Em meio a uma nova piora no cenário inflacionário, o Itaú Unibanco passou a ver um espaço ainda menor para o ciclo de flexibilização da política monetária, ainda que espere uma taxa de câmbio mais comportada ao longo do ano. Em revisão de cenário divulgada nesta quinta-feira, o banco elevou a projeção para a Selic no fim deste ano de 13% para 13,25%, enquanto a estimativa para a taxa de juros no fim de 2027 passou de 12% para 12,25%.
“A deterioração do cenário inflacionário e a piora das expectativas Focus e do balanço de riscos indicam menor espaço para corte de juros, mesmo com câmbio mais apreciado”, observa a equipe de economistas do Itaú, liderada pelo ex-diretor do Banco Central Mario Mesquita. “De acordo com as nossas simulações, partindo do modelo do BC, cenários de Selic abaixo de 13% exigiriam não apenas uma taxa de câmbio em níveis inferiores a R$/US$ 5,00, mas também a ausência de nova rodada de piora das expectativas, uma condição que, no momento, parece pouco provável.”
Os economistas do banco ressaltam que a incerteza ainda está bastante elevada e que as leituras de inflação mais pressionadas nos próximos meses devem impedir uma aceleração no ritmo de cortes na Selic nos próximos meses. Até por isso, o Itaú espera um novo ajuste de 0,25 ponto no juro básico em junho.
A deterioração do cenário inflacionário se materializou nas projeções do Itaú: a estimativa para o IPCA deste ano passou de 4,5% para 5,2%, enquanto a projeção para a inflação de 2027 avançou de 4,1% para 4,3%, ao incorporar maior inércia.
Na visão do banco, o curto prazo será mais pressionado pelos preços de alimentos e de combustíveis. A revisão também já incorpora o impacto do El Niño sobre produtos in natura. “No curto prazo, com as cotações internacionais de petróleo ainda em níveis elevados, a pressão tende a ser por reajustes adicionais em gasolina, dada a defasagem entre os preços domésticos e externos. Assumimos, no entanto, que haverá medidas de mitigação, como novos cortes de impostos, limitando o impacto altista imediato sobre a inflação. O balanço de riscos para a projeção segue altista.”
O câmbio, contudo, ajuda a limitar as pressões inflacionárias. O Itaú cortou a projeção para o dólar no fim deste ano de R$ 5,40 para R$ 5,15, enquanto a estimativa para o fim de 2027 passou de R$ 5,60 para R$ 5,35, ao avaliar que há uma melhora no fundamento externo.
“O real tem apresentado bom desempenho desde o início do conflito no Oriente Médio, em parte apoiado pela posição do Brasil como exportador líquido de petróleo, em parte pela taxa de juros ainda elevada. Os fundamentos à frente também estão mais construtivos, com um dólar estruturalmente fraco e um ambiente mais positivo de fluxo de capitais para economias emergentes, entre elas para a América Latina”, dizem os economistas do banco.
“Ainda assim, nossa projeção segue incorporando alguma depreciação da moeda ao longo do ano, em função da maior volatilidade e aumento do prêmio de risco à medida que o ciclo eleitoral avança”, alertam os profissionais do Itaú.
Fonte: Valor Econômico
