Embora o conflito entre EUA-Israel e Irã tenha mais de dois meses, sua transição de risco latente para choque econômico efetivo foi quase imediata, com transmissão rápida para preços globais e, em seguida, para variáveis domésticas brasileiras.
O ponto de inflexão ocorreu quando o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) declarou o Estreito de Ormuz fechado no início de março de 2026, transformando um risco geopolítico em um choque logístico efetivo. Desde o início do conflito, o Brent – um dos principais tipos de petróleo cru utilizado como referência global – saiu de patamares próximos de US$ 68 o barril para níveis acima de US$ 100 o barril, enquanto a ureia (FOB Egito, benchmark internacional) chegou a subir de forma abrupta em curto intervalo. O núcleo do problema, portanto, não está somente no barril de petróleo, mas no encadeamento entre energia, logística e insumos agrícolas, que pode amplificar efeitos inflacionários e alterar o balanço de riscos para a política monetária.
O Estreito de Ormuz é um chokepoint físico pequeno no mapa, mas determinante no preço: concentra aproximadamente um quarto do comércio marítimo global de petróleo e derivados, além de uma parcela material do GNL (gás natural liquefeito) e, de forma ainda mais crítica para o Brasil, um volume elevado do comércio de fertilizantes (ureia, amônia, fosfatados e enxofre). Com o corredor interrompido e rotas alternativas incapazes de compensar a maior parte do fluxo, o mercado passou a precificar três camadas de risco que se somam.
A primeira é o choque de oferta: um volume diário relevante de energia fica em risco quando produtores do Golfo (especialmente Arábia Saudita, Emirados e Catar) têm sua logística bloqueada. A segunda é o prêmio geopolítico, dado o risco de escalada regional e de envolvimento mais direto de potências ocidentais. A terceira é o custo logístico: seguros marítimos e fretes se descolam do spot, com desvio de rotas (inclusive via Cabo da Boa Esperança, com semanas adicionais de viagem), elevando o custo final de energia, derivados e insumos em múltiplas etapas da cadeia.
Essa combinação reprecificou um conjunto mais amplo de commodities. A energia liderou o choque, mas não ficou restrita ao petróleo: o gás na Europa reagiu com força após eventos no Golfo, e metais intensivos em energia na produção, como o alumínio, ganharam relevância dado movimento no preço. Já os alimentos mostraram um impacto inicialmente mais contido, mas com risco de aceleração via fertilizantes e custos de transporte.
Em paralelo, o desenho político do conflito adiciona complexidade: a morte do líder supremo iraniano abriu incerteza de comando e reforçou o protagonismo operacional do IRGC, reduzindo a previsibilidade de negociações e elevando a probabilidade de prolongamento do choque, precisamente o tipo de variável que, historicamente, importa mais para preço do que a intensidade pontual de ataques.
No Brasil, o canal mais imediato é o da energia. Um Brent mais alto eleva a paridade internacional e pressiona preços domésticos de diesel e gasolina, seja por reajustes diretos, seja por aumento de defasagens que acabam funcionando como “colchão” temporário, mas não eliminam o choque. Como combustíveis são um insumo transversal, o impacto se propaga para fretes, custos logísticos e industrializados, contaminando expectativas e exigindo reação de política monetária. Do ponto de vista macro, o efeito não é unidirecional: por ser exportador líquido de petróleo, o Brasil tem benefícios em termos de troca, conta corrente e arrecadação, além de um ciclo favorável para Petrobras (receitas, lucros e dividendos). Ao mesmo tempo, a pressão inflacionária de curto prazo, especialmente via combustíveis e itens sensíveis ao transporte, é o principal vetor de preocupação, pois pode desancorar expectativas e reduzir o espaço para cortes de juros.
O segundo canal é o de fertilizantes. Uma parcela expressiva do comércio global de nitrogenados passa por Ormuz, e produtores do Golfo chegaram a declarar força maior em embarques de ureia, amônia e enxofre, elevando prêmios spot e comprimindo a oferta disponível. Para o Brasil, a sensibilidade é alta: o país importa a maior parte dos fertilizantes que consome, com dependência relevante de ureia importada, e uma fatia importante das compras historicamente vem do Oriente Médio.
O calendário agrícola piora a assimetria: grande parte das importações de ureia se concentra entre maio e dezembro, justamente quando o bloqueio logístico pressiona fluxos e custos. Embora a safra corrente possa estar parcialmente protegida por estoques e compras já realizadas, o risco mais pronunciado recai sobre a próxima rodada de compras e sobre o repasse para preços de alimentos, com defasagem, ao longo do segundo semestre de 2026 e início de 2027, sobretudo em culturas e regiões com maior intensidade de uso de fertilizantes.
Essa leitura já aparece nas expectativas: projeções de inflação sobem e a precificação do mercado reduz a magnitude esperada de cortes da taxa Selic. Em choques como este, a incerteza logística tende a aumentar a persistência do repasse: empresas interpretam custos de energia e frete como sinal de gargalos à frente e ajustam preços de forma preventiva, o que alimenta efeitos de segunda ordem e torna o impacto inflacionário mais persistente na economia. O câmbio, por outro lado, atua como amortecedor no curto prazo, ajudado por um fluxo estrangeiro muito forte no início de 2026, termos de troca favoráveis e um elevado diferencial de juros, mas o balanço final depende da duração do choque e do manejo doméstico da política econômica. Em particular, medidas fiscais e parafiscais adotadas para mitigar a alta de combustíveis podem suavizar a inflação corrente, mas carregam riscos de credibilidade se ampliarem incertezas sobre a trajetória fiscal.
Em síntese, o conflito reativou o maior gargalo energético do mundo e abriu um encadeamento relevante para o Brasil: guerra e fechamento de Ormuz elevam petróleo, derivados e fretes; ao mesmo tempo, encarecem e restringem fertilizantes, pressionando alimentos com defasagem. O efeito agregado é assimétrico: melhora termos de troca e receitas ligadas ao setor de energia, mas aumenta o risco inflacionário e limita o espaço para afrouxamento monetário, com impactos sobre atividade e custo de capital.
A variável decisiva continua sendo o tempo de duração do bloqueio e sua capacidade de contaminar logística e expectativas. Por isso, o monitoramento deve se concentrar não apenas no Brent, mas também em prêmios de frete e seguros, fluxos efetivos por Ormuz, paridade doméstica de combustíveis, preços internacionais de ureia e fosfatados, além das expectativas de inflação e juros no Brasil.
Gabriel Barros é economista-chefe da ARX Investimentos.
Cléo Olimpio e Matheus Caliano são do time macro da ARX Investimentos.
O texto não reflete necessariamente as opiniões da empresa.
Fonte: Valor Econômico
