A guerra lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã se expandiu nesta segunda-feira, sem perspectiva de fim no curto prazo, com os israelenses atacando o Líbano em resposta a ofensivas do Hezbollah, enquanto Teerã seguia disparando mísseis e drones contra Israel, os países do Golfo Pérsico e uma base aérea britânica no distante Chipre.
Os militares americanos disseram que as defesas aéreas do Kuwait derrubaram por engano três caças americanos F-15E durante um ataque iraniano. Todos os seis tripulantes ejetaram e foram resgatados com segurança. Um vídeo mostrou uma das aeronaves girando em espiral antes de cair, com um dos motores em chamas.
A Guarda Revolucionária do Irã anunciou uma nova onda de ataques contra Israel nesta segunda-feira, após um final de semana de bombardeios que matou o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei.
A ação militar dos EUA e de Israel arrastou todo o Oriente Médio para a guerra, interrompeu o tráfego marítimo no Golfo Pérsico, o que provocou uma forte alta dos preços do petróleo e do gás natural na abertura dos mercados hoje, colocando em risco a recuperação da economia global.
Na maior aposta de política externa dos EUA em décadas, o presidente americano, Donald Trump, lançou a campanha ao lado de Israel contra um inimigo que atormentou Washington e seus aliados por gerações.
Trump reiterou os apelos para que os iranianos derrubem seu governo e afirmou que a campanha aérea pode durar até quatro semanas. Dentro do Irã, onde a população congestiona rodovias para fugir das cidades sob bombardeio, havia incerteza quanto ao futuro. As emoções variavam da apreensão à euforia.
Muitos iranianos celebraram abertamente a morte de Khamenei, de 86 anos, que governou o país por quase quatro décadas e comandava as forças de segurança responsáveis pela morte de milhares de manifestantes nos protestos antigoverno no início deste ano.
Mas os líderes do regime teocrático não deram sinais de que pretendem deixar o poder. Especialistas militares afirmam que o poder aéreo dos EUA e de Israel, sem forças terrestres, pode não ser suficiente para removê-los. Enquanto isso, dezenas de iranianos teriam sido mortos nos ataques, com vários deles tendo atingido alvos civis.
“Eles estão matando crianças, estão atacando hospitais. É esse o tipo de democracia que Trump quer nos trazer? Pessoas inocentes foram mortas primeiro pelo regime e agora por Israel e pelos EUA”, disse o professor Morteza Sedighi, de 52 anos, por telefone, de Tabriz.
Guerra se espalha
Uma nova frente importante do conflito foi aberta na segunda-feira, quando o Hezbollah, um dos principais aliados de Teerã no Oriente Médio, lançou mísseis e drones contra Israel em retaliação à morte de Khamenei.
Israel respondeu com amplos ataques aéreos, que, segundo afirmou, tiveram como alvo os subúrbios ao sul de Beirute controlados pelo Hezbollah e atingiram militantes de alto escalão. A agência estatal libanesa NNA informou que um balanço inicial indicava 31 mortos e 149 feridos.
Israel declarou o líder do Hezbollah, Naim Qassem, como “alvo para eliminação”. Autoridades disseram que, por ora, não consideram uma invasão terrestre do Líbano.
Aliados de Washington no Golfo voltaram a ser alvo de mísseis e drones iranianos. Fumaça preta subiu na área ao redor da embaixada dos EUA no Kuwait, onde havia forte presença de segurança, ambulâncias e caminhões de bombeiros. Houve explosões em Dubai e Samha, nos Emirados Árabes Unidos, e em Doha, capital do Catar.
A Arábia Saudita fechou sua maior refinaria após ataques de drones provocarem um incêndio, entre várias instalações de petróleo que se tornaram alvos. O Catar, um dos três maiores produtores globais de gás natural liquefeito, interrompeu a produção.
No primeiro ataque a atingir aliados dos EUA na Europa, um drone atingiu durante a madrugada a base aérea britânica de Akrotiri, em Chipre. Reino Unido e Chipre disseram que os danos foram limitados e não houve vítimas.
Aliados europeus se distanciaram da decisão inicial de Trump de ir à guerra, afirmando que ela não atendia ao critério legal de resposta a uma ameaça iminente. Posteriormente, porém, disseram que participariam para ajudar a conter a capacidade de retaliação do Irã após Teerã atacar seus aliados.
Um alto funcionário da Casa Branca disse à Reuters que Washington, em algum momento, conversará com Teerã, mas não agora.
“O presidente Trump disse que uma nova liderança potencial no Irã indicou que quer conversar e, eventualmente, ele conversará. Por enquanto, a Operação Fúria Épica continua sem interrupções”, afirmou.
Em publicação nas redes sociais nesta segunda-feira, Ali Larijani, influente assessor de Khamenei, disse que o Irã não negociará com Trump, que teria “ambições delirantes” e agora estaria preocupado com baixas americanas.
A morte dos três primeiros militares americanos na campanha foi confirmada no domingo. Dois funcionários dos EUA disseram à Reuters que eles foram mortos em uma base no Kuwait. Hoje, as Forças Armadas do país confirmaram uma quarta baixa.
Uma campanha militar prolongada pode representar risco político significativo para o Partido Republicano de Trump antes das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA. Apenas cerca de um em cada quatro americanos aprova a operação, segundo pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no domingo.
Em vídeo publicado no domingo, Trump prometeu que os ataques militares contra o Irã continuarão até que “todos os nossos objetivos sejam alcançados”, sem detalhar quais seriam.
Trump pediu às Forças Armadas e à polícia iranianas, incluindo a Guarda Revolucionária do Irã, que cessem os combates, prometendo imunidade aos que se renderem e “morte certa” aos que resistirem. Ele reiterou os apelos para que os iranianos se levantem.
Enquanto isso, a interrupção dos embarques de petróleo pelo Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo, ao longo da costa iraniana — representou um choque imediato para as economias globais. Os preços do petróleo dispararam em dois dígitos na abertura dos mercados na segunda-feira. As bolsas caíram e o dólar subiu.
A Guarda Revolucionária do Irã afirmou no domingo ter atingido três petroleiros dos EUA e do Reino Unido no Golfo e no Estreito de Ormuz, além de ter atacado bases militares no Kuwait e no Bahrein com drones e mísseis. Dados de navegação mostraram centenas de embarcações, incluindo navios-tanque de petróleo e gás, lançando âncora em águas próximas.
O tráfego aéreo global também foi fortemente afetado, já que ataques aéreos mantiveram fechados importantes aeroportos do Oriente Médio.
Fonte: Valor Econômico
