Por Matheus Prado, Gabriel Roca e Arthur Cagliari — De São Paulo
05/07/2022 05h02 Atualizado há 4 horas
Enquanto a tramitação da “PEC das Bondades” tem prosseguimento no Congresso Nacional, a piora na percepção de risco fiscal fez os participantes do mercado exigirem prêmios de risco ainda mais altos, em especial no mercado de juros, onde as taxas futuras se ajustaram em alta firme. O Ibovespa terminou em queda leve e o dólar ficou praticamente estável, em um pregão de liquidez reduzida, na ausência do referencial de Nova York, onde os mercados ficaram fechados devido a um feriado.
As discussões em torno do projeto que cria e amplia benefícios sociais continuaram a mover os ativos. Enquanto acompanha de perto os detalhes e impactos da proposta, o mercado voltou a se mostrar sensível à PEC. A taxa do DI para janeiro de 2025 subiu de 12,64% para 12,765%; e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 12,61% para 12,71%.
O nível elevado da Selic também permanece no radar dos agentes. Ontem, a Itaú Asset revelou cenário com juro básico a 13,75% no fim deste ano e em 11,25% no fim de 2023. Já a Bram elevou a projeção para a Selic para 14% em 2022 e espera uma taxa de 9,5% em 2023.
“Nos últimos dias, a alta das taxas ao longo da curva pode ter seguido a percepção de riscos inflacionários ainda crescentes (e probabilidade maior de ainda mais aperto que o esperado por parte do Banco Central), bem como os sinais de novos cortes de impostos para conter os preços dos combustíveis e as indicações de uma nova rodada de gastos sociais acima do teto constitucional”, afirmam os profissionais do Santander em relatório enviado a clientes.
Para eles, o aumento dos riscos fiscais é mais um elemento que pode contribuir para um provável aumento da inclinação da curva, ou seja, uma elevação da diferença entre os juros de longo prazo e as taxas mais curtas, que está em terreno negativo. O Santander cita, ainda, o contexto de pico da inflação e da Selic, além de um processo de aumento dos juros globais.
Com a ausência de Nova York no pregão de ontem, os mercados europeus concentraram as atenções dos investidores, em um momento de destaque para o processo de ajuste da política do Banco Central Europeu (BCE). Não por acaso, declarações de Joachim Nagel, presidente do Bundesbank, o banco central da Alemanha, geraram tensão nos negócios.
O rendimento do Bund alemão de dez anos saltou 0,103 ponto percentual, para 1,336%, e o retorno do BTP italiano de dez anos escalou 0,136 ponto, para 3,235%. Nas bolsas, a alta dos juros pesou e, assim, os principais indicadores acionários abandonaram os ganhos na reta final do pregão. O índice DAX, de Frankfurt, caiu 0,31% e o FTSE MIB, da Bolsa de Milão, recuou 0,05%.
Nagel se mostrou contrário à utilização de uma ferramenta do BCE para impedir uma alta mais forte dos juros longos dos países mais endividados da zona do euro. “Uma vez que é virtualmente impossível estabelecer com certeza se um ‘spread’ alargado [entre os juros europeus] tem seus fundamentos justificados, pode-se facilmente acabar ficando em uma situação difícil”, disse o dirigente alemão.
O mesmo movimento de alta dos juros e queda das bolsas visto na Europa também se refletiu no Brasil, onde o Ibovespa terminou a segunda-feira com 98.609 pontos, em queda de 0,35%. A queda de 0,57% das ações ordinárias da Vale também contribuiu com o movimento, na esteira de um novo tombo nos preços do minério de ferro. No câmbio, o dólar subiu 0,08% e terminou o dia cotado a R$ 5,3251.
“O setor de energia tem apresentado dinâmica melhor por oferta e demanda, enquanto as commodities metálicas reagem mais à China. Acho que é cedo para fazer qualquer leitura mais aprofundada, mas se a economia chinesa continuar fechando por conta da covid e o governo não estimular a economia, podemos ter uma pressão maior no setor”, diz um gestor.
Fonte: Valor Econômico