Os preços do petróleo continuam a exercer o papel de “variável central” para o equilíbrio macro global, e o choque de escassez nas commodities, longe de uma normalização rápida, tende a prolongar as pressões inflacionárias. Ainda assim, em alguns mercados, a possibilidade de “olhar através” desse movimento abre espaço para visões mais alinhadas à queda dos juros — apostas que a Kinea Investimentos continua a sustentar, sobretudo no Brasil, na Suécia e na Nova Zelândia.
A gestora, contudo, admite que a disparada dos preços do petróleo ajuda a embaralhar a visão sobre a política monetária em algumas regiões, como nos Estados Unidos, onde novas medidas de flexibilização dos juros devem ficar para depois.
Parte da visão mais cautelosa vem, justamente, das incertezas relacionadas à guerra no Irã e a seus efeitos no petróleo. “A normalização do fluxo [de navios pelo Estreito de Ormuz] não ocorreu, e a fragilidade da trégua mantém o mercado em estado de alerta”, enfatiza a Kinea, que tem Marco Aurélio Freire como diretor de investimentos (CIO) dos fundos líquidos da casa.
“Quanto mais tempo persistirmos com um déficit próximo de 9 milhões de barris por dia, mais o choque deixa de ser apenas de preço e passa a ser de quantidade. Nesse cenário, a restrição começa a atingir diretamente a atividade, sobretudo na Ásia e na Europa, regiões mais dependentes de importações e mais expostas a essa rota”, observam os profissionais da Kinea na carta referente a abril, que foi antecipada ao Intraday.
E, como lembra a gestora, ainda que haja uma reabertura do Estreito, o processo de normalização da produção não é imediato e o intervalo pode durar semanas, o que tem potencial para amplificar os efeitos sobre a atividade econômica global. “A mensagem central é simples: o cessar-fogo ajuda a destravar logística, mas não recompõe ativos destruídos. O choque, portanto, se propaga no tempo.
Assim, embora veja os preços de equilíbrio do petróleo em torno de US$ 70 por barril, o curto prazo deve continuar a ser determinado pelo mercado físico. Na manhã desta quinta-feira, o barril do futuro mais líquido do Brent segue acima de US$ 110.
É nesse contexto que a Kinea observa que a condução da política monetária está mais embaralhada em algumas economias e menciona os Estados Unidos. “Depois de um longo período em que o mercado começava a se sentir mais confortável com a convergência da inflação no segundo semestre — uma vez aliviado o impacto das tarifas —, a alta das commodities recoloca incerteza justamente sobre esse processo.”
A gestora mantém uma visão mais “dovish” em relação ao mercado de trabalho americano, ao avaliar que, se o emprego perder tração e os ganhos de produtividade permanecerem elevados, a discussão sobre cortes de juros pode voltar, “especialmente dado o viés prévio expressado publicamente pelo futuro presidente Kevin Warsh”. É nesse sentido que o choque atual “não elimina a possibilidade de afrouxamento monetário”, mas torna o timing menos óbvio nos EUA.
Até por isso, a preferência da Kinea tem sido por apostas aplicadas nos juros de economias que já enfrentam um processo mais claro de desaquecimento da atividade econômica. São os casos de Nova Zelândia e Suécia.
E, no Brasil, a gestora também mantém posições aplicadas, ao apontar que a combinação de um real mais apreciado junto a curvas futuras de commodities aos benignas “nos parece compatível com uma trajetória de cortes mais intensa do que a hoje embutida nos preços”.
Fonte: Valor Econômico
