Por Mariana Ribeiro, Valor — São Paulo
12/06/2023 09h36 Atualizado há um dia
O número de latino-americanos que usam apenas dinheiro em espécie caiu drasticamente desde a pandemia, mas 21% ainda estão digitalmente excluídos. Em 2020, essa fatia era de 45%. As conclusões são de estudo da Mastercard e da Americas Market Intelligence (AMI) que mostra que, apesar dos avanços, a inclusão financeira na região continua sendo desigual.
De acordo com a pesquisa, 31% dos adultos estão plenamente incluídos – contra 17% antes da pandemia. Outros 35% dos participantes se dizem dispostos a experimentar serviços financeiros diversos, mas, se tiverem uma experiência negativa, podem acabar retrocedendo na jornada. Além disso, 13% ainda preferem usar dinheiro.
Embora a América Latina seja uma das regiões que registraram maior avanço em termos de inclusão financeira, “há muito a ser feito para democratizar plenamente o acesso ao ecossistema digital”, diz o estudo. “Em pleno 2023, 91 milhões de latino-americanos ainda não têm uma conta digital e outros 200 milhões estão no início de sua jornada de inclusão financeira.”
O “Panorama da inclusão financeira pós-covid-19 na América Latina e no Caribe: novas oportunidades para o ecossistema de pagamentos” considera informações de Argentina, Brasil, Colômbia, El Salvador, Guatemala, México e Peru. Realizado entre novembro de 2022 e janeiro de 2023, o estudo se baseia em dados de governos e instituições financeiras, entrevistas com 25 provedores de serviços financeiros e pesquisas on-line com 2.815 indivíduos.
Os dados mostram que o acesso a produtos e serviços específicos é bastante desigual. Enquanto 58% dos latino-americanos têm cartão de crédito, apenas 31% têm acesso a empréstimo ou linha de crédito; 28% a seguro particular e 21% a outros investimentos. No Brasil, o percentual de uso do cartão de crédito é de 75%, bem superior à média. O país fica atrás, no entanto, quando analisada a oferta de outras formas de crédito, com 28% dos participantes relatando ter acesso.
Há ainda disparidades sociais e regionais. Apenas 59% dos entrevistados de baixa renda e 40% dos que vivem fora das grandes cidades têm uma conta bancária, frente à média geral de 79%.
“Hoje, a inclusão financeira é uma prioridade que vai além do acesso. Para terem sucesso de fato, os serviços financeiros precisam ser amplamente utilizados”, diz, em nota, Marcela Carrasco, vice-presidente sênior de desenvolvimento de mercado e inclusão financeira da América Latina e do Caribe na Mastercard. “Ajudar pessoas e comunidades a subir a escada da inclusão financeira, do acesso ao uso e além, é crucial para alcançar novos níveis de prosperidade econômica.”
Outro ponto destacado é o papel que governos nacionais tiveram na promoção da inclusão financeira durante e após a pandemia. De acordo com a pesquisa, 15% dos entrevistados acessaram seu primeiro produto de poupança ou depósito e 9% usaram a primeira carteira digital no período devido a auxílios governamentais.
Antes da pandemia, 56% dos entrevistados diziam que pagavam mais de metade de suas despesas com dinheiro físico. Hoje, esse número caiu para 43%. Apesar disso, o dinheiro físico ainda é o meio de pagamento mais utilizado no dia a dia, com 72% dos participantes declarando que usam a forma de pagamento diariamente ou semanalmente. Essa alta prevalência, segundo o estudo, provavelmente aponta para grandes lacunas na aceitação de pagamentos digitais por estabelecimentos familiares, lojas de conveniência e transporte público, por exemplo.
Os entrevistados também manifestaram a preferência pelo uso do smartphone, com 88% dos que utilizam algum produto financeiro dizendo que usam seus celulares para fazer transações. A maioria (55%) prefere ainda usar um dispositivo móvel para abrir uma nova conta.
A Mastercard e a AMI apresentam também cinco recomendações para o sistema de pagamentos. Segundo a pesquisa, as instituições devem priorizar a personalização, oferecendo soluções customizadas para determinados segmentos atrasados no processo de inclusão. Ferramentas de open finance e de gestão de finanças pessoais podem ajudar nesse processo.
É necessário também canalizar o desenvolvimento de produto para o crédito, investindo em facilidade e sistemas alternativos de score, com uso de processos inovadores de pontuação ou garantia criativa.
Em terceiro lugar, provedores devem reformular o conceito de educação financeira, fornecendo uma experiência invisível e “gamificada”, adaptada à capacidade financeira de cada segmento. Precisam ainda continuar a aumentar a comodidade dos pagamentos digitais e facilitar o cotidiano das pessoas. Por fim, o estudo considera essencial a parceria contínua entre os setores público e privado.
Fonte: Valor Econômico
