O impacto da vitória republicana nos Estados Unidos para o Brasil e sua intensidade, especialmente para o real, dependerão da reação da China a um aumento das tarifas de importação de produtos chineses para aquele país e de um possível anúncio de estímulos fiscais pelo governo asiático, avalia Gabriela Santos, estrategista-chefe para Américas da J.P. Morgan Asset Management. Além das incertezas no cenário externo, a preocupação com o quadro fiscal no Brasil tem tornado os investidores menos otimistas com a renda fixa local. Abaixo, os principais trechos da entrevista ao Pipeline.
Qual será o efeito de um novo governo Trump para ativos financeiros no médio prazo?
A definição tirou uma incerteza, o que traz alívio para os mercados. A pergunta agora é como será a implementação da política econômica com o controle do partido republicano no Congresso dando mais habilidade para implementar a agenda de Trump, qual será a composição do governo, qual a prioridade das políticas. Mas, em geral, a implicação para os mercados daqui para frente é de um cenário de corte de juros mais incerto pelo banco central americano no ano que vem. Devemos ver os juros americanos com prazos mais longos, como na Treasury de 10 anos, mais elevados com a possibilidade de extensão do déficit fiscal e da dívida pública americana. Com isso, um dólar mais forte por conta do diferencial de juros, mas também por causa de guerra comercial e da implementação de tarifas de importação e corte de impostos. Em geral, vemos um ambiente favorável para ativos de risco como a bolsa americana e dívida corporativa nos EUA, com o crescimento sólido de lucro das empresas e menos regulação para alguns setores.
Donald Trump volta ao poder nos Estados Unidos, com Congresso também de maioria republicana — Foto: Evan Vucci/AP
A agenda de governo prevê aumento de alíquotas comerciais sobre importações, principalmente da China. Qual o impacto disso para os países emergentes?
Olhando o histórico de Trump, o tema das tarifas deve vir rápido, no ano que vem, e o impacto será sentido principalmente via moedas. Há três avenidas que explicam a tendência de um dólar forte. A primeira é o aumento das tarifas em si, que deve causar uma depreciação das outras moedas para compensar a competitividade, especialmente de países que estão na mira do governo Trump, como China, mercados da Europa, Canadá e México. A segunda é o impacto via aversão a risco, com a preocupação com crescimento econômico, e a terceira é o aumento de juros nos EUA. Fizemos um estudo olhando o episódio de guerra comercial no primeiro governo Trump, de 2018 a 2019, e o real foi uma das moedas afetadas pelo dólar forte porque é uma divisa de risco mais alto.
Como fica o real frente a outras moedas em função da grande exposição à China?
Como o Brasil tem exposição a commodities, o real acaba sendo indiretamente afetado pela aversão a risco e preocupação de crescimento global. Porém, temos que ver qual será a reação da China. Esta semana está acontecendo o encontro do comitê do Congresso Nacional do Povo da China, que termina na sexta, e haverá outra reunião em dezembro. Com certeza vão levar em conta o resultado da eleição americana para avaliar estímulos fiscais adicionais. Se a China fizer mais estímulo, isso limitaria o efeito negativo para o real.
Como o novo governo americano afeta as políticas energéticas? Uma das promessas de Trump, por exemplo, é retomar ritmo de produção de petróleo.
A política energética dos republicanos é a mais favorável à produção de petróleo e gás natural e menos favorável à energia renovável. Contudo, no primeiro governo Trump as ações do setor de energia tradicional caíram 40% e as de energia renovável subiram 275%. No governo de Joe Biden, os papéis de energia tradicional subiram 211% e os ligados ao setor de energia renovável caíram 54%. É difícil traduzir se uma possível mudança regulatória terá impacto no retorno no mercado acionário, porque menos regulação significa mais produção.
E o efeito das urnas para a política monetária americana? Muda algo para a reunião do Fed nesta quinta-feira?
Em geral, o banco central americano não se antecipa a mudanças de política econômica e seus possíveis impactos. Nesta quinta, o Fed deve cortar mais 0,25 ponto e fazer outro corte de 0,25 ponto em dezembro. Ano que vem, deve fazer cortes mais graduais para ver o que acontece com o cenário de tarifas versus impostos nos EUA e ver se há argumentos para normalizarem mais rápido, para levar a taxa de juros para o patamar neutro de 3,5%, ou se vão ser mais graduais em linha com seu comportamento histórico. Isso deve estender a volatilidade na curva de juros americana.
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Gabriela Santos, da asset do JP: vemos mercado de ações favorável nos EUA — Foto: Claudio Belli/Valor
Além do cenário externo, há preocupação com o quadro fiscal no Brasil. Como os investidores estrangeiros estão se posicionando?
A renda fixa do Brasil e do México estavam muito populares entre os estrangeiros em 2022 e 2023 e vemos o investidor tendo mais cautela agora. Para renda fixa local, o cenário fiscal já vem sendo um dos principais fatores de preocupação e agora se adiciona o tema de tarifas nos EUA e diferencial de juros. Em mercados emergentes, vemos os investidores olhando mais para países que se beneficiam de temas seculares como inteligência artificial e demografia positiva como Taiwan, Índia, e China – esse último por conta dos possíveis estímulos fiscais.
Quais ativos são mais atrativos para o investidor local nesse cenário?
Em função da maior volatilidade e depreciação do real, o investidor brasileiro deve de ter exposição a moedas fortes como o dólar e não reagir demais à percepção do impacto da eleição americana nos investimentos internacionais. Em geral, o mercado americano vai bem, não importa a configuração do governo. Estamos como uma alocação internacional pró-risco, gostamos de ações e crédito corporativo, especialmente nos Estados Unidos, vendo um crescimento de lucro das empresas por conta do corte de impostos corporativos, menos regulação e inovação. Isso não quer dizer que não possa ter mais volatilidade na bolsa com aumento de juros americanos.
Fonte: Valor Econômico