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Watanabe: ‘Mesmo sob Donald Trump, EUA continuam sendo o parceiro global mais importante para o Japão’ — Foto: Gabriel Reis/Valor
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, tenta controlar a inflação, que vem sendo atiçada pela alta do preço do petróleo desde o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz.
As projeções são de que os preços ao consumidor saltem 2,2% no ano fiscal que se encerra em abril de 2027. O Japão tenta driblar os efeitos da guerra e começou a importar petróleo de seu maior aliado estratégico, os EUA. Ao mesmo tempo, a premiê aposta em medidas para alavancar o crescimento da economia. A questão é quando as medidas surtirão efeitos.
“Investir em setores específicos parece ser o caminho certo. Mas a rapidez com que os resultados aparecerão é um grande desafio”, diz Shino Watanabe, uma das vozes acadêmicas mais respeitadas do país, professora da Faculdade de Estudos Globais da Universidade Sophia, em Tóquio. Ela esteve em São Paulo na semana passada, para uma palestra sobre as transformações da ordem internacional e os efeitos no leste da Ásia.
Em entrevista ao Valor, Watanabe falou ainda das relações do Japão com os EUA de Donald Trump, com a China e com o Brasil em um tema chave: um eventual cenário de fornecimento de minerais críticos brasileiros a empresas japonesas. O Japão é um dos países diretamente afetados por medidas chinesas de restrição ao fornecimento de terras raras e outros minerais.
“O Japão vem sofrendo com a dependência de terras raras provenientes da China e sem dúvida o Brasil é um parceiro muito importante.” A seguir, alguns dos principais trechos da entrevista:
Valor: Qual tem sido o maior desafio do governo da primeira-ministra Sanae Takaichi?
Shino Watanabe: O governo tem alguns desafios. A economia japonesa vem se recuperando após as longas décadas perdidas. E o governo da primeira-ministra Takaichi quer impulsionar esse crescimento econômico. Mas como e até que ponto ela pode fazer isso, essa é uma questão realmente importante. Ela tenta impulsionar o investimento, especialmente em setores estratégicos, incluindo energia, setor verde, IA, chips, biotecnologia e assim por diante. São 17 setores. Muitos países estão priorizando isso. Mas talvez leve muito tempo para impulsionar a economia do Japão. Então, acho que ela está tentando seguir a receita acertada. Precisa fortalecer a economia do Japão. E investir em setores específicos parece ser o caminho certo. Mas a rapidez com que os resultados aparecerão é um grande desafio. Ela não pode esperar 10 a 20 anos para ver os resultados.
Valor: Outra questão é a inflação. As medidas que têm sido adotadas estão na direção certa?
Watanabe: Nessa área o governo pode agir. No entanto, a inflação tem, em grande parte, causas externas. Como a guerra da Rússia contra a Ucrânia. E o preço do petróleo está prejudicando muito a economia do Japão. O Japão dependia muito do petróleo do Estreito de Ormuz. E agora tenta diversificar seus fornecedores, mas isso leva tempo. É um caminho realmente difícil. Outro tipo de desafio é o envelhecimento da população japonesa. Então, como compensar a perda da população economicamente ativa por meio do desenvolvimento tecnológico, como a IA. Esse é outro desafio. Essas são as questões com as quais ela está lutando, estabelecendo prioridades.
Por um período, as tarifas de Trump causaram muitos problemas a empresas japonesas”
Valor: E como o Japão está tentando contornar as restrições ao petróleo do Golfo Pérsico?
Watanabe: As importações de petróleo do Japão vêm diminuindo com o passar do tempo. Com a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o Japão já recorreu à reserva de petróleo que possui. De acordo com alguns relatórios, trata-se de uma reserva de petróleo para cerca de seis meses. O Japão mantém uma quantidade equivalente ao consumo de seis meses. Então, o Japão começou a liberar sua própria reserva de petróleo para compensar o aumento do preço do petróleo. Ou melhor, para amenizar as expectativas de um futuro aumento no preço do petróleo. Outra medida é diversificar as fontes de importação.
Valor: Quem substitui o Golfo como fornecedores do Japão?
Watanabe: O país mais promissor são os EUA. Os EUA têm petróleo em abundância. O primeiro carregamento que o Japão importou dos EUA após a guerra com o Irã já chegou. Mais carregamentos estão por vir. É mais caro e mais distante. Mas é uma alternativa e já está acontecendo. Outra alternativa é tentar mudar a fonte do petróleo para outras, como fontes de energia renováveis. Mas isso leva tempo.
Valor: Tradicional aliado do Japão, os EUA não pouparam o país das controversas tarifas impostas por Donald Trump. O governo japonês considera os EUA um parceiro tão confiável quanto antes de Trump?
Watanabe: Acho que a resposta é sim porque, na minha opinião, o governo Trump, de certa forma, exerce uma influência muito grande na formulação de políticas americanas neste momento. Mas o governo Trump não é a totalidade dos EUA. Por um período, as tarifas de Trump causaram muitos problemas para as empresas japonesas e também para a mentalidade da população no Japão. Mas os EUA continuam sendo o parceiro mais importante para o Japão. Em parte devido ao tratado de aliança de segurança entre o Japão e os EUA, que foi firmado e é duradouro.
Valor: Qual é a principal razão por trás do aumento dos gastos militares do Japão?
Watanabe: A principal razão seria a crescente pressão militar da China. Por exemplo, a Ilha de Senkaku [área cujo controle é alvo de controvérsia entre Japão e China] tem sido território do Japão, mas a China continua a enviar embarcações do governo para os arredores da ilha e nas águas contíguas dentro das águas territoriais do Japão com frequência. A China alega que a Ilha de Senkaku é território nacional da China. O Japão costumava manter a Ilha de Senkaku, mas hoje em dia a guarda costeira japonesa também precisa permanecer nas áreas ao redor de Senkaku. Se algum tipo de confronto ocorrer, o que vai acontecer? Esse é um cenário bastante assustador sobre o qual também precisamos refletir. A pressão está ficando cada vez mais forte. Esse tipo de pressão militar crescente que vem dia após dia assusta e gera um certo sentimento no povo japonês.
Valor: A América do Sul, incluindo o Brasil, é rica em minerais críticos, entre os quais terras raras – caso do Brasil. O Japão busca acordos com o Brasil e outros da região para depender menos da China nesse tipo de insumo?
Watanabe: Não estou a par das atuais intenções do governo japonês sobre isso. Mas a minha avaliação é que será positivo se o Japão estiver disposto a firmar algum tipo de acordo com empresas brasileiras para explorar terras raras e minerais críticos. No entanto, até onde sei, as empresas japonesas não possuem necessariamente tecnologia de ponta para refinar esses minérios. O Japão vem sofrendo com a dependência de terras raras provenientes da China e sem dúvida o Brasil é um parceiro muito importante. E, entre o Brasil e o Japão, há uma relação direta e também muito estável há mais de cem anos. Portanto, existe um clima de confiança.
Valor: Como as empresas do Japão têm lidado com as medidas adotadas pela China de tempos em tempos de vetar ou restringir a exportação de terras raras?
Watanabe: Foi em 2010 o primeiro caso em que a China proibiu as exportações de terras raras para o Japão. As empresas japonesas perceberam imediatamente que aquilo era uma espécie de alerta. Elas aprenderam que depender de um único país – não necessariamente da China, mas de um único país – é muito arriscado. É por isso que, desde então, o Japão vem diversificando suas fontes de terras raras. Nesse sentido, o Brasil é um excelente parceiro em potencial. Mas o problema é o refinamento. Onde refinar? Se o Brasil tiver instalações de refino, e se o Brasil pudesse exportar terras raras refinadas para o Japão, isso seria realmente algo importante.
Fonte: Valor Econômico


