustando as posições das carteiras para incluir essa menor visibilidade no cenário. O foco está em construir estratégias equilibradas entre a pujança do mercado no exterior, onde os resultados estão bons e as ações caras, e o pessimismo que predomina nos ativos locais, onde faltam gatilhos para levar a uma melhora expressiva, embora os preços estejam tão descontados que podem justificar a espera.
O E-Investidor conversou com grandes gestores para entender as alocações para o 2º semestre de 2026. As entrevistas individuais com Constellation, Kapitalo, Gávea Investimentos e J.P Morgan Asset serão publicadas ao longo desta semana, destrinchando cada uma das estratégias.
O consenso da IA
A piora no macro fez com que o micro se sobressaísse no mercado financeiro global. Sem grande previsibilidade sobre o que deve acontecer com os juros nos Estados Unidos, o dinheiro que vinha saindo de lá em 2025 e 2026 em busca de outras geografias voltou a se concentrar no país mais uma vez graças às ações ligadas à inteligência artificial (IA).
O novo boom dos ativos ligados à IA também está no radar dos gestores. Enquanto a Kapitalo prefere empresas que prestam serviços para as companhias que estão investindo em IA, o J.P Morgan demonstra preferência por empresas ligadas à infraestrutura da revolucionária tecnologia. “O setor de hardware valorizou 26% no acumulado do ano e o de eletricidade, 30%. O mercado enxerga mais demanda que oferta relacionada a chip e memória. Falta muita construção de capacidade de computação”, diz a estrategista-chefe Marina Valentini.
Na visão do J.P. Morgan, o surto de investimentos em IA e o aumento dos gastos em capital (capex) pelas grandes empresas de tecnologia têm impulsionado o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA e sustentado os lucros das empresas do S&P 500, ajudando a compensar a incerteza geopolítica.
Mas a concentração do mercado é um risco. Hoje, 41% do S&P 500 é representado por 10 empresas. Com as ações já em um valuation (valor de mercado) esticado, o banco alerta que as companhias podem ter dificuldade de superar as expectativas dos investidores e uma decepção qualquer nos fundamentos levaria a uma correção dos níveis atuais de preço.
Dúvidas em relação ao Brasil
A visão sobre investimentos no Brasil já parece mais incerta, pois o segundo semestre deve trazer o peso do debate eleitoral deste ano.
A leitura do mercado sobre o tema se alterou ao longo dos primeiros meses de 2026. No início do ano, gestores viam com mais entusiasmo as chances de uma vitória de algum candidato de direita, principalmente do ex-senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ). O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro chegou a aparecer à frente do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em algumas pesquisas de intenção de voto, mas viu sua candidatura perder força, inclusive na Faria Lima, depois que seu envolvimento com o caso Master foi noticiado.
Hoje, o mercado financeiro coloca na conta mais chances de uma reeleição petista, o que ajuda a pressionar os preços dos ativos brasileiros e as expectativas futuras para inflação e juros. Entre os investidores, predomina o argumento de que o atual governo não tem intenção de promover um ajuste relevante que diminua o gasto público e, assim, controle o avanço da dívida brasileira. Sem isso, a política fiscal expansionista deve seguir jogando contra o aperto monetário do Banco Central (BC), exigindo juros mais altos por um tempo mais longo.
Como é difícil prever o resultado das eleições presidenciais, que a cada ciclo se tornam mais acirradas, fazer projeções para câmbio, juros e Bolsa brasileira também se tornou uma tarefa complicada. Essa incerteza tem levado alguns players a reduzir a exposição ao Brasil.
Como mostramos aqui, o Itaú Unibanco (ITUB3; ITUB4) diminuiu as posições em ações brasileiras, entendendo que sem o fluxo internacional, há pouco espaço para o mercado local performar bem; e ajustou também a alocação em renda fixa, já que, com toda a incerteza fiscal, não vê gatilhos no curto prazo que possam levar a curva de juros a se fechar de forma relevante.
Como investir nesse cenário
Essa cautela é um tom comum entre as gestoras de investimento, mas reduzir a alocação não é um consenso. Para muitos, o valuation da Bolsa segue tão descontado que não dá para ignorar as oportunidades que as ações oferecem. O que não significa, no entanto, sair comprando qualquer coisa.
É o que pensa Florian Bartunek, fundador da gestora Constellation. Ele observa que as ações estão com a menor avaliação de mercado em 20 anos, o que permite ao investidor “aguentar algum desaforo” caso o mercado piore. Contudo, ele ressalta a necessidade de optar, mais do que nunca, por empresas de boa qualidade, que têm caixa e mantêm o olhar firme no que o cliente quer. “Empresas excepcionais prosperam na crise”, diz.
A Franklin Templeton Brasil, braço brasileiro da gestora global com R$ 51 bilhões sob portfólio, não vê gatilhos que possam fazer as ações se recuperarem no curto prazo, mas mantém uma posição investida em “stand by”. A estratégia consiste em dar prioridade a papéis bons pagadores de dividendos, com fluxo de caixa previsível e que tenham capacidade de repassar a inflação; e assim ser monetizado enquanto espera a melhora do cenário local.
“Algumas utilities (serviços essenciais) estão pagando mais de 10% de dividend yield (rendimento de dividendos), o que dá mais do que as NTN-Bs (Tesouro IPCA+), sendo que os preços das ações ainda podem disparar com uma melhora”, afirma Frederico Sampaio, portfolio manager da Franklin Templeton Brasil. “O bom dessa história toda é que o valuation hoje reflete essa falta de otimismo. Qualquer sinal positivo, com a liquidez baixa como está, gera reações brutais de preço. É preciso estar posicionado.”
É uma visão parecida à de Bartunek, que avalia que a reforma tributária trouxe mais desafios para o capital de giro das empresas. Contudo, aponta que as boas companhias continuam bem. “Temos cerca de 20 empresas no portfólio. São nomes como Itaú, Equatorial (EQTL3), Nubank (ROXO34), Localiza (RENT3), BTG Pactual (BPAC11), Rede D´Or (RDOR3) e Weg (WEGE3), que já passaram por diversas crises.”
Ele ressalta, porém, que a gestão desses investimentos está mais ativa do que era antigamente. “Se surge alguma nova incerteza, como aconteceu com a Totvs (TOTS3) no começo do ano, quando o mercado percebeu que empresas de software podem ser disruptadas pela IA, reduzimos a posição.”
De olho na demanda por cobre ligada à IA, a Kapitalo investe em Aura Minerals. Segundo relatório da S&P Global, a IA aumentará a necessidade pelo material em até 50% até 2040. A gestora tradicionalmente já investe cerca de 70% dos recursos offshore (fora do País), mas está mantendo a posição em Brasil ainda mais baixa que a média. Outra posição de destaque na carteira é o ouro para proteção contra riscos geopolíticos.
Sobre crédito, a Gávea vê empresas sofrendo com juros altos, mas, por outro lado, a expansão fiscal ameniza alguns impactos. “O Desenrola 2.0 e a concessão de crédito para motoristas de Uber e entregadores que usam motos beneficia alguns setores. O investidor precisa fazer esta análise de quais sofrem mais no momento atual e quais sofrem menos”.
Fonte: Estadão

