Por Mohamed El-Erian — Financial Times*
08/12/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
Algo peculiar está acontecendo mais uma vez na relação entre os mercados financeiros e o Federal Reserve (Fed). Uma discordância surgiu em relação às taxas de juros que o Fed estabelecerá em 2024. Quanto mais os investidores ignoram os sinais emitidos pelo banco central mais influente do mundo, maior a probabilidade de se encontrarem no lado perdedor deste debate. E quanto mais esse fenômeno persistir, mais intrigantes se tornam as complexidades relacionadas.
Essa situação tornou-se vividamente evidente nos dias prévios ao atual período de silêncio, no qual as autoridades não podem fazer comentários públicos, que acaba em 13 de dezembro com a conclusão da reunião de política monetária do Fed. Nesse período marcado pelas interpretações – ou audição seletiva – “dovish” (mais inclinadas ao afrouxamento) dos mercados aos vários discursos do Fed, toda a atenção esteve voltada para saber se os comentários do presidente Jerome Powell no fim daquela semana iriam contra o consenso de mercado, que previa cortes nas taxas a partir do início de 2024.
Powell tentou fazê-lo em duas linhas de argumentação. Primeiro, enfatizou que “era prematuro concluir com confiança que alcançamos uma postura suficientemente restritiva, ou especular sobre quando a política monetária poderia se flexibilizar”. Segundo, lembrou aos mercados que ele e seus colegas no comitê de política monetária do Fed “estão preparados para apertar ainda mais a política se isso se tornar apropriado”. No entanto, essas tentativas provaram ser malsucedidas, a julgar pelas reações do mercado.
Seria de se esperar que esses sinais revertessem parcialmente o chamativo movimento dos “yields” (rendimentos) observado em novembro – uma queda de mais de 0,60 ponto percentual para o título do Tesouro de dez anos e mais de 0,40 ponto percentual menor para a nota de dois anos, mais sensível aos juros do Fed. Em vez disso, os rendimentos caíram mais 0,10 ponto no dia dos comentários de Powell, levando os mercados a precificar, até o fim daquela semana, um total de cinco cortes em 2024, com uma probabilidade significativa de o primeiro ocorrer já em março.
O que aumenta a peculiaridade é que esta não é a primeira vez que os mercados desafiam a visão do Fed, liderado por Powell, sobre a perspectiva da política monetária. Há apenas um ano, um cenário semelhante se desenrolou, com os mercados precificando cortes para 2023 que nunca se materializaram. Como resultado, os títulos do governo tiveram um ano turbulento e, até o robusto rali nos rendimentos em novembro, enfrentaram a perspectiva de um terceiro ano consecutivo de retornos negativos.
Há uma terceira peculiaridade: quanto mais os mercados se afastam dos sinais do Fed, mais provável é que levem o BC a adotar o caminho que é prejudicial para eles. Isso ocorre porque a afinidade dos mercados por cortes nas taxas afrouxa as condições financeiras e aumenta as preocupações do Fed com pressões inflacionárias, adiando assim os cortes nas taxas nos quais os mercados estão apostando. De fato, de acordo com um índice do Goldman Sachs, novembro foi um dos maiores afrouxamentos mensais nas condições financeiras registrados.
Quanto ao porquê, os mercados podem estar dispostos a arriscar outra repreensão do Fed porque estão mais preocupados com uma possível recessão em 2024. Isso estaria alinhado com os preços do ouro e do petróleo, mas parece inconsistente com uma alta nos preços das ações.
Os juros podem muito bem permanecer inalterados por mais tempo do que o mercado futuro atualmente sinaliza
Alternativamente, os mercados podem acreditar que, embora o Fed oficialmente tenha como meta uma taxa de inflação de 2%, ele poderia tolerar compreensivelmente um número ligeiramente mais alto (3%). Isso está de acordo com a ideia de que, após lidar com demanda agregada insuficiente dos dez anos anteriores, a economia global entrou em um período de vários anos de oferta agregada menos flexível.
Fatores como a transição energética, a globalização fragmentada, a ênfase corporativa em cadeias de abastecimento resilientes e mercados de trabalho menos adaptáveis contribuem para essa mudança. Buscar uma meta de inflação muito baixa nesse ambiente resultaria em sacrifícios desnecessários no crescimento e nos meios de vida, além de agravar a desigualdade.
A terceira explicação centra-se na perda de credibilidade do Fed. Isso se deve à sua má caracterização da inflação, medidas de política monetária atrasadas, lapsos de supervisão, comunicação fraca, repetidos erros de previsão, dúvidas sobre a negociação de alguns funcionários e fraca responsabilização.
Com base na previsão consensual do mercado para a economia e nos valores relativos das ações, as taxas de juros podem muito bem permanecer inalteradas por mais tempo do que o mercado futuro atualmente sinaliza. Para evitar outro possível contratempo, os investidores devem se preparar para a possibilidade de “yields” mais elevados em 2024 ou ajustar os valores das ações de acordo.
*Mohamed El-Erian é presidente do Queens’ College, em Cambridge, e consultor da Allianz e Gramercy
Fonte: Valor Econômico
