Por Gabriel T. Rubin e Nick Timiraos, Dow Jones
14/03/2023 09h59 Atualizado há 14 horas
A inflação desacelerou nos EUA em fevereiro, mas permaneceu teimosamente alta, representando um desafio para o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que tenta encontrar uma maneira de desacelerar a economia com taxas de juros mais altas, ao mesmo tempo em que tenta conter uma crise no sistema bancário.
O índice de preços ao consumidor (IPC) subiu 6% ao ano em fevereiro, uma leve desaceleração do aumento de 6,4% ao ano registrado em janeiro, segundo informou ontem o Departamento do Trabalho. Foi o menor aumento desde setembro de 2021. Excluindo os custos voláteis dos alimentos e da energia, os preços subiram um pouco menos, 5,5% ao ano. Os economistas veem o chamado núcleo da inflação como um indicador melhor da inflação futura.
Dados mensais mostraram que as pressões sobre os preços persistiram em muitos segmentos da economia. Os preços do núcleo da inflação aumentaram 0,5% em fevereiro (sazonalmente ajustados), o maior ganho mensal em cinco meses. Os custos com moradia subiram 0,8% em fevereiro, igualando o maior aumento mensal desde a década de 80.

Economistas disseram que o relatório do índice de preços ao consumidor divulgado ontem reforça a urgência da luta do Fed contra a inflação. Para vários deles, o dado certamente tornaria as autoridades monetárias mais propensas a aumentar as taxas de juros em um 0,25 ponto porcentual na semana que vem, desde que não haja uma piora no setor bancário, sob estresse desde a quebra do Silicon Valley Bank (SVB).
Os preços das passagens aéreas e hospedagem também aumentaram em fevereiro. O mesmo aconteceu com os preços da gasolina e dos alimentos, mas em um ritmo menor do que em janeiro. Os consumidores pagaram menos em fevereiro para aquecer suas casas e os preços dos serviços médicos e carros usados também caíram.
A inflação alta, combinada com o mercado de trabalho forte e os gastos sólidos do consumidor, parecia colocar o Fed em posição de considerar um aumento maior dos juros em sua reunião de 21 e 22 de março. Mas o colapso do SVB e outras instituições financeiras poderá levar o BC a agir com mais cautela para avaliar a situação do sistema financeiro.
O núcleo da inflação — os preços subiram 5,2% nos últimos três meses, em uma taxa anualizada — tem ficado bem acima das expectativas dos economistas e destaca ainda mais a tensão entre as metas de estabilidade financeira e de preços do Fed. Isso poderá forçar os mercados a “reconsiderar o que vemos como uma visão infundada de que a crise do SVB significa que o Fed provavelmente parou de aumentar as taxas de juros”, disse Krishna Guha, vice-presidente do conselho de administração da Evercore ISI.
Antes da quebra do SVB, a economia em geral demonstrava uma força surpreendente no início do ano. As vendas no varejo e gastos com restaurantes aumentaram em janeiro no ritmo mensal mais acelerado em quase dois anos, e os empregadores criaram mais de 800 mil empregos nos dois primeiros meses do ano.
Mesmo assim, surgiram alguns sinais de esfriamento. Economistas estimam que os gastos no varejo caíram em fevereiro. O Departamento do Comércio divulga hoje os novos dados de consumo.
O aumento dos salários desacelerou no mês passado, sugerindo que os mercados de trabalho apertados não estão levando a aumentos rápidos nos contracheques. E a criação de novos empregos, embora ainda acima do número de desempregados em busca de trabalho, caiu em fevereiro, segundo o Departamento do Trabalho. As estimativas de ofertas de emprego no setor privado mostram a continuidade do esfriamento da demanda por mão-de-obra.
Embora a inflação para o consumidor tenha caído em relação ao pico recente de junho, ainda está bastante elevada em relação à taxa de antes da pandemia, de pouco mais de 2%. Os preços altos fizeram alguns consumidores recuar e buscar alternativas mais baratas.
Fonte: Valor Econômico