Por Gabriel Shinohara, Valor — Brasília
10/04/2024 15h37 Atualizado há 10 horas
Em um dia de inflação acima do esperado nos EUA e abaixo da mediana de expectativas no Brasil, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, classificou o resultado do indicador americano como “bastante ruim” e o registro no Brasil de uma “notícia boa”. Em entrevista à “Globonews”, Campos Neto ressaltou que não há relação mecânica entre a situação nos EUA e no Brasil, mas é algo para se prestar atenção. “Não é porque aconteceu uma coisa nos EUA que vai acontecer no Brasil”.
A última ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) dizia que não há “relação mecânica entre a condução da política monetária americana e a determinação da taxa básica de juros doméstica”.
O presidente do BC ressaltou que tenta olhar os fatores de risco e que, se a taxa de juros americana ficar alta por mais tempo, “eles vão capturar mais liquidez por mais tempo”. Segundo ele, em termos de liquidez mundial e de perspectiva de cortes de juros americanos, as circunstâncias mudaram, mas não dá para dizer que isso vai afetar diretamente o ritmo de cortes a partir de maio. “A gente vai olhar no Copom, ver todas as variáveis, ver se de fato aconteceu alguma coisa que mudou algum outro fator de risco que era diferente.”
Campos Neto disse que o cenário não mudou “substancialmente” e explicou como as situações se relacionam. “Se começar a ter um evento lá fora de liquidez, o canal comunicante normalmente é o câmbio, aí a moeda começa a desvalorizar aqui, com a moeda desvalorizando as pessoas entendem que pode ter um pouco mais de inflação na frente, começa a afetar expectativas de inflação, depois afeta a inflação. Essa dinâmica não está acontecendo.”
O presidente do BC voltou a comentar sobre sua sucessão no cargo. Segundo Campos Neto, seria importante ter um nome para assumir a cadeira “algum tempo antes do fechamento do Congresso”. O mandato de Campos Neto e de mais dois diretores terminam no final deste ano. Ele disse que quer fazer uma transição suave, sentar-se com o sucessor e explicar as questões do BC.
Sobre o tempo para indicação do nome, Campos Neto disse que “algum momento em agosto e setembro, talvez setembro ou outubro. Entre setembro e outubro talvez seja melhor, mas é uma decisão do governo”. Para o tempo de transição, Campos Neto disse que passou cerca de um mês com o ex-presidente Ilan Goldfajn e que a experiência foi boa. “Você já vai para o primeiro Copom muito mais preparado, porque já conversou, você sabe os problemas de fora do Copom, problemas administrativos, liquidação bancária, estabilidade do sistema financeiro”.
Questionado sobre a sua relação com o presidente Lula e o Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 65/23, de autonomia financeira, Campos Neto disse que a relação, do lado dele, está ótima e que está sempre à disposição para conversar. No programa, foi lembrado que Campos Neto participou de um churrasco com Lula no final do ano passado e que sofreu críticas após isso. “Do meu lado a relação está ótima e estou à disposição para conversar sempre, para qualquer churrasco, qualquer almoço e jantar”.
O presidente do BC ainda foi questionado sobre seus planos para depois que sair do cargo e se teria algum objetivo de entrar para a carreira política. Campos Neto disse que “de jeito nenhum” e que não tem nenhuma ambição política. Ele diz que não tem nenhum projeto e está focado nos próximos meses no BC.
Fonte: Valor Econômico