O estresse nos mercados domésticos provocado pela revelação dos áudios que ligam o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro evidenciou a sensibilidade dos agentes financeiros ao ambiente eleitoral e, nesse contexto, as reações nos juros futuros e no câmbio chamaram atenção, ainda que por fatores distintos.
No câmbio, o dólar exibiu a maior valorização diária frente ao real na sessão de ontem desde dezembro de 2025, justamente quando o mercado se assustou com o anúncio da pré-candidatura de Flávio ao Planalto. Nas duas ocasiões, a alta da moeda americana foi de 2,31%. Ainda que nas duas ocasiões a taxa de câmbio tenha partido de níveis diferentes, a magnitude do movimento ajuda a dar a dimensão da preocupação dos mercados com o assunto, já que é grande o anseio da Faria Lima por uma política econômica vista como mais responsável fiscalmente.
E, com o real em uma posição mais frágil, após ser visto como a melhor aposta do ano, não surpreendeu a magnitude da desvalorização do câmbio doméstico na sessão de ontem. “Como o dólar caiu muito rápido desde o começo do ano, é natural que uma notícia dessa cause uma realização [de lucros]. Quem está vendido em dólar contra o real aproveita para zerar a posição”, diz o diretor da tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt.
No mercado de juros, a deterioração nas taxas futuras já era muito relevante mesmo antes do susto com a questão política. No entanto, tudo se agravou após a revelação dos áudios, o que provocou uma nova disparada das taxas. E, com o movimento da tarde de ontem, os níveis das taxas no mercado de juros já começam a se assemelhar àqueles observados antes de o Tesouro Nacional fazer uma megaintervenção com a recompra de títulos públicos.
Participantes do mercado não esperam uma operação extraordinária do Tesouro já agora, até porque, em março, os leilões extraordinários de recompra ocorreram após um dia de estresse muito relevante que desencadeou ordens de “stop-loss” por motivos técnicos. Hoje, a sensação nos agentes é de que há uma reprecificação do risco de mercado.
“Não é a primeira vez que a oposição leva os mercados para o vermelho. Operadores que estavam ativos no fim do ano passado devem se lembrar de que a simples escolha do atual candidato da oposição abriu a curva em quase 50 pontos-base”, observa o trader de renda fixa de um grande banco local.
Para ele, o evento de ontem foi um ponto importante que reforçou a importância de acompanhar os eventos domésticos, ainda que eles não estejam fazendo preço. “Um lembrete oportuno: se você está focado apenas na cúpula entre EUA e China ou acompanhando o Estreito de Ormuz, não se esqueça das muito reais idiossincrasias da terra brasilis”, diz. “O ruído local de hoje é mais um risco a se ter no radar.”
Fonte: Valor Econômico