A indústria de fundos de investimentos cresceu 12,9% em 12 meses encerrados em março de 2026 e alcançou um patrimônio de R$ 10,8 trilhões. A captação líquida no ano até este ponto foi de R$ 159,2 bilhões, o maior fluxo para o período em cinco anos, segundo dados da Anbima, associação que representa os mercados financeiros e de capitais.
A renda fixa segue na liderança, com ingressos de R$ 130,3 bilhões desde janeiro, mas houve um movimento concentrado, de R$ 61,8 bilhões, em veículos de curto prazo e crédito livre, além de R$ 19,1 bilhões em portfólios dedicados a ativos com classificação grau de investimento. Os fundos de índice negociados em bolsa (ETF) atraíram R$ 17,8 bilhões, com uma única carteira de renda fixa respondendo por R$ 5,8 bilhões.
Os multimercados receberam R$ 11,2 bilhões, com praticamente todo o volume (R$ 11 bilhões) num multimercado que aplica recursos no exterior. Outro destaque positivo foi observado nos fundos que compram participações em empresas fechadas (FIP), com R$ 6,4 bilhões. Na mão inversa, os fundos de ações tiveram resgates superiores à captação no mesmo valor, em R$ 6,4 bilhões.
Os fundos de renda fixa duração baixa e crédito livre tiveram valorização de 2,6%, a melhor performance da classe no período, ainda que inferior ao CDI, de 3,4%.
No conjunto, as carteiras com crédito privado alcançaram patrimônio de R$ 1,5 trilhão em fevereiro, com 46% delas com mais de 70% de exposição. Um ano atrás, a cifra era de R$ 1,2 trilhão, com mesmo percentual no bolo. Em 12 meses, findos em fevereiro, a categoria observou resgates de R$ 11,0 bilhões, mas daí concentrados naqueles com até 30% em crédito, geralmente usados como instrumentos de curto prazo.
Os fundos de infraestrutura alcançaram R$ 371,2 bilhões em fevereiro, com a captação líquida em R$ 128,1 bilhões em 12 meses.
Os ETFs (fundos negociados em bolsa) progressivamente vêm ganhando destaque na carteira do investidor e em março alcançaram patrimônio de R$ 103,5 bilhões.
Já o patrimônio dos fundos de ações chegou a R$ 709,5 bilhões, um incremento de quase 26% em 12 meses até fevereiro, impulsionado pela performance da classe e aumento do número de contas e de veículos. A rentabilidade média no ano chega a 10,7%, inferior aos 16,3% do Ibovespa no período, concentrado em ações de commodities e do setor financeiro.
O total em multimercados permaneceu estável em R$ 1,5 trilhão, com a rentabilidade média em 1,7%, com o desempenho de março corroendo a recuperação da categoria. A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã e as ofensivas no Oriente Médio provocaram uma revisão das expectativas de cortes de juros e, consequentemente, levaram a ajustes nas carteiras para um cenário de maior volatilidade.
“Com todo ambiente de maior incerteza, de maior volatilidade, a gente ainda pode ver algum tipo de dispersão nos resultados dos fundos nas próximas semanas”, disse Pedro Rudge, diretor da Anbima, em coletiva de imprensa para comentar os dados do primeiro trimestre da indústria de fundos.
“Alguns conseguiram se proteger, a maioria não. O maior impacto que se viu foi em março, dado que a maioria das carteiras estava posicionada para movimento de queda de juros e não estava no radar um aumento de preços de petróleo tão impactante. Os gestores ajustaram a exposição e os impactos agora tendem a ser menores”, continuou Rudge.
Nos fundos de renda fixa com crédito privado, ele disse ser razoável continuar a ver movimentos de resgates após eventos no setor corporativo, que acabam afetando mesmo ativos fora desse contexto em particular. “Não há nada que nos chame a atenção ou preocupe, num primeiro momento é normal ver esse comportamento do investidor quando há reprecificação dos ativos”, afirmou Rudge. “Teve algumas notícias de recuperação extrajudicial [Grupo Pão de AçúcarCotação de Grupo Pão de Açúcar e Raízen], guerra e isso tudo traz um pouco de nervosismo, uma maior aversão, com ele preferindo a realocação em produtos mais conservadores.”
Ele destacou, contudo, que, quando se compara o volume de resgates em relação ao patrimônio dos fundos, o fluxo é ainda muito baixo. “Os fundos, na sua imensa maioria, são capazes de gerar liquidez para pagar resgates, a gente não vislumbra nenhum ponto de atenção se esse movimento continuar, os gestores têm um mercado secundário super ativo, o instrumento ganhou liquidez muito relevante nos últimos anos.”
A classe de fundos passivos dentro dos ETFs tende a ganhar mais relevância no mercado brasileiro, disse Rudge, mas ele enfatizou que o crescimento da categoria também é do setor. Há expectativas em torno da regulação que permita aumentar o cardápio de alternativas, com a inclusão de carteiras ativas na listagem. A transparência na remuneração de custos na cadeia de investimentos e uma maior adoção do “fee based”, a cobrança de uma taxa fixa pelo serviço de aconselhamento, tendem a estimular a adoção de instrumentos que costumam ser mais baratos.
“Nos fundos de ações e multimercados, os gestores estão passando por um momento mais desafiador e precisam se provar para que a captação volte”, disse Rudge, fazendo a ressalva que os dados de rentabilidade são relativos a médias e “existem casas e gestores conseguindo oferecer bons retornos e proteger seus fundos”.
Ele atribuiu uma maior captação da indústria em cinco anos, em parte, ao ressarcimento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) aos investidores que tinham depósitos a prazo do Banco Master, Will Bank e Pleno. Isso explicaria o fluxo para fundos de renda fixa soberano, de perfil conservador.
“Quando se olha para os próximos trimestres, a gente vai continuar a ver alguma incerteza, seja pela guerra, seja pela volatilidade em relação à queda dos juros e as eleições, mas os fundos brasileiros estão se recuperando”, seguiu Rudge. “Os fundos de ações têm tido performance interessante, os multimercados estavam se recuperando, a tendência é que voltem para a normalidade e se veja alguma realocação, de produtos mais conservadores para instrumentos um pouco mais arriscados.”
Fonte: Valor Econômico
