O Morgan Stanley revisou sua projeção para a política monetária americana e agora espera que o Federal Reserve eleve os juros em 25 pontos-base já na reunião desta semana, seguida de nova alta de mesma magnitude em dezembro — o que levaria a taxa dos fed funds para a faixa de 4,0%-4,25%.
A mudança marca uma reversão da visão anterior do banco, que projetava o Fed parado ao longo de 2026 na expectativa de que o processo desinflacionário avançasse por conta própria. “A inflação continua desacelerando, mas o ritmo da desinflação tem sido mais lento e menos convincente do que o Comitê provavelmente exige”, escreveu a equipe liderada por Michael Gapen, economista-chefe para os EUA.
O gatilho foi o CPI de agosto, com o núcleo subindo 0,29% na margem, acima do esperado. Com base nos dados de CPI e PPI, os economistas revisaram para cima a projeção do núcleo do PCE de agosto, para 0,25% m/m. Na métrica anualizada de três meses, o núcleo do PCE desacelerou de 3,6% em maio para 2,7% em agosto; em seis meses, de 4,0% para 3,2%. Progresso, na avaliação do banco, mas menor do que o antecipado.
Dois fatores explicam a resistência: efeitos de segunda ordem dos preços de energia — as tarifas aéreas subiram 23% em 12 meses — e pressões de demanda ligadas aos gastos com inteligência artificial. O banco revisou recentemente para cima sua projeção de capex dos hyperscalers, para US$ 1,5 trilhão em 2027 e US$ 1,6 trilhão em 2028, um investimento que considera largamente insensível à taxa de juros.
Alta de credibilidade
Pesa também a precificação do mercado. Após o CPI, os contratos passaram a embutir cerca de 90% de probabilidade de alta nesta semana. Não entregar o aperto, argumenta o Morgan Stanley, arriscaria perda de credibilidade e um aumento dos prêmios de risco nos vencimentos longos, repetindo a reação observada depois da reunião de julho.
“Não é ideal que um presidente do Fed tenha de entregar um movimento de juros simplesmente porque os mercados o desejam, mas uma ‘alta de credibilidade’ não está fora de questão e não deve ameaçar a expansão”, afirma o relatório, em referência ao presidente do BC americano, Kevin Warsh, cujo discurso hawkish em Jackson Hole elevou o peso do relatório de inflação de agosto.
O banco reconhece que os argumentos contrários ao aperto são robustos: a inflação está em trajetória de queda; boa parte da alta do último ano vem do lado da oferta — tarifas comerciais e energia —, que a política monetária não endereça bem; as expectativas seguem ancoradas em 2%; o crescimento salarial está contido em 3,1% em 12 meses; e as condições financeiras já apertaram o equivalente a 50 bps de alta de juros desde o início das hostilidades no Oriente Médio, em 28 de fevereiro.
O dot plot
Para o Summary of Economic Projections (SEP) de setembro, o Morgan Stanley espera uma mediana compatível com duas altas de 25 bps em 2026 — incluindo a desta semana —, seguidas de um corte em 2027 e outro em 2028. A mediana da taxa básica para 2026 iria de 3,8% em junho para 4,1%.
As demais projeções devem mudar pouco: PIB de 2,2% para 2,1% neste ano, desemprego revisado 0,1 ponto para baixo ao longo do horizonte e inflação praticamente inalterada. Na prática, o Comitê sinalizaria que precisa de uma trajetória de juros mais alta para entregar o mesmo resultado de inflação projetado em junho.
O cenário-base é de 50 bps de aperto total, mas o banco mapeia alternativas que vão de uma alta única — caso a desinflação acelere — a um ciclo de 100 bps em um cenário de “animal spirits”. O mercado já precifica quase quatro altas de 25 bps no próximo ano, com taxa terminal de 4,55% em outubro de 2027.
Posicionamento
Os estrategistas de juros recomendam neutralidade em duration e formato da curva de Treasuries, mantendo flatteners de OIS entre as reuniões de setembro e outubro — a tese é que o mercado exagera a chance de o Fed iniciar um ciclo reunião a reunião. Em câmbio, a leitura é que os preços de energia seguirão ditando o EUR/USD no curto prazo. Em agency MBS, a recomendação é neutra; em municipais, o banco saiu de cautela para neutralidade, avaliando que o mercado já precificou a virada hawkish do Fed.
Fonte: Morgan Stanley Research — “September FOMC Preview: Sticky Inflation Forces Rate Hikes”, Federal Reserve Monitor | North America, 14 de setembro de 2026.


