O script desenhado na noite de ontem foi seguido à risca pelos mercados na manhã desta quinta-feira. Após um Federal Reserve (Fed) mais suave e um tom mais cauteloso do Banco Central do Brasil, o dólar amanheceu em queda; os juros de curto prazo, em alta; e as taxas longas em leve baixa. O real não conseguiu sustentar o desempenho do início da sessão, na medida em que o diferencial de juros menor ainda segue no radar, em um dia no qual a Suíça começou a afrouxar a política monetária. O tom mais “hawkish” do Copom, contudo, ajuda a dar sustentação aos ativos domésticos, mas deixa o mercado dividido quanto ao rumo da Selic.
A Suíça deu o pontapé, entre os mercados desenvolvidos, a um início de ciclo de redução dos juros. E essa ação, mesmo sendo de um banco central um pouco mais periférico, deixou em segundo plano a intenção do Fed de reduzir os juros três vezes neste ano. O dólar, assim, volta a ganhar força no exterior. Contra o franco suíço, por exemplo, a moeda americana disparava, ao subir 1,06%. O índice DXY também subia, mas em menor ritmo, com alta de 0,14%.
No Brasil, porém, o dólar amanheceu em queda firme, se afastou das mínimas e agora continua a rondar a estabilidade, em torno de R$ 4,97, o que mostra, ainda que de forma tímida, alguma resiliência do real, na esteira do tom mais cauteloso adotado pelo Copom, A simples retirada do plural no “forward guidance” da instituição não gerou grandes revisões nas projeções para a Selic e, na curva a termo, a precificação de Selic no fim do ciclo teve leves ajustes. Contudo, o tom mais “hawkish” ajuda a ancorar a moeda brasileira, o que reforça o viés otimista com o real sustentado por grandes bancos estrangeiros.
Ontem, o J.P. Morgan abriu posição favorável ao real via opções ainda durante a manhã. Já o Citi também abriu posições vendidas em dólar contra real após a decisão do Fed ter sido mais “dovish” que o esperado pelos mercados e adotou um “target” (alvo) de R$ 4,80. Segue, assim, um tom mais otimista entre os participantes do mercado em relação ao câmbio doméstico, no momento em que os negócios nos mercados de moedas estão bastante concentrados no “trade” de diferencial de juros.
O comportamento da curva a termo também chama atenção. Com alta dos juros curtos e queda dos longos, a curva ganha um caráter mais achatado (“flattening”), mesmo em um contexto que abarca, por exemplo, uma indicação do Fed de que o juro neutro subiu nos Estados Unidos. Parte dos agentes continua a ver valor especialmente nos trechos curtos e intermediários da curva, diante da visão de que a Selic pode cair mais que o precificado. Nesse sentido, vale notar que mesmo casas que mantêm uma visão mais “dovish” em relação aos juros continuam a sustentar esse viés, apesar da alteração do “guidance”.
Os economistas do UBS BB, por exemplo, continuam a projetar a Selic em 8% no fim deste ano, assim como o Santander, que manteve a expectativa de 8,5% para o juro básico ainda em 2024.
Os cenários mais “dovish” partem do pressuposto de que o ritmo de 0,5 ponto percentual de cortes por reunião pode seguir até mesmo em junho, apesar do Copom não mais sinalizar isso. A divisão no mercado é evidente e a chance de uma redução no ritmo de cortes aumentou. Enquanto as apostas para a decisão de maio já estão cravadas em torno de um corte de 0,5 ponto, para junho há 50% de chance de uma redução de 0,25 ponto e 41% de probabilidade de um novo corte de 0,5 ponto, de acordo com o mercado de opções digitais.
Fonte: Valor Econômico

