Por Eduardo Magossi — De São Paulo
24/10/2023 05h03 Atualizado há 5 horas
A expectativa de manutenção de juros elevados por mais tempo na economia americana já altera os rendimentos de longo prazo de todo o globo e começa a ter impacto também no ciclo de política monetária. Na América Latina, a expectativa é que os cortes de juros possam ter se tornado mais limitados nos países em que o ciclo de cortes já começou. Naqueles que ainda não o iniciaram, o processo pode ser postergado, segundo estudo do economista Francisco Nobre, da XP.
“O espaço para cortes nas taxas dependerá de onde os juros reais se encontram em relação aos juros americanos e ao prêmio de risco associada a cada país. Os ciclos de flexibilização em andamento devem continuar, mas com cautela, para não reduzir demais o diferencial de juros com os EUA. Se os juros caírem demais em relação aos juros americanos, o dólar dispara e gera pressão inflacionária”, diz Nobre.
Intitulado “Como andam nossos vizinhos”, o estudo apresenta revisões de projeções para o ciclo de política monetária de alguns países, incluindo o Brasil. Segundo Nobre, embora a situação econômica e a inflação no Brasil estejam melhorando, dificilmente o país terá um juro de um dígito no fim do processo de cortes, conforme se cogitava há algumas semanas. A nova previsão de Nobre é de Selic de 11,75% ao ano no fim de 2023 e de 10% para a taxa terminal no fim de 2024. Para o Chile, a nova previsão é de juros de 8% para o fim deste ano e de 4,50% em 2024. “O Chile é um caso em que, depois de realizar seu primeiro corte de 1 ponto percentual, já desacelerou no segundo corte para 0,75 ponto depois da forte alta dos juros nos EUA”, afirma.
Já para o México, que ainda não iniciou seu afrouxamento, os cortes de juros estavam previstos para dezembro, mas agora devem ocorrer apenas em meados do próximo ano. “O México se destaca devido à sua forte integração com os Estados Unidos, economia superaquecida e crescente déficit fiscal, o que deve postergar os cortes para julho de 2024, de acordo com nossas projeções”, afirma. “E ainda não temos certeza se o aperto monetário nos EUA já se encerrou ou teremos mais altas.”
“O Banco Central não terá condições de cortar os juros só olhando para o cenário interno”— Fabiano Godoi
Segundo Nobre, a continuidade do ciclo de aperto monetário nas economias avançadas teve efeito limitado sobre os ativos da América Latina na primeira metade do ano. Essa resiliência pode ser atribuída à resposta rápida dos bancos centrais à alta da inflação desde 2021. Apesar de o ciclo de aperto ter se encerrado mais cedo na região, a maioria dos países conseguiu formar uma barreira de taxas de juros reais elevados, evitando que a moeda se desvalorizasse frente ao dólar. Porém, agora, a alta mais recente nas taxas de longo prazo dos títulos do Tesouro dos EUA forçou uma queda nos diferenciais de juros e tornou as moedas latino-americanas mais vulneráveis, elevando o risco inflacionário.
“A desvalorização recente reflete fatores globais e o fortalecimento do dólar e não pode ser atribuída a incertezas domésticas”, diz o economista, que acredita que os juros americanos devem começar a pesar mais nas decisões dos bancos centrais locais do que os problemas domésticos de cada país.
“O Banco Central não terá condições de cortar os juros só olhando para o cenário interno”, também avalia o sócio e diretor de investimentos da Kairós Capital, Fabiano Godoi. De acordo com ele, não apenas os juros americanos, mas também as guerras e os conflitos estão exercendo pressões inflacionárias que podem significar juros maiores por mais tempo no exterior e menos cortes aqui. “Acredito que ainda temos espaço para mais três cortes de 0,50 ponto até o início do próximo ano com a Selic parando em 11%. Depois vai ser mais difícil e o BC vai precisar de cautela e analisar bem o cenário de juros dos EUA para não piorar a inflação. O BC já está com expectativas de inflação de longo prazo desancoradas”, afirma.
Para Marcos Mollica, gestor do fundo Opportunity Total, o atual cenário já está fazendo com que vários bancos centrais analisem uma taxa terminal de juros maior e estão reduzindo o ritmo da alta. “Chile e Polônia já reduziram o ritmo depois os EUA sinalizaram juros mais elevados por mais tempo. E a taxa americana é muito relevante e ela vai impactar nas condições econômicas de cada país”, afirma. Antes do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, ter falado em ‘juros mais elevados por mais tempo’ em setembro, segundo ele, a expectativa era de uma taxa Selic abaixo de 9% e uma grande aceleração nos cortes a partir de dezembro.
“Agora não vejo mais uma taxa abaixo de 9% mas não creio que o ritmo dos cortes irá se reduzir no Brasil porque o BC está colhendo os frutos do bom trabalho que entregou com altas agressivas antes de todo mundo”, afirma Mollica. Ele avalia que, até o fim do primeiro trimestre, o BC irá fazer mais três cortes de 0,50 ponto, reduzindo a taxa a 11,25%. “A partir daí entra na dinâmica o déficit fiscal com a discussão da Lei das Diretrizes Orçamentária e dependendo de como ela seguir, impactará nos juros. Por enquanto a meta fiscal não foi atingida mas existe um esforço muito grande em se atingir a meta e isto é importante”, afirma.
Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco, afirma que o impacto direto nos países da América Latina com os juros elevados seria uma potencial redução no ‘carry’ [operação que tira proveito do diferencial de juros] se os países seguirem cortando as taxas. “Isso atrapalha o processo de desinflação e pode mudar o caminho do afrouxamento monetário mas depende das características econômicas de cada país.”
Para o Brasil, Passabom está mais otimista. Mesmo com os juros elevados nos EUA, a economista prevê que o BC deve cortar a Selic em 0,50 ponto em novembro e acelerando para 0,75 ponto em dezembro, com a taxa caindo para 11,50% no fim de 2023. Já para a taxa terminal a previsão é de 9%. “O impacto dos juros mais altos será limitado, principalmente para o real. O país vive um bom momento, com bom desempenho de ativos, fluxo cambial forte, balança comercial forte e pressão de risco baixo”, diz.
Fonte: Valor Econômico