A inflação acelerou nos Estados Unidos em dezembro com o aumento dos preços da gasolina, ovos e automóveis usados. Contudo as pressões sobre os preços também deram sinais de alívio, aumentando as esperanças de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) ainda possa reduzir a taxa básica de juros em 2025.
O índice de preços ao consumidor (IPC) teve alta anual de 2,9% em dezembro em relação ao mesmo período do ano passado, segundo relatório do Departamento do Trabalho divulgado nesta quarta-feira (15). Em novembro, a alta havia sido de 2,7%. Foi o terceiro aumento consecutivo depois que a inflação caiu para o menor nível em três anos e meio ao fechar setembro do ano passado em alta de 2,4%.
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No entanto, excluindo as categorias voláteis como alimentos e energia, o núcleo da inflação caiu para 3,2% após permanecer em 3,3% por três meses. Economistas dão especial atenção aos preços do núcleo da inflação pois costumam oferecer uma indicação mais precisa do rumo da inflação.
O relatório apresenta um cenário misto para a economia americana, com os consumidores ainda lutando com os altos preços. Ao mesmo tempo, os aumentos nos aluguéis de apartamentos estão diminuindo lentamente, enquanto os custos com vestuário quase não subiram no mês passado. Se o núcleo da inflação continuar no ritmo de dezembro, a inflação deverá se aproximar da meta de 2% do Fed.
O relatório mostra que o núcleo da inflação “está em declínio”, segundo Mike Skordeles, chefe de economia do banco Truist para os EUA. “Se as tendências continuarem, o Fed ainda poderá acabar cortando os juros em algum momento.”
Algumas altas de preços provavelmente pontuais puxaram a alta da inflação, com os preços da gasolina subindo 4,4% apenas em dezembro.
Os preços dos alimentos desaceleraram durante a maior parte do ano passado, mas começaram a subir no quarto trimestre (0,4% em setembro, 0,5% em novembro e 0,3% em dezembro).
Em uma base mensal, os preços ao consumidor subiram 0,4% em dezembro, o maior aumento desde março de 2024. Os preços do núcleo da inflação subiram apenas 0,2% após quatro meses de altas de 0,3%, um sinal positivo de que algumas pressões sobre os preços podem estar esfriando um pouco.
A desaceleração nos aumentos dos preços do núcleo da inflação foi recebida com alívio em Wall Street, com o índice industrial Dow Jones subindo quase 700 pontos, ou 1,6%, na manhã desta quarta-feira. Muitos economistas e investidores temem que a inflação tenha ficado estagnada acima da meta de 2% do Fed, após uma queda constante em 2023 e durante grande parte do ano passado.
O aumento nos preços gerais ao consumidor mostra que a inflação continua persistente, mesmo com a ameaça de políticas potencialmente inflacionárias do novo governo Trump, como as tarifas universais e as deportações em massa de imigrantes em situação ilegal, se aproximando.
Durante a campanha, Trump prometeu impor tarifas de até 20% sobre todas as importações, e de até 60% sobre as importações da China. David Pennino, executivo-chefe da LogicSource, uma companhia de terceirização de compras, diz que as tarifas generalizadas poderão aumentar a inflação.
As tarifas de importação universais aumentariam os custos para as empresas ao tornar laptops, embalagens e móveis de escritório, entre outros itens, mais caros, diz Pennino. Sua empresa, que gerencia compras para cerca de 40 companhias, incluindo TractorSupply, Titleist e Lululemon, calcula que as tarifas universais poderiam elevar os preços de hardware de computadores em 20% a 30% e as embalagens plásticas em 15% a 25%. “Tenho dificuldades em ver como isso não afetaria os custos das mercadorias vendidas, criando, portanto, um ambiente inflacionário”, diz Pennino.
Ali Collier, dona do Main St Market em Glen Rock, Pensilvânia, uma loja de alimentos no estilo cooperativa de agricultores, diz que seu fornecedor de ovos investiu em um número maior de galinhas no segundo trimestre do ano passado e ainda não aumentou seus preços, permitindo a Collier evitar aumentos nos preços de sua loja. Isso atraiu alguns novos clientes.
“Tivemos um problema com os ovos no passado”, diz ela, referindo-se aos aumentos de preços anteriores causados pela gripe aviária. “O quanto mais consistente eu puder ser com os meus preços, melhor e mais confiável as pessoas parecem achar a nossa loja.”
Embora a maioria de seus produtos, como sabonetes e outros sejam de origem local, ela importa algumas maçãs, gengibre e materiais de embalagem e está preocupada com o modo como as tarifas vão afetar esses preços. Ela pode obter mais maçãs nos EUA, mas teme que a inflação leve outras empresas a também comprar mais nos EUA, elevando seus custos.
Na semana passada, a ata da reunião de dezembro do Fed mostrou que os economistas do banco central acreditam que a inflação permanecerá no nível de 2024, impulsionada um pouco pelas tarifas mais altas. Wall Street acredita que o Fed realizará apenas um corte de um quarto de ponto porcentual nos juros este ano, de seu nível atual de 4,3%, segundo apontam os mercados futuros.
Outros custos dos empréstimos permanecem altos, em parte devido às maiores expectativas de inflação e poucos cortes nas taxas de juros. As taxas dos financiamentos imobiliários, que são muito influenciadas pelo rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos, subiram pela quarta semana consecutiva para 6,9%, bem acima das mínimas do período da pandemia, de menos de 3%.
Fonte: Valor Econômico