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O nível de maturidade das empresas que trabalham, direta e indiretamente, com o “open finance” (ou sistema financeiro aberto) no país cresceu em relação ao ano passado, enquanto, no caso dos usuários, o desempenho piorou. É o que mostra a segunda edição do Open Finance Maturity Index Brasil, desenvolvido pela Capgemini e antecipado ao Valor. Para a consultoria, o ecossistema avança de forma mais lenta e a adesão do usuário, abaixo do esperado, representa um dos principais desafios atuais.
O índice de maturidade das empresas ficou em 6,70 em 2024, ante os 6,43 registrados no ano passado. A escala vai de zero a dez. A consultoria, no entanto, “subiu a barra” na análise deste ano e incluiu novos critérios, explica a responsável por open finance da Capgemini no Brasil, Jamile Leão. Por isso, se fosse utilizada a mesma régua, a nota de 2024, seria, na verdade, de 6,95, ou seja, um avanço ainda maior. A consultoria mapeou também a existência de mais de 200 casos de uso implementados.
Já o índice de maturidade do consumidor pessoa física ficou em 4,70, depois de ter atingido 5,34 no ano passado. Se tivessem sido mantidos os critérios da edição anterior, o resultado em 2024 teria sido de 5,08, ou seja, ainda seria inferior ao do ano anterior.
O crescimento na nota das empresas reflete o fato de que parte das instituições já começou a entrar em fase de rentabilização de soluções, diz a consultoria. Foram observados mais investimentos, comunicação e presença de metas. De acordo com o relatório, atualmente, 65% das empresas entrevistadas já têm atividades de open finance desenvolvidas e o percentual das que estão em fase de rentabilização subiu de 27% para 32%. A definição de indicadores-chave de desempenho, por sua vez, segue baixa e impactou negativamente os resultados. No ano passado, foram avaliados sete atributos, enquanto em 2024, foram dez.
Apesar do aumento geral da maturidade das empresas, Leão destaca que aumentou a distância entre os diferentes segmentos de participantes. “Neobancos e fintehcs estão com metas muito mais elevadas de negócios do que os incumbentes e estão rentabilizando mais as soluções”, afirma. A média geral foi de 6,70, mas o resultado de fintechs e neobancos ficou em 7,70, enquanto o de incumbentes foi de 6,50.
Em relação à análise dos consumidores de open finance, é importante destacar que a consultoria ainda não conseguiu incluir pessoas jurídicas usuárias no índice por falta de base. Isso porque o ecossistema continua sendo utilizado basicamente por pessoas físicas. “Os casos de uso continuam concentrados nas pessoas físicas e os consentimentos também. É um exemplo de ‘o ‘ovo ou a galinha’”, afirma.
No caso do usuário, a pesquisa subiu ainda mais a barra da análise e o número de critérios passou de quatro para dez. A Capgemini explica que, como no ano passado a adesão era muito baixa, a escolha naquele momento foi por medir apenas o grau de conhecimento sobre o tema e a confiança que as pessoas tinham nas instituições financeiras. Neste ano, foram incluídos atributos como consentimento, uso, conhecimento de serviços, familiaridade digital e entendimento do valor dos dados.
Leão explica que, neste ano, houve queda na confiança do usuário nas instituições. “Nossa teoria é que a confiança no segmento financeiro como um todo caiu, na esteira de fatores macroeconômicos, e isso se reflete também no open finance”, afirma. Outro fator relevante para o recuo do índice em 2024 foi a retirada do termo “open banking” das perguntas. Como o mercado tem passado a utilizar apenas “open finance” (termo mais amplo que extrapola o ambiente bancário), a consultoria optou por manter apenas essa alternativa. Foi observada, ainda, uma baixa utilização dos serviços entre os que aderiram.
A falta de conhecimento do cliente em relação ao ecossistema é percebida pelas empresas, mostra a pesquisa. De acordo com 58% das companhias, esse é o principal fator que explica o fato de a adesão estar abaixo do esperado. Outros 34% dizem que há pouca percepção de ganhos ou vantagens ao aderir; 30% citam falta de confiança ou segurança com seus dados; 25% falam em experiência ruim nas etapas de consentimento e 17% acreditam que as soluções oferecidas não estão aderentes às necessidades das pessoas.
Quando questionadas sobre quais empresas deveriam se empenhar mais para popularizar o ecossistema, 51% citaram o Banco Central e o governo; 29% destacaram os bancos incumbentes e 28%, as fintechs. De acordo com a consultoria, um obstáculo que ainda precisa ser trabalhado são as falhas nas jornadas de consentimentos e pagamentos, que apresentaram uma taxa de conversão de apenas 43% em abril de 2024.
Enquanto antes as empresas entendiam que primeiro precisavam focar no cumprimento das exigências regulatórias e depois nos casos de uso, agora ficou muito claro que a agenda regulatória não vai parar, diz Leão. “Por isso, não tem como dedicar esforços primeiro a essas exigências e depois aos casos de uso. As duas coisas precisam andar em paralelo”, afirma.
As empresas foram questionadas ainda sobre a mudança na presidência do Banco Central, prevista para o final do ano, e a maioria disse não enxergar riscos para o futuro do open finance, independentemente de quem assumir o posto. “Alguns acham que o projeto pode desacelerar, mas não acabar.”
O Índice de Maturidade foi construído em parceria com um comitê executivo, formado por diferentes participantes de mercado. Foram 286 empresas entrevistadas e 918 usuários finais.
Fonte: Valor Econômico
