Embora o volume de contratações em agosto tenha decepcionado as expectativas do mercado, os números de agosto do “payroll”, o relatório oficial do mercado de trabalho dos Estados Unidos, não foram suficientes para decretar uma deterioração mais robusta do emprego na maior economia do mundo. Com isso, os investidores fortaleceram a expectativa em um corte de juros mais contido, de 0,25 ponto percentual, no início do ciclo de flexibilização do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), previsto para o dia 18.
Ao mesmo tempo em que o “payroll” ainda não sugere um mercado de trabalho, de fato, enfraquecido, os agentes já enxergam nos números uma necessidade maior de acelerar o ritmo da flexibilização monetária nos EUA após a reunião deste mês.
A economia americana criou 142 mil empregos em agosto, mas o “payroll” também mostrou uma revisão bastante expressiva na abertura de vagas nos meses anteriores: em julho, elas passaram de 114 mil para 89 mil, e, em junho, o número foi revisado de 206 mil a 118 mil. Ao mesmo tempo, a taxa de desemprego nos EUA voltou a cair, de 4,3% a 4,2%, e o rendimento médio por hora subiu 0,4% entre julho e agosto, acima da previsão do mercado.
Para o economista Stephen Juneau, do Bank of America (BofA), os dados do “payroll” não são “alarmantes” e, até por isso, o banco mantém a previsão de corte de 0,25 ponto pelo Fed neste mês. Para ele, os números do mercado de trabalho foram mistos, com uma geração de empregos fracas, mas todo o resto positivo.
Juneau diz que, para mudar a sua previsão para um corte mais agressivo nos juros, de 0,50 ponto em setembro, a criação de vagas teria de ser menor e a taxa de desemprego deveria ficar em cerca de 4,4%. Dito isso, com a desaceleração do mercado de trabalho e uma inflação que já não preocupa o Fed, “cortes sequenciais são muito prováveis”, diz o economista.
O BofA, inclusive, alterou seu cenário para o ciclo de flexibilização do Fed e, agora, prevê cortes de 0,25 ponto nas cinco próximas reuniões de política monetária, de setembro a março de 2025, o que levaria a taxa dos Fed funds ao intervalo entre 4% e 4,25%. Depois disso, o Fed desaceleraria o ritmo de cortes para um por trimestre. “Em nossa opinião, os dados de emprego aumentaram a urgência para que o Fed volte a manter as taxas próximas do nível neutro”, aponta o banco.
O economista-chefe para EUA do J.P. Morgan, Michael Feroli, também defende um retorno rápido à taxa de juros neutra, aquela que não restringe nem estimula a atividade econômica. Por isso, em seu cenário básico, o banco já trabalha com um corte de 0,5 ponto percentual pelo Fed neste mês.
“Achamos que há bons motivos para voltarmos rapidamente à neutralidade”, disse o economista em conferência com clientes após a divulgação do “payroll”. “Se o Fed, de fato, fará o que pensamos que ele deveria fazer ainda é uma questão em aberto.”
Os economistas do Morgan Stanley, por sua vez, avaliam que a “leve recuperação” na geração de empregos entre julho e agosto será suficiente para que o Fed opte por uma redução de juros mais conservadora no dia 18. “O ‘payroll’ de agosto sugere que a fraqueza de julho foi exagerada, mas que o mercado de trabalho está claramente desacelerando”, diz a equipe de economistas liderada por Seth Carpenter em relatório.
Da mesma forma, o economista Derek Holt, do Scotiabank, acredita que o banco central americano deve “agir com cuidado” mesmo com um mercado de trabalho menos aquecido. “A economia americana continua com excesso de demanda. As pressões salariais continuam significativas. As tarifas [comerciais] — se aplicadas — correm o risco de ter efeitos inflacionários de primeira rodada e estaremos em uma posição melhor para avaliar esse risco após a eleição presidencial de 5 de novembro”, pondera o economista, ao fazer referência à política comercial que pode ser implementada caso o republicano Donald Trump seja eleito.
Holt avalia que o discurso do diretor do Fed Christopher Waller, publicado pouco depois do “payroll”, indica uma postura “equilibrada e cautelosa” antes do início do ciclo de cortes de juros. Além de ser uma das vozes mais influentes do atual Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), Waller também se destacou por sua posição conservadora em relação à maioria dos demais dirigentes do banco central nos últimos anos.
Embora Waller tenha dito que “chegou a hora” de cortar os juros, ele avaliou que ainda não vê risco elevado de recessão nos EUA e que, por ora, espera que a flexibilização monetária ocorra de forma “cuidadosa”, à medida que o emprego e a economia continuam crescendo.
Os comentários de Waller fizeram com que o mercado pendesse de vez para um corte mais modesto em setembro. Conforme o levantamento do CME Group com base nos futuros dos Fed funds, os investidores precificam 70% de chance de um corte de 0,25 ponto percentual, com 30% de probabilidade de redução de 0,5 ponto.
Além do discurso de Waller, os comentários mais recentes do presidente do Fed de Nova York, John Williams, sugerem a preferência da cúpula do banco central por um início menos agressivo do ciclo de cortes, diz o time de economistas do Goldman Sachs. Segundo o chefe da distrital do Fed, os juros podem se mover a uma posição “mais neutra com o tempo, a depender da evolução dos dados, das perspectivas e dos riscos para atingir nossos objetivos”.
“Na nossa visão, esses comentários são consistentes com a projeção de um corte de 0,25 ponto percentual em setembro e indicam que as lideranças do Fed estão abertas a cortes de 0,5 ponto nas reuniões seguintes se o mercado de trabalho continuar a se deteriorar”, diz o relatório do Goldman Sachs assinado pelo economista-chefe Jan Hatzius.
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Fonte: Valor Econômico