A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã já causa a crise energética mais grave de todos os tempos, alertou o chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, em entrevista ao Financial Times. Ele acrescentou que podem ser necessários seis meses ou mais para se restabelecer completamente o fluxo de petróleo e gás do Golfo Pérsico.
“O conflito é a maior ameaça à segurança energética global da história”, disse Birol na entrevista, publicada nesta sexta-feira (20).
Segundo Birol, políticos e mercados estão subestimando a dimensão da crise, já que aproximadamente um quinto do fornecimento global de petróleo e gás está, na prática, retido na região do conflito. O impacto tende a se agravar enquanto os fluxos de energia do Oriente Médio seguem travados pelo bloqueio imposto pelo Irã ao Estreito de Ormuz.
“As pessoas entendem que este é um grande desafio, mas não tenho certeza de que a profundidade e as consequências da situação sejam bem compreendidas”, afirmou chefe da agência, que também ajudou a moldar a resposta da Europa à crise do gás após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.
Birol destacou ainda que o volume de gás interrompido pelos conflitos atuais é o dobro do que a Europa perdeu da Rússia em 2022. “Mais petróleo foi perdido do que durante os dois choques da década de 1970, que desencadearam recessões e racionamento de combustível em todo o mundo”, acrescentou.
O alerta ocorre em um contexto de alta nos preços do petróleo, que chegaram a quase US$ 120 por barril, enquanto Israel e Irã trocaram ataques contra infraestrutura energética no Golfo nesta semana, incluindo o campo de gás South Pars e o complexo Ras Laffan, no Catar.
Mesmo que o conflito seja encerrado e o Estreito de Ormuz acabe reaberto, Birol afirmou que a retomada plena da produção levará tempo. “Levará seis meses para alguns [locais] voltarem a funcionar, outros muito mais”, disse.
Na semana passada, a AIE anunciou a liberação de 400 milhões de barris de petróleo e derivados de estoques globais para aliviar a escassez no mundo, o que, segundo Birol, representa apenas 20% de suas reservas. “Ainda temos 80% guardados”, disse, acrescentando que manteve conversas com países como Brasil, Canadá, México e Noruega sobre o aumento da produção de petróleo e gás.
Apesar disso, ele ressaltou que o aumento de oferta não compensará as perdas no Oriente Médio, já que a “ação mais importante é a retomada do trânsito pelo Estreito de Ormuz”.
Birol também projetou que a crise deve desencadear mudanças profundas nas políticas energéticas globais, em um movimento semelhante às respostas aos choques do petróleo de 1973 e 1979. Segundo ele, mais de 40% da energia nuclear atual foi construída após esses eventos, o consumo médio de combustível dos veículos caiu pela metade na década seguinte e países reformularam suas rotas comerciais.
Diante da nova crise, ele prevê um impulso às energias renováveis, expansão da energia nuclear e maior adoção de veículos elétricos, além de um possível aumento no uso de carvão em substituição ao gás.
Fonte: Valor Econômico