A vice-presidente democrata Kamala Harris está sob pressão para ter um bom desempenho no debate desta terça-feira (10) contra o ex-presidente republicano Donald Trump, depois que pesquisas sugeriram que seu impulso a disputa presidencial pode estar diminuindo.
O confronto na Filadélfia da noite desta terça-feira (10) será o primeiro entre Kamala e Trump e também pode ser o único, pois nenhum outro debate foi agendado antes da votação de novembro entre os dois rivais pela Casa Branca.
Ambas as campanhas sabem que o confronto pode ser um novo ponto de inflexão na disputa deste ano, marcada por uma sucessão de reviravoltas, começando com a implosão da tentativa de reeleição de Joe Biden após seu desastroso debate de junho contra Trump.
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Kamala estará mais sob os holofotes, já que ela é menos conhecida do que Trump pelos eleitores americanos. De acordo com o rastreador de pesquisas nacionais do “Financial Times”, sua liderança na disputa encolheu para 2,9 pontos percentuais nas últimas semanas, sugerindo que ela não recebeu nenhum impulso extra da convenção democrata em Chicago.
A pesquisa nacional New York Times-Siena divulgada ontem mostrou Trump numericamente à frente por 1 ponto percentual, o que significa que a corrida está em empate técnico. Uma pesquisa da CBS News/YouGov também mostrou uma disputa acirrada nos Estados indecisos de Michigan, Pensilvânia e Wisconsin.
Os democratas dizem que Kamala tem o desafio de se apresentar aos americanos que não estão familiarizados com suas políticas, mas estão abertos a votar nela. “Penso que se Kamala mostrar que consegue fazer de improviso o que fez com sucesso de uma forma relativamente planejada, isso irá ajudá-la — se não decisivamente, pelo menos”, disse Matt Bennett, estrategista democrata da Third Way, o think tank de centro-esquerda. “O problema para ela é que as expectativas sobre Trump são muito baixas. Ele é sempre caótico. Ele é sempre bombástico, e ele será isso.”
Paul Begala, o veterano estrategista democrata, diz que uma das principais prioridades de Kamala será “definir-se como a mudança”. Ele também disse que a vice-presidente precisa “atacar Trump em vez de ficar defendendo Biden” e “mostrar sua juventude, vigor, novas ideias e retratar Trump como velho, obsoleto e retrógrado”.
Harris escolheu se preparar para o debate em um hotel no centro de Pittsburgh, a cidade industrial no oeste da Pensilvânia que pode ser crucial para o resultado da eleição. Embora ela tenha dado poucas dicas de como abordará Trump, em uma visita a uma loja de especiarias no sábado, Harris disse que estava pronta para o confronto. Sua mensagem amanhã será a de que “é hora de virar a página da polarização, é hora de unir nosso país [e] traçar um novo caminho a seguir”, disse ela à pequena multidão.
Embora Kamala seja conhecida por ser uma boa debatedora, Ed Rendell, ex-governador democrata da Pensilvânia, disse que enfrentar Trump não será simples e que a vice-presidente não deve se deixar provocar. “Ela basicamente precisa ignorá-lo. Não permitir que ele a irrite. Não permitir que ele a perturbe”, disse. “[E] quando ele estiver dizendo coisas rudes ou ridículas, dar a ele [uma resposta]”.
Rendell acrescentou: “Os eleitores querem ver, especialmente com uma candidata mulher, ver uma mulher que saiba enfrentar a situação, que não se deixe intimidar, não se deixe derrotar”.
De acordo com a mídia americana, Trump pediu a Matt Gaetz, o congressista republicano linha-dura da Flórida, e a Tulsi Gabbard, a ex-congressista democrata, para ajudá-lo a se preparar para o debate. Como costuma fazer, Trump tem atacado os anfitriões do evento na ABC News, sugerindo que seriam tendenciosos contra ele. Trump também resistiu a uma pressão de Kamala para permitir que os microfones fiquem abertos durante o debate, em vez de silenciados quando o outro candidato estiver falando.
Mas Trump não está fazendo o que os republicanos tradicionais e estrategistas do partido dizem que ele deveria fazer, que é se concentrar em questões como inflação e imigração, onde eles acreditam que Kamala é vulnerável.
Na sexta-feira, ele convocou uma coletiva de imprensa na cidade de Nova York, mas não respondeu a perguntas e passou o tempo reclamando de seus problemas legais e até mesmo criticando seus próprios advogados. Após um comício em Wisconsin na noite de sábado, ele foi às redes sociais para fazer uma ameaça de buscar longas sentenças de prisão para “aquelas pessoas que trapacearem” na contagem dos votos na eleição deste ano.
Mas Kamala não está subestimando Trump. “Certamente esperamos que Donald Trump esteja pronto para o debate, ele é um showman”, disse um dos assessores de campanha do vice-presidente, observando que este seria o sétimo debate presidencial do republicano, comparado ao primeiro da vice-presidente. Seu objetivo seria mostrar um contraste claro para os eleitores, disse o assessor.
“O objetivo deste debate é ver a escolha entre a vice-presidente Kamala, que vai definir uma visão para tornar nossas vidas melhores, aumentar as oportunidades econômicas, proteger nossas liberdades, e Trump, que vai promover uma agenda obscura e retrógrada e está focado apenas em si mesmo”, disse o assessor.
Kevin Madden, um estrategista republicano do Penta Group, disse que Kamala “ainda é uma tela em branco para muitos eleitores”. “Ela pode oferecer uma visão concreta para o futuro? Ela pode definir sua candidatura além da sombra de ser vice-presidente de Biden?”
Amy Walter, a principal analista política do apartidário “Cook Political Report com Amy Walter”, escreveu em uma nota neste mês que “para Kamala, sucesso significa tranquilizar os eleitores indecisos de que ela não é tão ‘extremista’ ou ‘radicalmente de esquerca’ quanto Trump e seus aliados sugerem”.
“Há pouca chance de que as opiniões dos eleitores sobre Trump mudem. Em vez disso, a grande questão é se isso impacta a maneira como os eleitores percebem Kamala”, disse Walter.
Fonte: Valor Econômico