A alta da Bolsa brasileira no início de 2026 rapidamente entrou no radar de projeções mais otimistas. O movimento ganhou força ainda em fevereiro, quando o índice renovou sucessivos recordes e chegou a 191.490 pontos, refletindo a entrada de capital estrangeiro num apetite global por mercados emergentes.
Nas semanas seguintes, porém, o cenário mudou. A escalada das tensões no Oriente Médio, com o início da guerra no Irã no fim de fevereiro, trouxe volatilidade de volta ao mercado e interrompeu o ritmo da alta. A trajetória, até então linear, passou a refletir um ambiente mais complexo, marcado por maior sensibilidade ao cenário externo. No primeiro mês da guerra do Irã, a queda foi de 3,8%. Em 27 de fevereiro, o Ibovespa fechou aos 188.786 pontos; um mês depois, em 27 de março, recuou para 181.556 pontos.
A mudança de ritmo não altera, necessariamente, a leitura do mercado. Até 26 de março, o Ibovespa acumulava valorização de 13,41%. Na visão de especialistas, o que antes era um movimento amplamente apoiado em fluxo e narrativa global passou a depender de fatores adicionais, como inflação, juros e risco geopolítico. A questão, portanto, não é mais se há espaço para valorização, mas sob quais condições esse movimento pode se sustentar. O mercado passou a operar em um equilíbrio mais delicado, no qual forças positivas e negativas coexistem.
Incômodo nos EUA
A principal explicação para a alta do Ibovespa neste ano está fora do Brasil. Segundo Daniel Teles, da Valor Investimentos, o movimento reflete uma realocação global de capital, com investidores reduzindo posições no mercado americano e voltando a olhar para emergentes. “Você está vendo um desmanche de posição no mercado norte-americano, e esses grandes gestores passaram a olhar países emergentes que estavam em segundo plano há alguns anos”, afirma. Esse reposicionamento ocorreu em meio a um incômodo crescente com a relação entre risco e retorno nos Estados Unidos.
Na avaliação do gestor, mesmo mudanças marginais nessa alocação já foram suficientes para gerar impacto relevante no Brasil. “Foi observado um desmanche de algo em torno de 1% do mercado acionário americano, e isso já foi suficiente para todo esse impacto na nossa Bolsa”, diz. O dado é relevante porque mostra a assimetria entre os mercados: pequenas reduções de exposição nos Estados Unidos se traduzem em volumes expressivos quando direcionadas a países emergentes. Esse mecanismo ajuda a entender a intensidade do rali observado no início do ano.
O potencial de valorização segue condicionado ao comportamento desse fluxo. Segundo Teles, caso haja continuidade nesse movimento, o impacto pode ser significativo. “Se mais 1% disso acontece, a gente poderia ter algo em torno de US$ 25 bilhões entrando na Bolsa brasileira”, afirma. Esse volume, na sua avaliação, seria suficiente para levar o Ibovespa a níveis mais elevados. “Isso faria a Bolsa passar facilmente dos 200, 215 mil pontos”, diz, ao explicar as projeções mais otimistas que circularam no início do ano.
A Bolsa brasileira passou a responder menos a fatores domésticos e mais à dinâmica global de capital. O fluxo estrangeiro se consolidou como principal vetor de sustentação do mercado, o que aumenta a sensibilidade a mudanças externas. Nesse ambiente, a continuidade da alta depende menos de novos gatilhos internos e mais da manutenção dessa rotação global. O Brasil se beneficia quando há diversificação de portfólio, mas também fica mais exposto à reversão desse movimento.
Guerra e inflação
Se o fluxo explica a alta, os fatores de risco ajudam a entender a desaceleração recente. Para Rodrigo Marcatti, CEO da Veedha Investimentos, a guerra introduz uma variável adicional ao cenário, especialmente por seu impacto sobre a inflação. “A guerra traz uma preocupação adicional, que é a inflação por conta do peso do petróleo”, afirma. Segundo ele, eventuais problemas de abastecimento e a pressão sobre preços de energia podem alterar as expectativas de política monetária. Nesta segunda-feira (30), agentes financeiros subiram pela terceira vez seguida as estimativas para a inflação medida pelo IPCA, para este ano. Os economistas passaram a projetar uma taxa de 4,31% na mediana das estimativas, ante 4,17% na semana anterior.
Esse fator se soma a um ambiente doméstico que tende a se tornar mais volátil ao longo dos próximos meses. A aproximação do calendário eleitoral adiciona ruído ao mercado e contribui para um cenário de maior incerteza. “Vai trazer mais volatilidade. A gente já imaginava que de abril para frente fosse assim”, diz Marcatti. O resultado é um mercado que passa a precificar simultaneamente variáveis globais e locais, com efeitos diretos sobre o comportamento dos ativos.
Apesar disso, a leitura de médio prazo permanece construtiva. Marcatti avalia que o ciclo de juros segue como um dos principais pilares para a Bolsa. “A gente ainda imagina uma Selic terminal abaixo ou em 12,50%”, afirma. Esse cenário tende a favorecer a migração de recursos para ativos de maior risco, especialmente à medida que a renda fixa perde atratividade relativa. “Não só o fluxo de capital estrangeiro continua entrando, como o investidor local vai começar a realocar mais parte dos vencimentos de renda fixa para a Bolsa”, diz.
Outro ponto importante é que, mesmo após a alta recente, a Bolsa brasileira ainda apresenta espaço para valorização na visão do gestor. “A gente continua acreditando que, comparativamente, é uma Bolsa mais barata, com mais oportunidade”, afirma. Ao mesmo tempo, ele ressalta que o movimento do índice foi concentrado em poucos papéis, o que limita a leitura de uma alta generalizada. “Essa alta do Ibovespa é muito concentrada em poucas empresas”, diz, ao apontar espaço para uma rotação interna do mercado.
Nesse contexto, a continuidade do rali pode depender não apenas da entrada de novos recursos, mas também da redistribuição dentro da própria Bolsa. “Vai ter uma rotação para outros ativos, para empresas menores, que ainda estão mais descontadas”, afirma Marcatti. Esse movimento, se confirmado, pode sustentar a trajetória de valorização mesmo em um ambiente mais volátil.
Fonte: Forbes Brasil