Por Liane Thedim — Do Rio
24/07/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Um investidor com visão de curto prazo e menos tolerância a risco, num mundo em que os antigos modelos econométricos não funcionam mais. Foi como a TAG Investimentos, uma plataforma de gestão de patrimônio, planejamento sucessório e produtos estruturados com R$ 12 bilhões sob gestão, se viu no pós-pandemia. Diante da mudança, mudou sua forma de gestão. “Ao longo dos últimos 18 meses, vimos investidores não aguentarem e desmontarem posições nos piores momentos. E nosso papel como alocador é entender, e não ficar teimando com uma questão humana, da realidade atual”, diz Francisca Brasileiro, sócia da empresa.
Segundo ela, agora – e por enquanto, “porque a memória humana é curta” – os cenários têm prazos menores. “Antes olhávamos períodos até três anos para formar uma tese de investimento, mas reduzimos para de seis a 12 meses”. Até o perfil dos gestores entrou na dança: “Em vez de investir em fundos de quatro ou cinco com o mesmo estilo, por mais que sejam os melhores, buscamos distribuir entre os que seguem a linha raiz, os mais jovens e os que estão fora do eixo Faria Lima-Leblon.” A sofisticação abrangeu ainda um aumento na parcela dos fundos quantitativos e a inclusão de gestores de nicho. “As carteiras não necessariamente precisam ter menos risco, mas sim posições menos ‘high conviction’, ou seja menos apostas numa única tese.”
Francisca discute com os clientes a alocação no Brasil e no exterior caso a caso e toma decisões em conjunto, sob a ótica de objetivos e tolerância a risco. Quando notou a diferença no comportamento do investidor, foi buscar entender o que estava acontecendo, seguindo sua tradição de pesquisa em profundidade. Física com mestrado em Astrofísica, Francisca chegou a seguir carreira acadêmica por nove anos, até descobrir o mercado financeiro. “Comecei a ver que isso que estamos vivendo aqui foi muito pior globalmente”, conta.
No caminho, topou com o acrônimo BANI (“brittle, anxious, nonlinear and incomprehensible”, que em português significa frágil, ansioso, não linear e incompreensível), diagnóstico do mundo pós-pandemia que vem sendo bastante discutido no exterior. E foi identificando um a um dos pilares da tese. Primeiro, a não linearidade: “O ano de 2022 foi um dos piores da história dos investimentos. A rentabilidade média da carteira de um fundo de pensão americano foi negativa em 17%. Tivemos renda fixa e variável indo mal, nunca havíamos visto isso. Toda a relação entre os ativos, inflação, juros, emprego se rompeu”.
Como explicar um cenário em que o banco central americano leva os juros ao maior nível desde junho de 2006 e o pleno emprego se mantém? “Todo mundo empregado, com dinheiro no bolso. Aí você diz para o cliente: você não sabe mas tem uma crise gigantesca acontecendo. A subida de juros diz que no futuro vai ter uma recessão, mas ninguém consegue enxergar isso”, conta. E, do lado dos especialistas, as queixas: “Você joga os dados no modelo e o resultado não acontece. Os economistas dizem: meu modelo não serve mais. Não confiamos mais tanto nas previsões porque tivemos uma mudança de regime”.
De acordo com Francisca, “são tantas conexões que as pessoas se perdem.” E aí é o pilar do incompreensível. “Muito difícil explicar que temos uma inflação alta por causa dos estímulos da pandemia, por causa da guerra na Ucrânia.” O frágil e o ansioso do acrônimo se manifestam no aumento na resistência em aplicar em longo prazo. “As pessoas estão mais ansiosas, mais ‘curtoprazistas’, acham que tudo pode mudar de repente, e a gente defendendo que tem que esperar dez anos para obter retorno num investimento. Isso não está mais casando. Sempre foi difícil mas agora está pior”, diz.
Do outro lado do “balcão”, os técnicos do mercado financeiro, afirma Francisca, demoraram para entender toda essa mudança e continuaram defendendo a teoria de finanças que sempre estudaram. “Faltou ouvir essas pessoas e entender que tinha que mudar. Quem não acompanha o dia a dia não tem a visão de que o mercado é cíclico. Quando converso com meus clientes eles sempre argumentam que ‘agora é diferente’. Tivemos que juntar os modelos, os cálculos e as análises ao comportamento na outra ponta.”
O perfil desse investidor mais frágil e ansioso não é marcado por idade ou renda, comenta a gestora, e sim pela proximidade com a construção do patrimônio. “Um administrador de um fundo de pensão, por exemplo, tem que prestar contas a outras pessoas que não estão no dia a dia e sofre mais com a ansiedade. Do mesmo jeito quem tem um patrimônio muito grande e não acompanha tanto o mercado, às vezes, é mais difícil de entender do que aquele que tem um montante menor e acompanha de perto porque depende da renda.” A sócia da TAG conta que, ao fim de longas explicações, ouviu várias vezes: “Entendo tudo, mas eu não quero mais. Prefiro perder agora permanentemente do que viver essa ansiedade de novo”.
E quando podemos vislumbrar um cenário mais claro? “Essa é a pergunta de US$ 1 milhão”, brinca. Para a executiva, no entanto, o principal caminho é a normalização da cadeia produtiva global, que, afirma, começou a acontecer há três meses. Outro fator que ela monitora são os preços das commodities relacionadas à guerra na Ucrânia. “Preço do gás, fertilizantes, milho, soja voltaram ao pré-pandemia, o petróleo parece ter se estabilizado. O problema é que novas sanções podem estourar. Mas o preço das commodities e a normalização da cadeia indicam que o pior já passou.” A inflação, por outro lado, ainda é uma incógnita. “Ninguém sabe quando os índices voltarão para a meta, nem os presidentes dos bancos centrais. Foram muitos choques que vivemos em pouco tempo.”
Fonte: Valor Econômico
