A menos de dois meses das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o Morgan Stanley Wealth Management aponta um caminho concreto para os democratas retomarem o controle da Câmara dos Representantes, ainda que o Senado deva permanecer com os republicanos. O cenário-base do banco, apresentado no relatório US Policy Pulse de 17 de setembro, é o de um Congresso dividido — configuração que, historicamente, foi a mais generosa com as ações americanas.
A aritmética eleitoral explica o desconforto do partido governista. Os republicanos detêm hoje 220 cadeiras na Câmara, contra 215 dos democratas, a margem de controle mais estreita desde 1930. Isso significa que a oposição precisa de um ganho líquido de apenas três cadeiras para virar a casa, enquanto o governo não pode perder mais do que duas. O mapa distrital também não ajuda: em levantamento de 11 de setembro, o Cook Political Report classificou 21 distritos como “toss-up” (disputa em aberto), dos quais 16 são hoje ocupados por republicanos.
No Senado, a barreira é maior. Como os mandatos são de seis anos e apenas cerca de um terço das cadeiras é disputado a cada ciclo, os democratas precisariam de um ganho líquido de quatro assentos para obter maioria própria. Os republicanos podem perder até três e manter o controle pelo voto de desempate do vice-presidente. Ainda assim, o Morgan Stanley admite que riscos geopolíticos e inflacionários podem inclinar a balança em estados como Ohio, Maine e Texas, onde a renegotiação arrastada do USMCA e a pressão dos preços de petróleo e gás decorrente da guerra com o Irã pesam sobre o eleitorado.
Os indicadores de ambiente nacional reforçam o diagnóstico. A vantagem democrata na pesquisa de voto genérico ampliou-se para 8,1 pontos percentuais, ante 6,1 na leitura anterior. A aprovação presidencial está em 40%, na fronteira histórica a partir da qual a oposição costuma ganhar tração. O índice de confiança do consumidor recuou de 51,7 para 47,8, muito abaixo da média histórica de 85,0 em anos eleitorais, e o preço da gasolina comum acumula alta de 29,5% desde agosto de 2025. Em 16 de setembro, os mercados de previsão atribuíam probabilidade de 86% a 88% de controle democrata da Câmara e de 54% a 59% no Senado.
O eixo da campanha, segundo o banco, é o custo de vida. Pesquisa Reuters/IPSOS de 30 de agosto mostrou que 47% dos eleitores registrados consideram o custo de vida o fator mais importante de sua decisão de voto, ante 39% em janeiro. O CPI cheio roda a 3,4% na comparação anual, estável ante o mês anterior, mas as expectativas de inflação para um ano subiram de 4,0% para 4,6%. A leitura do Morgan Stanley é que o eleitor reage menos ao ritmo atual da inflação e mais ao nível acumulado de preços: os prêmios de planos de saúde familiares avançaram 53% entre 2015 e 2025, acima dos 48% de ganho dos salários e dos 36% do CPI, enquanto o CPI de alimentos subiu cerca de 30% desde 2021.
A conta de moradia e energia completa o quadro. A taxa média do financiamento imobiliário de 30 anos atingiu 7% em 15 de setembro, maior patamar em mais de um ano, e o preço mediano de imóveis novos subiu 66,7% em 20 anos, para US$ 410,7 mil. Cálculo do Fed de Atlanta indica que uma família precisaria de US$ 124,674 mil de renda anual para caber no limite de 30% da renda com habitação — 45% acima do que ganha a família mediana. No setor de energia, a eletricidade residencial acumula alta de cerca de 50% desde 2017 e o diesel subiu 51% desde dezembro de 2025, ultrapassando US$ 6 por galão pela primeira vez. A demanda elétrica dos data centers de IA transformou o tema em pauta de campanha.
Para o investidor, a pergunta relevante é o que o resultado significa para os ativos. O Morgan Stanley identificou três dos onze setores do S&P 500 — energia, tecnologia da informação e industriais — que se moveram em paralelo à deterioração da aprovação presidencial: no período em que a aprovação caiu de 43,4% para 40%, energia subiu 44,5%, tecnologia 23,2% e industriais 10,9%. O banco ressalva, porém, que a correlação se desfaz quando medida variação contra variação, sugerindo que o ciclo macroeconômico, e não a política, explica o desempenho.
Historicamente, o retorno médio anual mais forte do S&P 500 no ano seguinte a uma eleição de meio de mandato sob presidente republicano — 23% — ocorreu justamente com Congresso dividido, contra -10% quando os republicanos controlavam Casa Branca e Congresso. Mesmo assim, a recomendação final é de disciplina: para o Morgan Stanley, pressões inflacionárias, ciclo de negócios e o ciclo de investimento em inteligência artificial devem seguir como os principais motores do mercado, acima da aritmética eleitoral.
Fonte: Morgan Stanley Wealth Management, Global Investment Office — US Policy Pulse: Reading the Midterm Election Tea Leaves, por Monica Guerra e Kyle Kerr, 17 de setembro de 2026.


