O forte movimento de venda dos bonds (títulos de dívida externa) da Raízen nos últimos dois dias elevaram as dúvidas de investidores quanto a um contágio maior e uma eventual crise no mercado de crédito. Em entrevista ao Valor, o gestor da área de fundos internacionais da AZ Quest, Rafael Basso, porém, argumenta que o mercado pode ficar irracional por mais algum tempo, mas diz não ver um estresse generalizado.
“Estamos longe de antever uma crise de crédito, um estresse. Estamos num momento de corte de juros nos Estados Unidos que irá permitir que as empresas daqui acessem o mercado de fora com custo mais baixo”, afirma.
“O que estamos vendo em bonds corporativos foram casos bem específicos, como Ambipar, Braskem e, nos últimos dias, com Raízen e CSN, que são [questões] mais pontuais”, acrescenta o executivo.
Ele cita que o investidor estrangeiro olha a Raízen como uma empresa com ‘investment grade’ (grau de investimento). “O problema é que, quando o estrangeiro olhou o nível de taxa da Raízen, ele percebeu que o nível de spread da companhia já não estava mais compatível há algum tempo com ‘peers’ [pares] da mesma categoria de investimento”, diz.
Basso afirma que o crescimento do mau humor provocado pelos problemas da Ambipar e da Braskem fez os investidores reavaliarem o valor de muitos títulos e notar que vários estavam caros. Nesse momento, diz, os gestores pensaram: “Posso reduzir um pouco a posição e comprar o CDS [credit default swap], porque o CDS ficou barato.”
Ele conta que o movimento de compra de CDS foi especialmente intenso entre ontem e hoje. “Tivemos uma abertura de 13 bps [pontos-base] no CDS Brasil apenas hoje. Na semana, o CDS abriu perto de 130 bps e agora está em 150 bps. É uma coisa relevante”, diz. “Conversei com um ‘dealer’ que me disse que negociou mais volume de CDS hoje do que nos últimos três meses. Foi uma busca grande por proteção.”
O mau humor provocado pelos problemas em alguns bonds foi intensificado pela maior aversão a risco global vista hoje após as novas ameaças tarifárias de Donald Trump sobre a China, explica o gestor. Hoje à tarde, o líder dos EUA disse, em sua rede social, que iria impor “tarifas maciças” sobre as importações chinesas. A confirmação do aumento veio no fim do dia, com os mercados fechados.
Antes da confirmação da imposição de tarifas mais duras e do feriado americano, na segunda-feira, porém, Basso diz que os investidores optaram por comprar proteções contra o risco de países desenvolvidos, aproveitando que os “hedges” estavam bem baratos, o que levou a uma alta dos CDS de vários lugares. “O mercado estava resiliente até então e isso deu segurança para os investidores ficarem sem proteção por um tempo. O Trump parecia mais tranquilo e os conflitos geopolíticos pareciam mais regionalizados. O pessoal pensou que não valia a pena gastar dinheiro comprando proteção. Tudo isso mudou hoje”, aponta.
Movimento parecido ocorreu com o CDS brasileiro, que também estava barato, o que ajudou a impulsionar a busca por proteção. Hoje, o CDS local fechou em 150 bps, o que estaria abaixo da média dos últimos 10 anos, que é entre 220 e 230 bps, segundo o gestor.
“Se olharmos para o CDS Brasil nos últimos 10 anos, a mínima histórica que ele negociou foi 89 bps, pouco antes da pandemia. Já a máxima foi de 530 bps no auge de 2015. Nos últimos dois anos, ele vinha abaixo dos 200 bps”, observa.
Na visão do executivo, o movimento mais negativo visto nos mercados hoje foi a combinação de um mau humor nos bonds brasileiros, juntamente com o movimento técnico do CDS de países desenvolvidos.
Em meio a uma correção de preços no mercado de bonds, o executivo diz que tem buscado diversificar as proteções nos fundos AZ Quest Altro FIM e AZ Quest Supra FIM. “Vamos esperar para ver o que vai acontecer, mas vamos continuar comprando proteção. Isso não significa só comprar CDS Brasil. Hoje, temos priorizado essa diversificação de instrumentos de hedge [proteção]”, observa, ao citar que tem optado por comprar opções de índice de derivativo de crédito, como CDX dos EUA e da Europa, para além de opções de ETFs de crédito e de uma proteção no CDS Brasil.
Fonte: Valor Econômico