12 Jan 2024 CARLOS EDUARDO VALIM
O Brasil vai entrar em um superciclo de investimentos em infraestrutura, segundo o CEO do grupo CCR, o português Miguel Setas. E isso, na visão da concessionária de serviços de infraestrutura de transportes, significará oportunidades de R$ 180 bilhões em negócios nos próximos três anos, principalmente nos segmentos de rodovias e mobilidade urbana.
Setas, que se mudou para o Brasil em 2007 para trabalhar na subsidiária local da empresa portuguesa de energia elétricaEDP, assumiu o comando da CCR há oito meses e vai conduzir uma sequência de investimentos estimada em R$ 33 bilhões em cinco anos.
Em 2023, o setor de infraestrutura como um todo, incluindo também aeroportos, energia, saneamento básico e telecomunicações, movimentou R$ 213 bilhões no Brasil, o segundo melhor resultado da série histórica – atrás apenas de 2014.
A CCR tem pela frente, porém, o desafio de tentar renovar a concessão da Via Oeste, que inclui a Rodovia Castelo Branco, um dos seus mais importantes ativos, que será relicitada pelo governo do Estado entre este ano e 2025.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Qual é a expectativa em relação a novas concessões?
Nos próximos anos, vemos um potencial de mercado na casa dos R$ 180 bilhões em rodovias e mobilidade urbana, sem contar os aeroportos, para um período de cerca de três a cinco anos. Vai depender do ritmo dos leilões que vierem a ser realizados. Há um sentimento no setor de infraestrutura de que vem pela frente, nos próximos anos, aquilo que nós chamamos de um superciclo de investimentos. Existem estudos que mostram que o Brasil, dada a sua dimensão econômica, poderia estar investindo o dobro do que faz em infraestrutura, e não apenas uma manutenção das redes. O País investe cerca de 2% do seu PIB em infraestrutura, e poderia ser cerca de 4%. Ainda assim, o setor está fechando o ano com valor de R$ 213 bilhões em investimentos, o que fica muito próximo do recorde histórico, batido em 2014, e com um crescimento de 20% em relação a 2022. É um sinal de que o Brasil já está caminhando para um superciclo de investimentos em infraestrutura. Tudo leva a isso: um quadro político estável, a queda da taxa de juro, a inflação controlada, o quadro macroeconômico estabilizado e uma reforma tributária aprovada, que agora precisa ser regulamentada.
Então, o quadro macroeconômico é benéfico para o setor?
Conquistamos duas posições no ranking do PIB mundial, ultrapassamos o Canadá e a Rússia, e voltamos a estar entre as dez maiores economias do mundo. A infraestrutura tem de acompanhar isso, porque é um ‘viabilizador’ do crescimento econômico e o retroalimenta. Tudo indica que terminamos o ano de 2023 com um crescimento em torno de 3%. É uma marca muito favorável. Foi também um dos melhores anos de financiamento para infraestrutura, com o BNDES desembolsando R$ 37 bilhões. Estou com uma perspectiva favorável para 2024. Acho que vai ser um ano de continuidade dos bons resultados de 2023.
As primeiras concessões do atual governo não atraíram a iniciativa privada como se esperava. Foi por conta do perfil das concessões ou a iniciativa privada estava mais retraída?
A avaliação que o mercado faz é o equilíbrio (entre) risco e retorno. O projeto tem de se configurar de forma atrativa para os operadores. O mercado, o poder concedente e as agências reguladoras, estamos todos tentando encontrar essa equação, que permite proteger os interesses da sociedade e garantir que os consumidores tenham um serviço adequado, enquanto o acionista tenha um retorno para rentabilizar o seu capital. Acertando essa equação, é bem possível que as metas do governo e do Ministério dos Transportes possam ser cumpridas. Há 26 mil quilômetros de rodovias concedidas, e esse número pode dobrar. Existem ainda muitas estradas que não estão pavimentadas, um potencial ainda muito grande para o Brasil, que é um país continental.
Como o sr. espera que será o ano de 2024 para a CCR?
Estamos num período de alta de investimentos. O grupo intensificou os aportes, e estamos com um plano de R$ 33 bilhões em investimentos, sendo que R$ 28 bilhões irão para as rodovias, pelos próximos cinco a sete anos, com criação de 46 mil empregos novos. O restante irá para mobilidade urbana e aeroportos. É importante destacar que esses R$ 28 bilhões são para rodovias que já operamos, como é o caso da Dutra, que liga o Rio de Janeiro a São Paulo, e das concessões no sul do País. Teremos menos investimentos na concessionária Via Oeste – Castelo Branco e Raposo Tavares –, que está em fim de ciclo e que pode vir a ser relicitada neste ou no próximo ano. Em aeroportos, temos um investimento previsto de R$ 2 bilhões. Fomos a empresa concessionária vencedora da sexta rodada de leilões de aeroportos, e ganhamos 15 aeroportos para operar e fazer melhorias.
A CCR é considerada uma das empresas com ações na B3 que mais podem se beneficiar da queda dos juros. Como isso pode acontecer?
A função financeira é determinante na nossa operação. Temos uma dívida bruta de cerca de R$ 30 bilhões. Portanto, cada ponto porcentual a menos na taxa de juros representa muito valor que deixamos de pagar em juros. E também é bom pela questão de crédito, para estimular o setor a entrar em novos projetos. Ficamos com mais espaço no balanço para poder crescer – fechamos financiamentos com horizonte largo, de 30 anos, de 15 anos, e não é bom fechar condições de financiamento no momento em que as taxas de juros estão muito elevadas.
Fonte: O Estado de S. Paulo
