Os ativos globais sob gestão da indústria de fundos alcançaram US$ 147 trilhões em 2025, um crescimento de 11% em relação ao ano anterior. À primeira vista, pode parecer um setor resiliente. No entanto, mais de 80% do crescimento da receita bruta foi impulsionado pela valorização dos mercados. Ou seja, hoje, a indústria está fortemente dependente de fatores externos. É o que mostra um estudo global feito pelo Boston Consulting Group (BCG) e que escutou também casas brasileiras.
Historicamente, a valorização dos ativos representava metade do crescimento da receita bruta da indústria de fundos. Contudo, recentemente a captação veio diminuindo, aponta Ricardo Tiezzi, diretor executivo e sócio do BCG, em entrevista para o E-Investidor.
A indústria não controla a valorização dos mercados. Se tem crise global do ativo e o investimento é de longo prazo, o investidor pode esperar. Mas o problema é depender quase totalmente disso.
Ricardo Tiezzi, diretor executivo e sócio do BCG
Ele diz que as gestoras de fundos brasileiras ficaram mais protegidas desses desafios nos últimos anos porque criaram uma gordura para queimar após o segmento ter crescido na pandemia, quando os juros chegaram a 2% ao ano no Brasil. Mas seis anos depois, em um cenário prolongado de juros elevados, essa “proteção” acabou.
Futuro da indústria estão nos fundos alternativos
Os ativos globais sob gestão mais do que triplicaram e a receita da indústria mais do que dobrou ao longo dos últimos 15 anos. Apesar disso, as margens de lucro do setor permaneceram próximas de 30%, praticamente o mesmo patamar observado em 2010.
Além disso, os custos vêm aumentando. Entre 2010 e 2025, as receitas cresceram, em média, 5,1% ao ano, enquanto os custos avançaram em um ritmo ligeiramente superior, de 5,4% ao ano. Ou seja, os custos impediram que a expansão dos ativos se convertesse em ganhos.
Algumas despesas diminuem à medida que as gestoras ganham escala. No entanto, esses efeitos positivos são parcialmente anulados pelo aumento dos investimentos em tecnologia.
Influencia esse cenário o fato de que os fundos passivos e os ETFs (fundos negociados em bolsa de valores) passaram a concentrar a maior parte das captações líquidas, enquanto os ETFs ativos ganham participação de mercado cobrando taxas inferiores às dos produtos tradicionais. “As gestoras têm cada vez menos capacidade de cobrar uma taxa alta dos clientes principalmente por conta da competição com os ETFs”, diz Tiezzi.
O argumento de que um ciclo de baixa dos juros pode voltar a impulsionar o interesse dos investidores pelos fundos de renda variável faz sentido, diz o executivo. Porém, os investidores estão esperando por isso há muito tempo. “A asset vai minguando neste caminho: reduz custo, reduz time e cria um círculo vicioso, no qual fica mais difícil bater o mercado.”
Neste cenário, os fundos alternativos – como de crédito privado e imobiliário (FII) –, que conseguem cobrar mais por conta da expertise da gestão, são os mais rentáveis: já representam cerca de 50% da receita global das gestoras. “O boom das gestoras do final da década passada claramente chegou ao fim e deu espaço para gestores especializados, que têm natureza diferente das assets de antigamente”, afirma Tiezzi.
Onde está o crescimento?
Enquanto os fundos batiam o Ibovespa, muitos investidores abandonavam a Bolsa no meio da recuperação (Foto: Adobe Stock)
Mas por que captar clientes se torna um desafio cada vez maior para as gestoras? Porque as origens do crescimento e quem consegue capturá-lo estão mudando, conclui a análise do BCG.
O capital está sendo redistribuído entre diferentes regiões, veículos de investimento e segmentos de clientes. Além disso, novos intermediários estão surgindo, os canais de distribuição estão evoluindo e as transformações tecnológicas, especialmente a inteligência artificial (IA), estão remodelando a economia da indústria de gestão de ativos.
O crescimento está se tornando mais disperso do ponto de vista geográfico. A região da Ásia-Pacífico registrou a expansão mais acelerada entre 2020 e 2025, com crescimento anual de 9%.
Por segmento de investidores, o varejo é hoje o principal motor do crescimento dos ativos sob gestão, respondendo por 61% da expansão global no período. Eles dominam nos fundos de ações ativos, na renda fixa e nos ETFs; enquanto os institucionais continuam sendo os principais alocadores em investimentos alternativos.
Novos canais de distribuição também estão surgindo: sistemas de previdência estão redirecionando cada vez mais os fluxos de recursos para gestoras e o setor de seguros tende a ser relevante para a distribuição de crédito privado.
“A seguradora distribui produtos de previdência. Na prática quem escolhe a gestora é ela, que as ajuda a crescer com produtos que têm margens melhores”, aponta Tiezzi.
Em mercados financeiros mais maduros, existem também assets que conseguem acessar e serem mais presente em canais como o de family offices, completa o executivo. “É necessário achar um nicho. O mercado está afunilando e vender tudo para todos ficou mais difícil.”
Nova geração de investidores tem outra a relação com as gestoras
A maior transferência de riqueza da história está transformando o mercado de investimentos para pessoas físicas. Os beneficiários desse patrimônio são, em sua maioria, investidores nativos digitais, cuja relação com os serviços financeiros é bastante diferente da das gerações anteriores.
Eles esperam experiências totalmente integradas ao ambiente digital e demonstram maior disposição para investir em ativos alternativos, como mercados privados e ativos digitais.
A forma como esses investidores são alcançados também mudou radicalmente. Sites de comparação de produtos financeiros, redes sociais e o YouTube estão entre as principais fontes de influência nas decisões de investimento do varejo. No entanto, a indústria de gestão de recursos ainda possui presença bastante limitada nesses canais.
Ao mesmo tempo, o controle da relação com o investidor está migrando para novos intermediários. Na Europa, os ativos administrados por corretoras digitais ultrapassaram 150 bilhões de euros em 2023. Na Ásia-Pacífico, o ingresso de novos investidores ocorre predominantemente por canais digitais, por meio de carteiras eletrônicas e contas que rendem juros.
Como consequência, o avanço dos investidores nativos digitais está concentrando os fluxos de recursos em um número relativamente pequeno de plataformas. É por isso que Tiezzi acredita que grandes assets de bancos mais tradicionais, como Itaú (ITUB3; ITUB4), vão ter sempre seu espaço, não necessariamente por conta da capacidade de gestão, mas por sua capacidade de distribuição.
Para as gestoras, portanto, o sucesso dependerá cada vez mais de estarem integradas a esses ecossistemas digitais.
Geopolítica empurra investidor para o exterior
A crescente incerteza geopolítica e de política econômica passou a exercer influência direta sobre as decisões de onde investir. Os Estados Unidos continuam sendo o principal mercado de investimentos do mundo. No entanto, essa posição dominante passou a ser questionada.
Ainda não está claro se essas transformações representam uma tendência estrutural ou apenas um fenômeno cíclico. O que parece cada vez mais evidente é que os fatores por trás dessa mudança vão muito além de uma simples rotação de investimentos dos Estados Unidos para o restante do mundo.
A reorganização das relações comerciais internacionais, o aumento das barreiras aos fluxos internacionais de capital, políticas nacionalistas que direcionam investimentos para infraestrutura doméstica e um movimento mais amplo de desaceleração da globalização apontam para um ambiente de alocação global de capital cada vez mais complexo e sujeito a restrições.
Neste cenário, a diversificação geográfica deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a representar um requisito básico. Competir de maneira eficiente exigirá capacidade de distribuição local, produtos adaptados às características de cada mercado e competência para intermediar fluxos internacionais de capital em um ambiente regulatório cada vez mais fragmentado.
Inteligência artificial transforma o modelo de negócios das gestoras
A tecnologia está por trás de muitas das transformações estruturais que vêm remodelando a indústria de gestão de recursos. No curto prazo, o principal fator de mudança é a inteligência artificial (IA), que eleva significativamente o nível da concorrência.
Ao mesmo tempo em que reduz as vantagens competitivas relacionadas ao acesso à informação e à estrutura de custos, permite um crescimento mais escalável, tornando possível expandir os ativos sob gestão sem necessidade de aumentar o número de funcionários na mesma proporção.
As estimativas do Boston Consulting Group (BCG) indicam que, em um horizonte de três a cinco anos, as gestoras poderão obter redução de 25% a 35% dos custos operacionais; expansão de duas a cinco vezes da cobertura das atividades de pesquisa; aumento de três a cinco vezes da quantidade de clientes atendidos por cada gerente de relacionamento.
Outro vetor importante vem da tokenização de ativos e o desenvolvimento dos ativos digitais. Atualmente, fundos que investem em ativos alternativos, como imóveis, Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), crédito privado e até criptoativos, enfrentam uma série de etapas para registrar, validar e acompanhar os ativos que compõem suas carteiras.
A tokenização surge como uma ferramenta para padronizar informações e permitir que diferentes participantes do mercado financeiro compartilhem dados de forma segura e rastreável.
Distribuição é crucial
O espaço disponível nas plataformas de distribuição está se tornando cada vez mais restrito. Apenas oferecer um produto com bom desempenho já não é suficiente para atrair novos fluxos de recursos e muitos dos elementos relacionados à criação e à estruturação de produtos de investimento estão se tornando menos capazes de diferenciar uma gestora da outra.
Em outras palavras, a principal fonte de vantagem competitiva mudou. Hoje, é a distribuição, e não apenas a qualidade dos produtos, que determina quais gestoras conseguem captar novos recursos.
Ao mesmo tempo, as indústrias de gestão de patrimônio (wealth management) e gestão de recursos (asset management) estão convergindo.
As gestoras de recursos estão se aproximando cada vez mais do investidor final. Algumas vêm adquirindo empresas de assessoria financeira, criando plataformas próprias de gestão de patrimônio e investindo em ferramentas e serviços voltados aos assessores de investimento.
Na direção oposta, as empresas de wealth management estão desenvolvendo capacidades próprias de gestão de investimentos e passando a competir diretamente também na criação e oferta de produtos financeiros. Nesse novo cenário, quem controla o relacionamento com o cliente passa a deter a principal vantagem competitiva.
Apesar dessa transformação, os modelos de distribuição adotados pela maior parte da indústria de fundos ainda permanecem pouco sofisticados. Isso dificulta que as gestoras aumentem sua distribuição de forma eficiente.
Fonte: E-Investidor

