26/04/2024 05h02 Atualizado há 6 horas
“Campos Neto tem os votos necessários?” foi a pergunta feita pelo Valor a diversos participantes do mercado nos últimos dois dias, ao questionar as revisões de cenário que contemplavam uma redução no ritmo de corte da Selic para 0,25 ponto já em maio. A visão consensual do mercado era que, diante da mudança relevante da comunicação feita pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, na semana passada, uma alteração do ritmo já era certa. No entanto, declarações do diretor de política monetária do BC, Gabriel Galípolo, acenderam o sinal de alerta sobre uma possível divisão do colegiado no momento em que discussões sobre a sucessão no comando do BC já aparecem.
O discurso de Galípolo na manhã de quarta-feira foi o que mais deixou participantes do mercado em dúvida. A primeira impressão coletada pelo Valor com traders e economistas foi de alinhamento do diretor ao que já havia sido indicado por Campos Neto na semana passada, diante do compromisso com a meta de inflação. No entanto, ao longo da sessão, houve mudança na leitura, especialmente pelo fato de o diretor ter dito, no fim de sua intervenção, que é preciso ter calma nos momentos de reprecificação da curva de juros de Treasuries.
“Não temos meta de diferencial de juros e não temos meta de taxa de câmbio. Temos meta de inflação, que vem se comportando bem. Pelo menos o último IPCA apresentou um bom número. No saldo, o que seria mais adequado, na linha de parcimônia e serenidade, é conseguir dar tempo para ver, quando acontece esse tipo de reajuste da curva americana, como isso se desdobra para aquilo que efetivamente é o mandato do BC, que é uma meta de inflação”, disse Galípolo.
“Acho importante a gente ter calma, não se emocionar muito e entender como isso vai se desenrolar. Ainda que o risco que você esteja correndo é o de estar um pouco mais atrasado nesse processo de função de reação”, acrescentou. Nesse sentido, ganhou força a sensação de que Galípolo adotou tom mais “dovish” (suave) que o de outros diretores.
“Ele foi ‘dove’ sim. ‘Dar tempo’ pode significar que ele pretende seguir com um corte de 0,5 ponto até onde der e o risco de ‘ficar atrasado na função de reação’ pode indicar a descoberta de que, de fato, o cenário mudou para pior e o BC ficou atrasado em reduzir o ritmo”, avalia um economista. Ele nota que Galípolo citou a melhora na inflação corrente, mas não mencionou a piora nas expectativas de inflação de médio prazo. O horizonte relevante da política monetária deve incluir, na próxima reunião, apenas o ano de 2025.
A mudança na percepção de participantes de mercado ocorre em um momento de volatilidade nos mercados. Na semana passada, durante os encontros do Fundo Monetário Internacional (FMI), Campos Neto deu ênfase ao aumento da incerteza e desenhou quatro cenários possíveis para a condução da política monetária. Nesse contexto, os juros futuros dispararam e houve uma revisão relevante das expectativas dos agentes econômicos em relação à decisão de maio e ao nível da Selic no fim deste ano.
De acordo com relatos feitos ao Valor por participantes do mercado que estavam em Washington e que estiveram em reuniões com Diogo Guillen (política econômica), Renato Gomes (organização do sistema financeiro e resolução) e Paulo Picchetti (assuntos internacionais e gestão de riscos corporativos), os posicionamentos desses diretores mostraram algum alinhamento – uns mais e outros, menos – com os cenários de Campos Neto. E essa percepção fortificou a sensação entre os agentes de que a autoridade monetária iria reduzir o ritmo de corte na Selic.
No entanto, a certeza de uma redução de 0,25 ponto na Selic em maio diminuiu após as declarações de Galípolo.
Alguns agentes, porém, alertaram que uma divisão no Copom ou um cenário em que a maioria do comitê vote por uma redução de 0,5 ponto – o que seria contrariar o entendimento majoritário refletido nos preços dos ativos após a mensagem passada no FMI – poderia reforçar um ambiente de estresse nos ativos domésticos. As cinco decisões mais recentes do Copom foram consensuais. O último dissenso foi na primeira participação de Galípolo no colegiado, em agosto.
Cinco decisões mais recentes do Copom foram consensuais; último dissenso foi em agosto de 2023
“Não sei até que ponto Galípolo estava alinhado ao que Campos Neto disse, mas tenho alguma dificuldade em entender incentivos para uma visão contrária neste momento”, disse um profissional do mercado. “Não faria sentido o BC ter feito uma comunicação tão detalhada se não fosse implementar. Neste estágio do ciclo, com os ativos ‘machucados’, câmbio disparando e juros abrindo [subindo], um dissenso injetaria mais volatilidade nos ativos.”
A posição guarda semelhança com a de outros agentes, para quem o pior cenário para o comportamento dos mercados locais seria uma divisão no colegiado em que a posição de Campos Neto eventualmente saia derrotada da reunião. “Não acho que a comunicação tenha sido boa. O BC ‘panicou’ em um ‘timing’ perverso, com juros globais subindo e notícias fiscais negativas aqui. O cenário ruim provocou essa guinada na comunicação e o mercado migrou para ela e já mostrava alguma concordância com o que foi sinalizado. Ir contra isso agora seria danoso.”
Parte da preocupação com os agentes em torno da possibilidade de dissenso no Copom de maio vem da bolsa de apostas para a vaga de presidente do BC, em que Galípolo aparece como um dos principais candidatos. Nesse sentido, agentes se questionam sobre os efeitos no mercado se Campos Neto for para um lado e Galípolo, para outro.
“Normalmente, os banqueiros centrais gostam de jogar duro no início dos mandatos para conquistar credibilidade. Claro, existe incerteza se ele será mesmo o escolhido ou não para substituir Campos Neto, mas seria estranha uma divergência agora”, diz um estrategista. Para ele, o mercado olharia uma eventual gestão de Galípolo com ainda mais desconfiança se ele optar por uma posição mais “dovish” que outros membros.
Uma fonte pondera o fato de que diversos bancos centrais têm decisões que não são unânimes e que, com a autonomia da autoridade brasileira, isso seria algo a se ver com mais frequência por aqui. “E é natural que haja divergências, e pode ser que Galípolo faça esse papel e adote um papel ‘do governo’ dentro do comitê. Mas acho improvável que Campos Neto não tenha feito um alinhamento com os outros diretores quando deu aqueles recados no FMI. Tem um núcleo dos diretores que foi consultado, porque foi uma mudança em relação à decisão.”
Assim, para esse profissional, seria difícil uma situação em que hoje Campos Neto perderia uma votação. Ele, inclusive, diz acreditar em uma postura mais cautelosa a ser adotada pelo diretor de fiscalização, Ailton Aquino, diante do aumento das incertezas, o que contabilizaria mais um voto a favor de um corte de 0,25 ponto caso o cenário se mantenha com nível elevado de incertezas. “Acho que pode ter quebra-pau, discussão, mas apostaria em 7 a 2 ou, como cenário mais provável, 9 a 0.”
Fonte: Valor Econômico