Por Sérgio Tauhata — De São Paulo
21/08/2023 05h02 Atualizado há 5 horas
A piora do cenário externo, com a escalada dos juros de longo prazo nos Estados Unidos, a desaceleração do crescimento na China e a alta dos preços do petróleo – que enfileiraram sete semanas de avanço -, acendeu o sinal amarelo para investidores diante da possibilidade de consolidação de um quadro de deterioração internacional. Porém, parte das pressões que elevaram a cautela global, em um ambiente que levou a bolsa brasileira a registrar 13 quedas seguidas, na maior sequência negativa da história, e o dólar a flertar com a volta à casa dos R$ 5, tende a perder força, afirmam especialistas ouvidos pelo Valor.
O sócio e estrategista-chefe do BTG Pactual, João Scandiuzzi, enxerga um cenário de acomodação de riscos relacionados aos juros longos americanos nos próximos meses. “Não estou vendo um cenário de maneira estruturalmente mais preocupante. Na medida em que os Treasuries [títulos de dívida do Tesouro americano] encontrarem um equilíbrio vamos ter uma melhora [dos mercados]”, afirma.
Outra preocupação, a possibilidade de a inflação nos EUA se mostrar mais resistente do que o esperado, também pode começar a arrefecer. Conforme o economista-chefe para a América do Norte da Capital Economics, Paul Ashworth, “o crescimento da economia real [dos EUA] parece estar ganhando impulso, mas esperamos que a recuperação seja de curta duração, conforme condições de crédito continuam a apertar e outros indicadores apontam fraqueza”. De acordo com o especialista, “as pressões subjacentes sobre preços estão desaparecendo rapidamente e esperamos que o núcleo da inflação esteja próximo da meta [do Fed] de 2% até meados de 2024”.
O economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, acredita que existe também uma “materialização de riscos não precificados”. Para o especialista, “o mercado estava muito otimista entre março e abril com a leitura de que a inflação [nos EUA] estava sendo superada com baixos custos, com crescimento e mercado de trabalho aquecido”. Porém, a subida dos juros nos EUA e problemas no mercado imobiliário na China, funcionaram como “gatilhos” para “mercados e investidores voltarem à realidade”.
Padovani lembra que os BCs globais “têm dado sinais contínuos de que o processo de desinflação pode ser mais lento, o que exige juros elevados por mais tempo”. Além disso, o novo capítulo da longa crise imobiliária chinesa tem impacto negativo importante na economia do país asiático.
De acordo com o estrategista do BTG, existem ainda fatores técnicos por trás da inclinação da curva de juros nos EUA. “Há uma oferta de Treasuries atipicamente alta e em um momento que talvez seja o pior do ano [para esse cenário], com a baixíssima liquidez do verão [no hemisfério norte]”, ressalta. Scandiuzzi explica que a alta na oferta de Treasuries está ligada ao elevado déficit fiscal dos EUA, na faixa de 8% do PIB, mas também devido a uma espécie de efeito colateral do debate em torno do teto de endividamento, que paralisou as emissões do Tesouro até o Congresso dos EUA chegar a um acordo.
“Como não podia emitir dívida, o Tesouro dos EUA usou o dinheiro parado na ‘Treasury General Account’ [conta única do Tesouro], que chegou a cair para um nível de US$ 44 bilhões”, diz o especialista. “Depois que a suspensão por dois anos do teto da dívida foi aprovada, o Tesouro passou a emitir não só para financiar o déficit corrente, mas também para recompor o volume de liquidez da conta única, que a secretária Janet Yellen estimou, como um nível ideal, em cerca de US$ 800 bilhões.”
Na análise da economista sênior para os EUA da Oxford Economics, Nancy Vanden Houten, a inclinação acentuada da curva de juros nos EUA reflete uma combinação de fatores. “A reavaliação das expectativas de longo prazo para a política do Federal Reserve, juntamente com outros fatores, incluindo o aumento na emissão de dívida de longo prazo do Tesouro dos EUA, tem contribuído para forte aumento nos rendimentos dos Treasuries longos”, afirma em relatório.
O gestor de estratégia macro na AZ Quest, Gustavo Menezes, também chama a atenção para questões técnicas na pressão sobre os juros nos EUA. “Quando houve o anúncio do ‘downgrade’ da dívida americana pela Fitch [que rebaixou o rating dos EUA de ‘AAA’ para ‘AA+’] também foi apresentado pelo Tesouro americano um plano de emissões”, aponta. “Houve recomposição de caixa pelo Tesouro, com emissões pesadas, além de um planejamento de emissões maciças de títulos longos”, acrescenta.
Na visão de Menezes, “desde aquele dia, o mercado e a curva americana de juros começaram a apresentar uma dinâmica problemática”. O gestor explica que “yields [taxas] de todos os prazos ficaram pressionados e houve forte inclinação de curva”.
Já Scandiuzzi, do BTG, aponta o problemático setor imobiliário chinês como um fator mais preocupante no atual cenário externo. “Essa crise tem um caráter mais estrutural e o mercado imobiliário é muito importante para o crescimento chinês”, avalia. “O governo do país tem feito muito poucas ações para resolver o problema e, por enquanto, não há nada que nos convença de uma virada no [baixo] crescimento chinês”, afirma.
Padovani diz que, apesar de inspirar aumento da aversão ao risco no curto prazo, a perspectiva de desaceleração de crescimento global trazida pelos juros altos por mais tempo e pela crise chinesa tende a ajudar no processo desinflacionário brasileiro. O petróleo, por exemplo, que subiu por sete semanas seguidas desde junho, registrou a primeira queda em um intervalo de sete dias na sexta-feira passada, em meio às preocupações com a baixa da demanda global, devido a um cenário de atividade mais lenta.
Na visão do economista-chefe do BV, “o cenário externo não vai atrapalhar o Brasil no processo de corte de juros”. A desinflação global, com a desaceleração de crescimento, aponta Padovani, ajuda a sustentar a queda de preços internamente. “O processo desinflacionário está claro [no Brasil] e a inflação vai cair”, diz.
Segundo o economista, “os desafios aqui continuam sendo o mercado de trabalho aquecido e os gastos públicos, que fazem com que a inflação caia em velocidades diferentes, com os núcleos mais resistentes”. Na visão de Padovani, “o cenário sugere que o BC, talvez, possa continuar cauteloso nesse processo de afrouxamento e, em vez de acelerar o passo, manter o ritmo de corte de 0,50 ponto percentual”.
O estrategista-chefe do BTG também partilha de expectativa semelhante. “Sem dúvida, o movimento externo tem implicações de apreciação do dólar e queda de bolsas globais. Mas, certamente, iria mais na linha de que o BC vai modular a política monetária, mais no sentido da manutenção do ritmo de corte no curto prazo. O BC tem colocado condições exigentes para acelerar os cortes.”
Menezes, da AZ Quest, endossa a opinião dos outros especialistas. “Precisaria de muita deterioração no cenário para o Banco Central reduzir o ritmo de corte de juros”, avalia. “Acho que estão confortáveis com essa velocidade de [corte de] 0,50 ponto”, complementa.
Para o gestor, o mercado reduziu a projeção de extensão do ciclo de queda de juros. “Chegamos a ter precificado perto de 20% de chances de cortes de 0,75 ponto e já recuou para menos de 10%. Ou seja, houve redução das expectativas. O plano de voo do BC precisaria de um choque que hoje não consigo vislumbrar, como uma depreciação cambial muito mais forte.”
Fonte: Valor Econômico