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FT: Tesouro dos EUA realiza intervenção histórica no mercado de ienes — Foto: Kentaro Takahashi/Bloomberg
O Tesouro dos EUA interveio nas taxas de câmbio do iene nesta sexta-feira (31), marcando a primeira vez em quase 30 anos que Tóquio e Washington uniram forças para apoiar a moeda japonesa por meio de compras diretas.
O Federal Reserve de Nova York realizou a medida incomum de vender euros para comprar ienes em nome do Tesouro dos EUA, segundo três pessoas familiarizadas com o assunto.
As vendas foram realizadas por meio do Goldman Sachs e do Morgan Stanley, de acordo com duas dessas pessoas.
O Tesouro havia informado anteriormente a vários bancos de Wall Street que estava considerando uma intervenção para apoiar a moeda japonesa, que em 23 de julho atingiu seu nível mais fraco em relação ao dólar desde 1986.
O Fed de Nova York e o Goldman Sachs não quiseram comentar. O Departamento do Tesouro e o Morgan Stanley não responderam imediatamente a um pedido de comentário.
O iene se fortaleceu nas últimas seis sessões; o dólar recuou cerca de 4% na quinta-feira, à medida que participantes do mercado especulavam que o governo japonês também havia agido para apoiar a moeda após um aumento nos volumes de negociação. O dólar caiu 1,9% ante a moeda japonesa nesta sexta-feira, cotado a 157,57 ienes.
A intervenção do Tesouro dos EUA para fortalecer o iene é a primeira desde 1998, quando comprou a moeda para fortalecer a economia do Japão após a queda do iene para mínimas de oito anos. Os EUA intervieram na moeda japonesa em 2011 para enfraquecê-la, como parte de um esforço internacional coordenado para evitar uma valorização perigosa da moeda após o terremoto e tsunami de Tohoku.
Mais cedo nesta sexta-feira, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, publicou no X que esperava “ver meu amigo de longa data, o presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda”, na reunião de ministros das Finanças do G20, na Carolina do Norte, nos EUA, em agosto. Ele acrescentou que os dois países “continuam a desfrutar de um relacionamento forte e de estreita coordenação”.
As medidas ocorreram depois que o Banco do Japão (BoJ) manteve as taxas de juros em 1% nesta sexta-feira, conforme amplamente esperado pelos participantes do mercado. Ueda disse que garantiria que o banco central japonês não ficasse “atrás da curva” e poderia acelerar os aumentos de taxas, algo que vem sendo acompanhado de perto por operadores de câmbio.
“Dado que a inflação subjacente está se aproximando de nossa meta de estabilidade de preços de 2%, acreditamos que há uma necessidade maior do que antes de prestar atenção aos riscos de alta da inflação”, disse Ueda. “Com essa avaliação em mente, pretendemos discutir essas questões cuidadosamente nas futuras reuniões de política monetária.”
Operadores estimam em cerca de 40% a probabilidade de um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros do BoJ em setembro, segundo o mercado de derivativos — um aumento em relação aos 30% previstos no início da semana.
Ueda tem enfrentado críticas de investidores por não elevar as taxas mais rapidamente; alguns alertam que o BoJ corre o risco de perder credibilidade nos mercados financeiros se não acelerar o ritmo.
Na quinta-feira, o Fed de Nova York realizou uma consulta de cotação (“rate check”) para o par dólar-iene em nome do Tesouro dos EUA, segundo pessoas a par do assunto. Solicitar a taxa de câmbio atual a bancos que operam com moedas é geralmente visto como um prelúdio para intervenções diretas de compra ou venda de divisas. O Fed de Nova York realizou uma ação semelhante em janeiro.
O receio dos investidores quanto à alta dos preços do petróleo e à viabilidade dos planos de estímulo fiscal da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, levou a moeda japonesa, recentemente, a mínimas de 40 anos, aproximando-se de 164 ienes por dólar. Após a coletiva de imprensa de Ueda nesta sexta-feira, a moeda japonesa se valorizou acentuadamente, ficando abaixo de 159 ienes frente ao dólar americano, o que gerou especulações de que o Ministério das Finanças havia feito uma intervenção nos mercados.
“Parece [outra intervenção], mas de menor escala”, disse um operador de câmbio. “Como vimos em episódios anteriores, eles intervêm mais de uma vez.”
A aparente intervenção de quinta-feira seria a primeira desde uma série de medidas adotadas pelo governo em abril e maio, que envolveram gastos de 11,7 trilhões de ienes para sustentar a moeda.
Desta vez, devido em parte a uma aparente coordenação com os EUA, alguns analistas afirmaram que a valorização tinha mais chances de se manter, pelo menos no curto prazo.
Atsushi Mimura, vice-ministro das Finanças do Japão para assuntos internacionais, declarou: “Entendemos que estamos recebendo apoio das autoridades dos EUA que vai além de um simples apoio moral. Temos mantido contato constante com elas”. Osamu Takashima, estrategista de câmbio do Citigroup em Tóquio, afirmou ser improvável que a moeda japonesa voltasse a se desvalorizar para o patamar de 164 ienes por dólar “no curtíssimo prazo”, uma vez que os EUA pareciam dispostos a ajudar o Japão a defender sua moeda.
Ele acrescentou que, como o mercado estaria cauteloso em relação a novas intervenções, “o potencial de alta do par dólar-iene provavelmente é limitado por enquanto”.
No entanto, outros afirmam que qualquer intervenção das autoridades japonesas terá dificuldade em oferecer suporte duradouro à moeda sem o auxílio de expectativas de taxas de juros mais elevadas — especialmente porque o mercado espera amplamente que o Fed eleve as taxas nos EUA nos próximos meses, impulsionando o dólar.
Um banqueiro na Ásia relatou que clientes já estavam testando o compromisso do governo, abrindo posições vendidas (“short”) em ienes com alvos na casa dos 162 ienes. (Reportagem adicional de Jill Shah)
Fonte: Valor Econômico


