Presidente diz que ex-presidente da Fiocruz fica na pasta, cobiçada pelo Centrão, ‘até quando eu quiser’; Daniela Carneiro deixa governo a pedido do União
Por Fabio Murakawa, Valor — Brasília
05/07/2023 13h09 Atualizado há 12 horas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou nessa quarta-feira a permanência de Nísia Trindade à frente do Ministério da Saúde, pasta que tem um dos maiores orçamentos da Esplanada e é alvo de cobiça do Centrão. Ele, no entanto, deve promover nesta quinta-feira a troca no comando do Ministério do Turismo, encerrando uma novela que se arrasta por um mês: Daniela Carneiro deixará a pasta para dar lugar ao deputado Celso Sabino (União Brasil-PA).
Lula bancou a permanência de Nísia na Saúde em um discurso inflamado na 17 Conferência Nacional da Saúde, em Brasília. A uma plateia de trabalhadores da do SUS, e diante da própria ministra, ele disse que “o Ministério da Saúde é do Lula” e que Nísia ficará na pasta “até quando eu quiser”.
“Na semana passada, eu liguei pra Nísia, eu tinha visto uma nota, uma pequena nota no jornal, que tinha alguém reivindicando o Ministério da Saúde. Eu fiz questão de ligar para Nísia, porque eu ia viajar para fora do Brasil. Eu disse: ‘Nísia, vá dormir e acorde tranquila porque o Ministério da Saúde é do Lula, [você] foi escolhida por mim e ficará até quando eu quiser e eu tenho certeza que poucas vezes na vida a gente teve a chance de ter uma mulher no Ministério da Saúde para cuidar do povo com o coração como uma mãe cuida dos seus filhos’”, disse o presidente. “E eu não tenho dúvida. Tive muita sorte com meus ministros da Saúde, mas precisou uma mulher para fazer mais e fazer melhor.”
A Saúde vem sendo cobiçada desde o início do governo pelos partidos do Centrão, enquanto o governo busca construir com eles uma base sólida no Congresso. Nísia seria, em tese, uma ministra “sem padrinho”, por não pertencer a nenhum partido e não trazer votos no Legislativo. Deputados e senadores passaram nas últimas semanas a se queixar de uma suposta “inabilidade política” dela e da demora de sua equipe para liberar emendas parlamentares.
Mas auxiliares do presidente têm deixado claro que o “padrinho” de Nísia no governo é o próprio Lula. E que ele não substituirá a ministra, uma conceituada técnica que presidiu a Fiocruz durante a pandemia, após o desastre de 700 mil mortos pela covid-19.
Na semana passada, o Valor informou que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), fez mais uma investida para tomar controle sobre o ministério. Ele se ofereceu para fazer uma “montagem” de indicados de partidos do Centrão em cargos na Saúde, caso ele conseguisse emplacar um ministro. Garantiria-se, assim, “governabilidade” a Lula poupando-o de negociar individualmente com várias legendas.
No entanto, interlocutores mostraram a Lira que a ideia era inviável, dado o apego de Lula a Nísia. E o sondaram sobre a possibilidade de indicar um titular para o Desenvolvimento Social, hoje comandado pelo senador e ex-governador do Piauí Wellington Dias (PT), pasta responsável pelo Bolsa Família. A oferta ainda não tem o aval de Lula e precisaria de muita negociação para se concretizar.
Em outra frente, a substituição no Ministério do Turismo deve finalmente ocorrer nesta quinta, após uma reunião da ministra Daniela Carneiro e de seu marido, Waguinho Carneiro (Republicanos), prefeito de Belford Roxo (RJ), com o presidente Lula no Palácio do Planalto. O encontro está previsto para a parte da tarde.
Segundo apurou o Valor, Daniela e Waguinho pediram a reunião com o presidente antes que sua saída seja consumada. Depois desse encontro, a ministra deve apresentar sua carta de demissão.
Em seguida, está prevista uma reunião de Lula com Celso Sabino, o presidente do União Brasil, Luciano Bivar (PE), o líder do partido da Câmara, Elmar Nascimento (BA), e o senador Davi Alcolumbre (União-AP), quando deve ser feito o anúncio.
O União Brasil passou a reivindicar o posto depois que a ministra, que é deputada federal eleita pela legenda, pediu desfiliação do partido. Ela deve se filiar ao Republicanos, replicando o movimento feito meses antes por Waguinho.
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Nisia Trindade — Foto: Julia Prado/MS
Fonte: Valor Econômico