A escalada das tensões no Oriente Médio interrompeu a trajetória de recuperação dos fundos multimercados, que vinham apresentando melhora gradual de desempenho desde 2022. A guerra provocou perdas recentes e reacendeu dúvidas sobre a retomada da indústria.
Dados da Anbima mostram que, entre 2021 e 2025, os multimercados viveram um ciclo positivo e consistente, com destaque para 2022 (+13,66% no Índice de Hedge Fundes, principal referência da classe) e 2025 (+15,33%), intercalados por períodos ainda positivos, como 2021 (+2,04%) e 2024 (+5,76%), com 2023 (+9,31%) aparecendo como um meio-termo.
Já em 2026, o cenário começou a mudar com a deterioração do ambiente externo, e vive uma leve queda (-0,69%). Embora ainda pequeno frente ao histórico recente, o movimento chama a atenção do mercado, conforme especialistas ouvidos pela Capital Aberto.
“Com a guerra teve uma correção global, um sell-off, o mercado entrou em um modo mais avesso a risco”, afirma Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren. Segundo ele, o movimento atingiu simultaneamente diferentes classes de ativos.
Sobre os multimercados em específico, Nobre pondera que “a indústria sofreu muito e apagou os ganhos dos meses anteriores”, acrescentando que o episódio ocorreu em um ambiente já desafiador, de juros elevados e maior competição com produtos passivos.
“A maioria dos trades foi desmontada, o mercado entrou em modo vendedor, com investidores buscando reduzir risco e preservar capital”, acrescentou.
O choque não se limitou ao aumento da volatilidade, mas envolveu também mudanças temporárias nas relações entre ativos. Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, houve “predominância de quebra de correlações”, com juros, moedas e commodities respondendo “de forma menos previsível no curtíssimo prazo”.
Leandro Turaça, sócio fundador da Ouro Preto Investimentos, o movimento apresenta “característica de choque de volatilidade com distorção temporária de correlações, e não de mudança estrutural de cenário”. Para o gestor, trata-se de uma reprecificação tática de risco, concentrada em petróleo, câmbio e ativos de risco.
Esse tipo de ambiente também expôs limitações de mecanismos tradicionais de proteção. Turaça afirma que “correlações que historicamente ajudavam a neutralizar riscos entre ações e títulos de renda fixa foram rompidas”, enquanto Araújo observa que alguns hedges podem “demorar mais para refletir o movimento ou apresentar respostas menos lineares no curto prazo”.
As estratégias mais afetadas foram aquelas com maior exposição direcional. Bolsas e curvas de juros globais, sentiram mais os movimentos abruptos.
“Por outro lado, estratégias de valor relativo e arbitragem ganharam espaço, justamente por explorarem ineficiências que surgem em períodos de maior volatilidade”, diz Araújo.
Turaça, por sua vez, acrescenta que fundos multimercados com posições em ações e mercados emergentes sofreram mais, enquanto estratégias mais balanceadas ou com foco em juros e moedas mostraram maior resiliência.
Momento dos fundos multimercados é visto como episódio pontual
Apesar do impacto recente, gestores veem o episódio como pontual dentro de um processo mais amplo de recuperação. A leitura é que o choque gera ruído, mas não altera estruturalmente a tese, salvo em caso de escalada prolongada.
Ainda assim, o cenário se tornou mais desafiador. “As incertezas quanto à oferta de energia, inflação global e trajetória de juros se intensificaram”, afirma Turaça, destacando que isso eleva o prêmio de risco e dificulta a montagem de posições direcionais.
Segundo ele, no início do ano havia maior previsibilidade macro, o que favorecia esse tipo de estratégia. “Agora, com o fator geopolítico, há ajustes bruscos de expectativa e maior aversão ao risco”, afirma.
Para os gestores, o episódio reforça tanto os riscos quanto o papel da classe em carteiras diversificadas. “Embora gere ruído no curto prazo, [o cenário] evidencia o valor de estratégias flexíveis, capazes de se adaptar a diferentes cenários”, conclui Araújo.
Fonte: Capital Aberto
