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Megaintervenção no câmbio do Japão acende alerta nos mercados — Foto: Yuriko Nakao/Bloomberg
A atuação conjunta entre Estados Unidos e Japão no mercado de câmbio na semana passada não foi nada trivial. O incômodo de autoridades japonesas com a forte desvalorização do iene provocou uma megaintervenção no mercado entre quinta e sexta-feira, que, agora, deixou os investidores em alerta. Com o dólar ainda próximo da marca de 160 ienes, novas atuações seguem no radar, especialmente diante da visão de que os fatores que têm provocado uma fraqueza expressiva da moeda japonesa devem seguir sobre a mesa no curto prazo.
Sem abrir mão de uma política fiscal expansionista e com um Banco do Japão (BoJ) atrás da curva e que não dá nenhum sinal mais contundente em direção a um aperto dos juros, o mercado tem mantido uma visão mais pessimista em relação ao iene. No entanto, a megaintervenção da semana passada no câmbio deu um susto nos investidores, sobretudo pela magnitude, ainda que os números oficiais não tenham sido divulgados.
“É bastante provável que o volume total de intervenções neste ano já tenha superado, com folga, os 15 trilhões de ienes utilizados em 2024”, dizem os estrategistas Junya Tanase e Patrick Locke, do J.P. Morgan. No entanto, desta vez, a atuação chamou ainda mais atenção dos investidores por ter sido feita de forma conjunta entre EUA e Japão. Autoridades dos dois países já confirmaram a atuação conjunta na semana passada.
Tanase e Locke observam que, historicamente, intervenções coordenadas “ocorreram apenas em momentos de crise” e, nesse sentido, a avaliação do J.P. Morgan era de que a probabilidade de uma ação desse tipo nas condições atuais era baixa. “No entanto, a disposição das autoridades dos EUA e do Japão para atuar conjuntamente a fim de conter a depreciação do iene parece ser significativamente maior do que esperávamos.”
Para os estrategistas, inclusive, ficou claro que o governo japonês considera um dólar acima de 160 ienes um nível de depreciação excessiva do iene e não está disposto a tolerar esse movimento. Há, porém, um sinal de atenção importante que foi emitido com a atuação da semana passada. “A busca por cooperação dos EUA pode refletir o fato de que o espaço para novas intervenções unilaterais parece cada vez mais limitado, ao mesmo tempo em que o Japão não pode acelerar excessivamente o ritmo de alta dos juros pelo BoJ apenas para conter a desvalorização da moeda.”
Já do lado dos EUA, o J.P. Morgan acredita que a preocupação de que a volatilidade no mercado de títulos do governo japonês (JGBs) pudesse contaminar o mercado de Treasuries — algo que já aconteceu algumas vezes neste ano — poderia ser uma das motivações.
Essa também é a visão do chefe de pesquisa de câmbio para Ásia do HSBC, Joey Chew, que também dá atenção a outro ponto importante: o fato de os EUA terem vendido euros, e não dólares, para ajudar a “segurar” o iene.
“É altamente incomum — talvez sem precedentes — que as autoridades americanas realizem uma operação cambial sem comprar ou vender dólares. Parece que os EUA quiseram limitar a pressão de baixa sobre a moeda americana, possivelmente por receio de que um dólar mais fraco pudesse levar a uma alta adicional dos rendimentos dos Treasuries”, avalia Chew em nota enviada a clientes.
O profissional nota que, desde o segundo semestre de 2025, o dólar/iene passou a apresentar uma correlação negativa com o diferencial de juros de longo prazo dos EUA e do Japão. Ou seja, movimentos de queda do dólar frente ao iene coincidem com saltos das taxas de juros americanas no mercado, enquanto uma valorização do dólar coincide com um movimento de alta dos juros japoneses. “Isso indica que os mercados de câmbio e de renda fixa dos dois países estão cada vez mais focados na situação fiscal.”
Esse fator também foi notado pelo economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok, ao dizer que o par “dólar/iene” deixou de ser guiado pelo “carry trade” e passou a ser um “play” sobre a situação fiscal no Japão desde o Dia da Libertação, em abril de 2025, “quando a guerra comercial desencadeou um nível de volatilidade que tornou as operações de ‘carry trade’ muito mais arriscadas”.
Slok observa, assim, que o câmbio no Japão passou a refletir a deterioração da perspectiva fiscal do Japão e, assim, o iene “já não pode ser explicado apenas pela trajetória dos juros”. Na avaliação do economista, enquanto a volatilidade no mercado de câmbio permanecer elevada, “a tendência é que o iene seja negociado muito mais em função da perspectiva fiscal do Japão do que do diferencial de taxas de juros”.
Não por acaso, o J.P. Morgan manteve inalterada sua expectativa de que a taxa de câmbio japonesa continue a se desvalorizar neste ano, apesar dos esforços do governo: o banco projeta o dólar a 160 ienes no fim do terceiro trimestre e a 164 ienes em dezembro e também em junho de 2027.
Fonte: Valor Econômico


