Por Martin Wolf
19/07/2023 05h02 Atualizado há 4 horas
O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Com base nisso, relações ocidentais mais estreitas com a Índia fazem todo o sentido. O caloroso abraço de Joe Biden ao, em outras épocas proscrito Narendra Modi, hoje o premiê politicamente dominante do país, em Washington, e o abraço igualmente caloroso de Emmanuel Macron ao líder indiano em Paris pretendem criar uma relação estreita com um país que, segundo se prevê, representará um poderoso contrapeso à China. Será que esta é uma boa aposta para as potências ocidentais? Sim. A Índia tende, de fato, a ser uma grande potência em ascensão. Os interesses também se alinham. Apenas em que medida os valores são compartilhados é uma questão mais em aberto.
Que posição a Índia ocupa agora e aonde ela poderá chegar, econômica e politicamente?
Hoje, a Índia é a quinta maior economia mundial, por preços de mercado, e a terceira maior, por poder de compra. Sua população é de 1,43 bilhão de habitantes, quase a mesma que a da China. Até 2050, no entanto, a ONU prevê que a população da Índia alcançará 1,67 bilhão de habitantes, contra o 1,31 bilhão da China.
É razoável supor que a Índia se tornará uma grande potência. Não é difícil imaginar que sua economia será semelhante à dos EUA até 2050. Portanto, os líderes ocidentais estão fazendo uma aposta inteligente em uma aliança de conveniência com a Índia
O PIB per capita da Índia (por poder de compra) se aproxima de 40% dos níveis computados pela China, segundo o FMI. Em 1990, a Índia e a China eram ambas quase igualmente pobres, com o PIB per capita, medido por poder de compra, estimado em 4,6% e 4,1% dos níveis dos EUA, respectivamente. No desempenho econômico que é certamente o mais notável da história mundial, o PIB per capita da China alcançou 28% dos níveis dos EUA no ano passado, contra os 11% da Índia. Mas, embora o desempenho relativo da China tenha sido, incomparavelmente, o melhor, a Índia figurou em segundo lugar entre as sete maiores economias emergentes.
A China foi um exemplo extremo da estratégia de desenvolvimento mais bem-sucedida da era contemporânea – investimento elevado, industrialização acelerada e progressivo aprimoramento das exportações de manufaturas. Esse foi também o caminho do Japão. A Índia seguiu uma trajetória muito diferente. Entre 2014 e 2023, sua taxa de investimentos alcançou, em média, apenas 31% do PIB, contra os 44% da China, e sua taxa de poupança nacional totalizou, em média, 30%, contra os 45% da China. De maneira anda mais impressionante, a parcela da indústria de transformação no PIB da Índia tem caído, e não aumentado, como seria de esperar nessa fase de seu desenvolvimento. Essa parcela era de 13% do PIB em 2022, contra os 28% da China. Embora as relações comércio exterior sobre PIB (a preços de mercado) tenha ficado, grosso modo, igual, a China é atualmente uma exportadora muito maior para os mercados mundiais.
O que podemos prever, então? Comecemos pelos fundamentos. A taxa bruta de poupança da Índia, embora não seja tão elevada quanto a da China, é suficientemente alta, principalmente em vista da possibilidade de importar capital, para financiar uma taxa de crescimento de pelo menos 5% a 6%. A Índia também tem uma estabilidade macroeconômica razoável. O empreendedorismo é abundante e a infraestrutura está melhorando. A Índia, sem dúvida, não sofrerá de escassez de mão de obra, antes o contrário. Como observa Ashoka Mody em “India is Broken”, a incapacidade de gerar um número suficiente de bons empregos é uma grande falha. Outra é a incapacidade de instruir a população até um grau elevado: o capital humano tende a se revelar uma limitação muito maior do que o capital físico.
A Índia é uma localização óbvia para empresas que seguem a estratégia de “a China mais um” [de evitar investir só na China]. Tem também a vantagem, em relação a concorrentes óbvias, de possuir um grande mercado interno. No entanto, a Índia reiteradamente deixou de explorar oportunidades de crescimento acelerado das exportações de produtos manufaturados nos últimos 75 anos. Suspeitas com relação à prática de livre-mercado sempre se interpuseram.
Como se verificou no caso de muitos outros países, a Índia sofre de um excesso de dívidas não quitadas desde a crise financeira global. Esse “duplo problema de balanço” representou uma restrição significativa ao seu crescimento. Mas, argumenta o “Economic Survey” deste ano, “no decorrer dos últimos dez anos, a dívida do setor privado não financeiro e a dívida corporativa não financeira da Índia como parcela do PIB caíram quase 30 pontos percentuais”. Os balanços dos bancos também foram restaurados. No total, o motor do crédito voltou a ostentar forma razoavelmente boa.
O FMI prevê um crescimento econômico anual de pouco mais de 6% de 2023 a 2028, com um crescimento do PIB per capita mais lento em aproximadamente um ponto percentual. Esse crescimento seria bastante próximo ao das médias das últimas três décadas. Desde que o país não sofra grandes choques globais ou internos, isso soa perfeitamente factível, ou mesmo bastante plausível. Mas o que dizer do mais longo prazo?
Lembremos que a Índia ainda tem enorme espaço para superar suas mazelas. Trata-se também de um país jovem, com uma força de trabalho subempregada, com potencial para melhorar a qualidade dessa força de trabalho, com uma taxa de poupança razoavelmente elevada e esperanças cada vez maiores de alcançar maior prosperidade. Será necessária uma boa dose de adaptação para enfrentar o desafio da mudança climática, em vista do fracasso em reduzir as emissões globais. Mas a transição energética também oferece enormes oportunidades à Índia. No cômputo geral, considero que a Índia deverá ser capaz de sustentar o crescimento do PIB per capita em 5% ao ano, mais ou menos, até 2050. Com melhores políticas públicas, o crescimento poderá ser até uma pouco maior, embora possa também ser menor.
Portanto, vamos supor que o PIB per capita da Índia continue a crescer a 5% ao ano, enquanto o dos EUA se expanda a 1,4%, aproximadamente como ocorreu durante as últimas três décadas. Nesse caso, até 2050, o PIB per capita da Índia (por poder de compra) alcançará cerca de 30% dos níveis dos EUA, aproximadamente o patamar ocupado pela China hoje. Segundo a mediana das projeções da ONU, a população da Índia também será 4,4 vezes maior que a dos EUA. Portanto, sua economia será cerca de 30% maior do que a dos EUA.
Tudo considerado, é bastante razoável supor que a Índia se tornará uma grande potência. Não é tão difícil imaginar que sua economia será de magnitude semelhante à dos EUA até 2050. Portanto, os líderes ocidentais estão fazendo uma aposta inteligente em uma aliança de conveniência com a Índia. Mas será que a Índia também será uma democracia liberal? Abordarei essa questão na semana que vem. (Tradução de Rachel Warszawski).
Martin Wolf é editor e principal analista de economia do Financial Times
Fonte: FT / Valor Econômico