Após encostar nas máximas, o Ibovespa perdeu fôlego e emendou a sequência de quedas mais longa em nove meses, reacendendo no mercado a discussão sobre se o rali ficou para trás ou só entrou em pausa. Nesta terça-feira, 28, o principal índice acionário do mercado brasileiro caiu pela quinta sessão consecutiva ao recuar 0,51%, aos 188.618 pontos.
A última sequência semelhante havia sido observada em julho do ano passado, quando o índice caiu entre os dias 6 e 14 daquele mês, um total de nove sessões seguidas. Na ocasião, o Ibovespa encerrou julho com recuo de 4,17%, sua maior perda desde dezembro de 2024, de queda de 4,28%, interrompendo um ciclo positivo que havia levado o índice à máxima histórica de 141 mil pontos em 4 de julho.
Naquele período, pesaram as ameaças do governo Trump de impor tarifas de 50% sobre as importações brasileiras, que provocaram uma inversão no fluxo estrangeiro. Agora, o movimento volta a ganhar intensidade.
Desde 15 de abril de 2026, o índice apresenta trajetória de queda, ainda que não contínua, já que houve uma leve alta de 0,20% no dia 20. Depois disso, porém, o Ibovespa engatou cinco sessões consecutivas de recuo, configurando a pior sequência desde então.
Por trás dessa virada está, principalmente, a mudança no fluxo estrangeiro. Entre 15 e 24 de abril, investidores internacionais retiraram R$ 8,83 bilhões da B3. Ainda assim, o saldo acumulado do mês segue positivo em R$ 8.588,55 milhões, sustentado por entradas expressivas na primeira quinzena, com destaque para o dia 9 de abril, que sozinho registrou aporte de R$ 8.398,42 milhões.
No total, abril soma R$ 16.987,22 milhões em entradas contra R$ 8.398,67 milhões em saídas. As maiores retiradas ocorreram nos dias 17 (-R$ 2.421,61 milhões) e 24 de abril (-R$ 1.546,18 milhões), parcialmente compensadas por dias de forte ingresso, como 8 e 10 de abril.
O rali do Ibovespa acabou?
A mudança de direção do capital estrangeiro ocorre em meio a um rearranjo global. A volta das empresas de tecnologia ao protagonismo tem redirecionado recursos para os Estados Unidos. Em abril, o Nasdaq já acumula alta de quase 15%, caminhando para o melhor desempenho mensal desde 2020, enquanto o S&P 500 renova máximas históricas.
Esse ambiente aumenta a atratividade relativa das grandes empresas de tecnologia e reduz o apetite por mercados emergentes como o Brasil.
Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, esse movimento tende a enfraquecer marginalmente o fluxo para o país, já que a reprecificação global implica realocação para mercados desenvolvidos.
Ainda assim, “isso não invalida o rali local, mas reduz sua intensidade e sustentabilidade”, diz Lima.
Fernando Fontoura, sócio-fundador da Persevera Asset, avalia que o movimento atual é mais uma realização tática do que uma mudança estrutural.
Segundo o gestor, investidores estrangeiros aproveitaram o bom desempenho recente do Brasil para realizar lucros e rotacionar parte dos recursos de volta aos Estados Unidos, em meio à melhora do desempenho das ações de tecnologia e à perspectiva de normalização de tensões globais.
Mas a visão de médio prazo segue positiva para mercados emergentes, apoiada em uma tendência estrutural de dólar mais fraco. Neste mês de abril, a moeda americana caiu para o menor valor desde maio de 2024, ao fechar abaixo de R$ 5. Nesse cenário, o fluxo estrangeiro para o Brasil deve ser retomado ao longo do ano, ainda que o mercado passe por ajustes de curto prazo.
“Seguimos otimistas com a bolsa. O movimento atual parece uma realização de curto prazo, que pode durar uma ou duas semanas. No entanto, ao longo do ano, a tendência é de continuidade do fluxo estrangeiro para o Brasil, ainda de forma relevante”, diz o gestor da Persevera.
Do ponto de vista técnico, o Ibovespa está em processo de realização de lucros, segundo análise do Itaú BBA. O índice encontra suportes em 188.100 e 184.300 pontos, níveis que ainda preservam a tendência de alta no curto prazo.
Em uma eventual retomada, a primeira resistência aparece em 192.300 pontos, antes do topo recente próximo de 199 mil pontos, patamar que, se superado, abriria espaço para a busca dos 200 mil pontos.
Fonte: Exame
