Em reunião ministerial na segunda-feira (20) em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “2026 já começou”, chamou para o Planalto o protagonismo nas ações de governo, demonstrou irritação com a crise do Pix, na semana passada, e cobrou ministros por ações imediatas pela redução do preço dos alimentos.
“2026 já começou. Se não por nós, […] a eleição do ano que vem já começou. Eles [a oposição] já estão em campanha. Não podemos antecipar campanha porque nós temos que trabalhar e entregar para o povo aquilo que o povo precisa”, disse Lula no início da reunião.
Recém-nomeado ministro da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira teve papel de destaque no encontro, ao pedir aos colegas de Esplanada “unicidade na comunicação” e dizer que Lula deve ser “o motor de conteúdo” do governo a partir de agora, de acordo com relatos de pessoas presentes no encontro ao Valor.
A expressão foi interpretada por alguns ministros como um recado de que o protagonismo da comunicação daqui para a frente tem que ser do presidente, que prepara terreno para a disputa eleitoral no ano que vem. Nesse sentido, segundo relatos, todos os feitos e programas considerados positivos devem seguir uma hierarquia. Em primeiro lugar, devem ser atribuídos a Lula, depois ao governo e, depois, aos ministros.
O chamado à “unicidade”, por sua vez, ocorre na semana seguinte ao episódio do Pix, em que a Receita Federal teve que recuar de uma norma editada para fiscalizar movimentações financeiras. O instrumento foi alvo de uma onde de informações falsas de que o governo pretendia promover uma taxação às transações acima de R$ 5 mil.
O próprio Lula, de maneira indireta, fez referência a esse episódio, em sua fala inicial na reunião: “Daqui para frente, nenhum ministro vai poder fazer portaria que depois crie confusão pra nós, sem que essa portaria passe pela Presidência da República pela Casa Civil. Muitas vezes a gente pensa que não é nada, mas alguém faz uma portaria, faz um negócio qualquer, daqui a pouco arrebenta e vem cair na Presidência da República”.
Lula pediu ainda que os ministros da Esplanada conversem com seus respectivos partidos sobre a manutenção do apoio dessas legendas ao atual governo em 2026.
“Eu quero conversar com vocês sobre os partidos que estão alinhados conosco, temos vários partidos políticos, eu quero que esses partidos continuem junto [em 2026], mas estamos chegando no processo eleitoral e a gente não sabe se os partidos que vocês representam querem continuar trabalhando conosco ou não”, afirmou.
A portas fechadas, sem transmissão, Lula voltou a se dirigir aos chamados “ministros de bancada”. Segundo o Valor apurou, o presidente disse que iria conversar com eles e suas bancadas porque sabe “muito bem como cada bancada tem votado”. A fala, lacônica, foi interpretada como um sinal a respeito da reforma ministerial que, espera-se, Lula fará nas próximas semanas.
Após o encontro, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, disse que Lula não tomou “nenhuma decisão” sobre mexidas na Esplanada.
Ele disse ainda que uma das prioridades do governo petista para este ano será a “reorientação” da comunicação. Segundo ele, o Executivo quer fazer com que a população tenha uma “percepção” melhor das medidas governamentais tomadas pelo Executivo. E mencionou que o governo está discutindo um “plano de comunicação” para evitar crises como a do Pix.
Sobre isso, segundo fontes, Sidônio disse aos ministros que está preparando uma espécie de central de monitoramento para dar respostas rápidas às “fake news”.
Lula cobrou ainda dos ministros da Agricultura, Carlos Fávaro, e do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, um plano para baixar o preço dos alimentos no país. E, segundo relatos, disse a eles que isso tem que ser feito com rapidez.
A alta dos alimentos tem impactado a popularidade do presidente, que neste ano centrará esforços em pavimentar seu caminho para a reeleição – ou a eleição de um sucessor – em 2026.
Lula disse aos ministros que “a população não pode esperar” que os preços baixem ainda mais. E reafirmou que quer que esse programa “seja feito já”.
No início da reunião, transmitido pelos canais oficiais, Lula também externou essa preocupação.
“Se a gente trabalhou com reconstrução e união, agora vai ter que trabalhar outra coisa importante: reconstrução, união e comida barata na mesa do trabalhador”, disse, em referência ao slogan oficial “União e Reconstrução”. “Todos os ministros sabem que os alimentos estão caros, e é uma tarefa nossa garantir que o alimento chegue na mesa do trabalhador, da dona de casa e do povo brasileiro em condições compatíveis com o salário que ele ganha.”
Em 2024, o preço dos alimentos subiu em média 7,69%, bem acima da inflação oficial do país, 4,83%, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo IBGE. Procurados, os ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário não se pronunciaram.
Ao discursar, Lula lembrou os ataques às sedes dos três Poderes e disse que tem como causa não permitir que o grupo político de Jair Bolsonaro volte ao poder.
“A causa é a gente não permitir, em hipótese alguma, que esse país volte ao horror que foi o mandato do nosso antecessor”, declarou.
Fonte: Valor Econômico