24/04/2024 05h02 Atualizado há 4 horas
A recente onda de volatilidade que dominou os mercados locais nas últimas semanas abriu algumas oportunidades pontuais no mercado de juros doméstico, mas, na bolsa e no câmbio, ainda não há prêmios suficientes que justifiquem uma tomada maior de risco. Na visão do executivo-chefe de investimentos (CIO) da Santander Asset, Mario Felisberto, em entrevista ao Valor, o momento errático dos ativos locais inspira maior cautela e se traduz em uma postura mais tática para aproveitar assimetrias de curto prazo e não há, neste momento, uma convicção estrutural que permita apostar em cenários de prazo mais longo.
Valor: O cenário global tem se mostrado mais desafiador nos últimos meses e disparou uma série de revisões recentemente. Como a Santander Asset atravessou o período?
Mario Felisberto: Já esperávamos para este ano um quadro que classificamos como mais equilibrado em comparação aos últimos anos, no sentido de haver um crescimento mais moderado e, em paralelo, uma inflação que está convergindo para as metas. Isso traz muitas vantagens em termos de estabilidade. Certamente tivemos algumas modificações em nossas projeções, mas não estamos falando de uma mudança substancial de cenário. Ele segue parecido com o que víamos antes.
Valor: Houve ansiedade no mercado sobre cortes de juros do Fed?
Felisberto: Quando tentamos limpar um pouco os ruídos, a discussão é muito mais sobre o momento em que o Fed vai iniciar os cortes de juros e com que velocidade eles se darão. Como a economia dos EUA tem mostrado resiliência e a inflação está mais resistente, não parece existir uma pressa ou uma pressão por cortes de juros. A incerteza aumentou um pouco e não seria surpresa se o Fed precisasse postergar mais um pouco o início do ciclo. Obviamente isso tem impactos no mercado.
Valor: E essas mudanças de cenário influenciaram o portfólio da Santander Asset?
Felisberto: Desde o começo do ano estamos cautelosos. Principalmente por considerar que o mercado exagerou um pouco nas expectativas em relação ao corte de juros, em termos de ‘timing’ e de tamanho dos cortes. Os mercados, no fim do ano passado, pareciam já precificar um movimento bem otimista e preferimos adotar essa postura cautelosa. De lá para cá, a bolsa americana seguiu seu movimento de alta, justificado, em parte pela trajetória sólida da economia dos EUA e, em parte, pela preferência dos investidores por temas como inteligência artificial e tecnologia.
Valor: Esse movimento da bolsa americana deve continuar?
Felisberto: Mesmo considerando alguns fatores positivos, não vemos espaço para altas adicionais das bolsas globais, então adotamos uma visão cautelosa. E, do lado da renda fixa global, achamos que o mercado agora pode ter exagerado um pouco a precificação de movimento de cortes nos EUA, ainda que não o suficiente para ter uma posição mais convicta. Qualquer posicionamento nosso em renda fixa global tem uma natureza tática e de curto prazo, mais para aproveitar algum exagero do mercado do que propriamente uma tendência de queda mais acentuada. Até porque estamos com um risco potencial de postergar um pouco mais os cortes de juros.
Valor: E isso se reflete também no cenário local?
Felisberto: Tudo que eu falei para a economia global vale, também, para a economia local. Estamos com um cenário mais equilibrado para a economia global. Temos um crescimento de 2,2%, contra 2,9% no ano passado e uma inflação de 3,6%, contra 4,6% no ano passado. É uma inflação ainda acima da meta, mas já bem próxima dela. Não temos um cenário muito fora do equilíbrio da economia em termos de crescimento e inflação. O que temos visto são indicações de uma economia mais resiliente. O crescimento surpreendeu um pouco para cima e a inflação não chega a surpreender para cima, mas também não há surpresas para baixo, tanto em termos de número como de qualidade, como vimos no segundo semestre do ano passado.
“Incerteza aumentou um pouco e não seria surpresa se o Fed precisasse postergar mais o início do ciclo” — Mario Felisberto
Valor: E em relação à condução da política monetária?
Felisberto: O BC já trouxe a Selic de 13,75% para 10,75%. A essa altura, ainda tem um espaço para cortes adicionais, mas o espaço não é tão significativo quanto era lá atrás. Então ele mesmo sinalizou que não quer se comprometer com o passo de 0,5 ponto percentual por muitas reuniões porque quer observar os dados sobre atividade, inflação, e o próprio cenário global sobre o câmbio, para ver qual o melhor passo para cortar os juros ao longo dos próximos meses.
Valor: O cenário global traz cautela para os cortes na Selic?
Felisberto: O cenário global, na margem, tira um pouco de espaço para o corte de juros. Alteramos a nossa projeção de Selic no fim deste ano de 9% para 9,5%. Não é uma mudança significativa, mas coloca uma injeção de cautela. Temos visto o comportamento do dólar lá fora e como isso está impactando a moeda aqui dentro. É uma variável que o BC tem que monitorar atentamente. Isso pode ter impacto na inflação e, portanto, no espaço para os cortes. E também vemos a dinâmica da política fiscal local, que é um fator para ser monitorado de perto e que aumenta a incerteza em relação ao caminho que o BC tem para cortar os juros. Isso coloca um pouco de assimetria para cima, no sentido de tirar o espaço para cortar os juros. O BC tem que observar o impacto que isso tem sobre as expectativas e o comportamento das variáveis econômicas.
Valor: E como se traduz para o mercado de juros local?
Felisberto: A renda fixa parece ter um pouco de prêmios do ponto de vista tático. Fizemos uma revisão para cima na perspectiva para a taxa Selic, mas o mercado parece ter exagerado um pouco na reação e isso gera um pouco de prêmio, principalmente na parte mais curta da curva de juros. Não é uma visão que colocamos de modo mais estrutural. É um posicionamento que capturamos nos fundos de renda fixa ativa, ao avaliarmos que o mercado pode ter uma descompressão.
Valor: O mercado tem migrado para uma visão de que a Selic pode ser reduzida em 0,25 ponto já em maio. Essa também é a visão da Santander Asset?
Felisberto: Obviamente, a esta altura, o BC está querendo ter mais graus de liberdade para definir os próximos passos, comparado com o que ele tinha nas últimas reuniões. O que me parece é que, mesmo com a piora das variáveis, com alta do câmbio e aumento da percepção de risco local e global, não haveria uma deterioração suficiente para o BC mudar o ritmo. Mas é claro que tivemos uma mudança relevante de cenário nas últimas semanas e o BC tem que observar o comportamento dessas variáveis. Até agora, acho que ele não deveria mudar o ritmo para a próxima reunião, mesmo sendo uma decisão mais difícil, um ‘close call’.
Valor: Para vocês, também houve exageros em outros mercados, como no câmbio?
Felisberto: No câmbio não temos uma percepção de exagero e isso vai na linha de fortalecimento do dólar lá fora, com impacto nas moedas de mercados emergentes. O real sofreu um pouco mais por ter tido um aumento na percepção de risco local. Não vemos exagero.
Valor: E na bolsa?
Felisberto: Enxergamos a bolsa local com cautela. Quando existe toda essa mudança na percepção de risco sobre a economia local, sobre a trajetória de taxa de juros global, o ambiente não deixa claro que as variáveis vão se alinhar para uma potencial melhora da bolsa. Também não achamos que houve exagero na bolsa nessa realização recente. O fato de a bolsa ter caído não traz uma visão muito atrativa de valorização potencial. Obviamente, pensando a médio prazo, o mercado parece descontado, mas, no curto prazo, o cenário parece carregado de incertezas.
Fonte: Valor Econômico