O manifesto recente de Dario Amodei, fundador da Anthropic, defendendo a desaceleração do desenvolvimento dos modelos mais avançados de inteligência artificial, dificilmente produzirá uma redução estrutural do ciclo de investimentos no setor. Essa é a avaliação de Sylvio Castro, head global de Investment Solutions e Fund of Funds, e Thomas Wu, estrategista-chefe de investimentos do Itaú Unibanco, em relatório publicado em 22 de setembro.
No documento, posteriormente apoiado por Sam Altman, CEO da OpenAI, e Elon Musk, CEO da Tesla e da SpaceX, Amodei argumenta que a IA de fronteira deveria desacelerar e passar a operar sob mecanismos mais rigorosos de supervisão independente.
Segundo os estrategistas, o debate vai além do setor de tecnologia. O banco sustenta que a atividade global vem sendo moldada por duas forças de intensidade semelhante e sinais opostos: o choque negativo de oferta provocado pelo conflito no Oriente Médio, com petróleo mais caro pressionando a inflação e enfraquecendo o crescimento, e o choque positivo de demanda gerado pelos investimentos em infraestrutura de IA — data centers, semicondutores, energia, redes, sistemas de refrigeração e infraestrutura digital. Ambos empurram a inflação para cima, mas, enquanto o petróleo atua como freio, a IA funciona como acelerador, o que ajuda a explicar a resiliência da economia global. Uma desaceleração relevante do capex de IA, portanto, afetaria o crescimento global e a própria visão de investimentos do banco.
O relatório aponta três possíveis motivações para o manifesto. A mais benigna, apresentada pelos próprios executivos, é que os mecanismos de segurança não estariam acompanhando a evolução dos modelos. A segunda, discutida por economistas e especialistas em regulação, é que exigências regulatórias mais complexas elevariam as barreiras de entrada e fortaleceriam as líderes da corrida. A terceira é que auditorias independentes e validações externas criariam uma camada adicional de proteção jurídica para as empresas em caso de falhas futuras.
Mesmo que as preocupações sejam genuínas, os estrategistas veem na competição o principal obstáculo a uma pausa. Recorrendo à Teoria dos Jogos, comparam a situação ao Dilema dos Prisioneiros: todos se beneficiariam de uma desaceleração coordenada, mas cada participante tem incentivo individual para seguir avançando. A lógica geopolítica reforça esse quadro, já que EUA e China tratam a IA como ativo estratégico para produtividade, segurança nacional e capacidades militares. Diferentemente das armas nucleares, cujas instalações podem ser inspecionadas, modelos de IA são treinados em data centers indistinguíveis de outras estruturas de computação avançada, o que dificulta a verificação e favorece a desconfiança.
O banco vai além e argumenta que, ainda que Amodei esteja certo e a indústria adote auditorias permanentes e supervisão mais rigorosa, o capex não necessariamente cairia. Na comparação com a indústria aeronáutica, padrões de segurança mais elevados levam a mais testes, simulações e certificações. Auditar um modelo de fronteira exigiria reproduzir treinamentos, testar capacidades, executar cenários extremos e validar continuamente novas versões — tudo com consumo de capacidade computacional, energia e infraestrutura.
Para os investimentos, o Itaú vê, na renda fixa, necessidade persistente de financiamento de empresas de tecnologia, telecomunicações e infraestrutura, sustentando um fluxo relevante de emissões corporativas e oportunidades em crédito privado. Na renda variável, o banco mantém a tese das “picaretas e pás”: em vez de apostar em quem vencerá a corrida, priorizar as fornecedoras da infraestrutura indispensável, cuja demanda tende a seguir elevada tanto num cenário de competição contínua quanto num de supervisão reforçada.
A conclusão dos estrategistas é que a IA segue como uma das forças mais importantes para a atividade econômica global e como contrapeso relevante ao choque do petróleo.
Fonte: Itaú Unibanco — The Weekly Globe, “A corrida pela IA de fronteira: o principal motor de crescimento global está ameaçado?” (22/set/26), por Sylvio Castro e Thomas Wu


