Um ano após ter frustrado as expectativas do governo em relação a uma retomada do grau de investimento, a agência de classificação de risco Moody’s adotou um tom mais cético em relação à capacidade política do Brasil de avançar em reformas estruturais — uma limitação importante para possíveis pretensões quanto a uma nota de crédito mais alta.
Não houve nenhuma ação de rating pela agência nos últimos dias, mas, em uma revisão periódica protocolar da nota do Brasil divulgada ontem, a Moody’s mudou sua percepção em relação a alguns pontos importantes caso se compare com a decisão de maio de 2025, a última ação de rating oficial, quando a agência alterou a perspectiva do rating ‘Ba1’ de positiva para estável.
Sumiram do texto menções a uma possível construção de consenso entre os agentes políticos para a aprovação de reformas estruturais. Em 2025, a Moody’s ainda apontava o Brasil como um país que conseguia aprovar grandes mudanças nas contas públicas, ainda que de forma gradual.
Agora, a polarização política, que não aparecia no ano passado, é mencionada de forma explícita pela Moody’s como “uma limitação para a formulação de políticas públicas, restringindo os esforços de reforma fiscal e consolidação das contas públicas”.
E um consenso entre as forças políticas para gerar “reformas mais profundas de gastos” é um dos pontos citados para uma possível elevação do rating — algo que já era mencionado pela agência, mas de forma um pouco mais branda.
“Por exemplo, medidas que reduzam vinculações de receitas, a indexação de benefícios sociais ao salário mínimo ou reformas nos benefícios previdenciários criariam espaço fiscal e melhorariam o perfil de crédito do país. De forma mais ampla, reformas macroeconômicas que aprimorem o arcabouço de política monetária e levem a uma transmissão mais eficiente da política monetária também contribuiriam para reduzir a vulnerabilidade da posição fiscal brasileira aos ciclos de aperto monetário”, enfatiza a Moody’s.
Boa parte das ideias de reformas já são discutidas pelo mercado — e, em alguma medida, pelo próprio governo — há tempos e foram reafirmadas pela agência.
No entanto, se, em maio de 2025 elas apareciam como um caminho para uma possível recuperação de credibilidade, agora são mencionadas como pré-condições para um “upgrade”, em um contexto em que a própria Moody’s passou a enfatizar de forma mais explícita os entraves políticos para a implementação dessas medidas.
Nos últimos anos, a Moody’s tem sido a agência com avaliação mais positiva sobre o país. Em seus critérios, a nota do Brasil está apenas um degrau abaixo do nível de investimento. Em outras agências, como Fitch e S&P Global, o rating soberano brasileiro está dois degraus abaixo do “investment grade”.
Fonte: Valor Econômico
