A guerra movida há um mês e meio por EUA e Israel contra o Irã está deteriorando ainda mais as difíceis relações entre Donald Trump e a China, na qual o presidente americano vê seu mais importante rival geopolítico. O aprofundamento da divisão entre as duas potências ficou mais claro nos últimos dias, com as acusações de Trump de que Pequim preparava o envio de sistemas de defesa aérea a Teerã.
Em sua edição de ontem, o jornal britânico Financial Times publicou reportagem indicando que o Irã usou um satélite espião construído na China, comprado secretamente de uma empresa privada chinesa em 2024, para mapear a localização e atacar bases americanas em países do Golfo.
A utilização de um satélite de fabricação chinesa pela Guarda Revolucionária durante uma guerra em que Teerã tem atacado repetidamente seus vizinhos com mísseis e drones é um tema de grande sensibilidade em toda a região. A China é o maior parceiro comercial dos países do Golfo Pérsico e o maior comprador do seu petróleo.
Em uma entrevista à TV Fox Business que foi ao ar ontem, Trump disse ter pedido em uma carta enviada ao presidente chinês, Xi Jinping, que não enviasse armas ao Irã. Na semana passada, ele tinha ameaçado aplicar uma tarifa comercial imediata de 50% a qualquer país que fornecesse armas ao Irã. “Escrevi uma carta para ele (Xi) pedindo que não fizesse isso, e ele me escreveu uma carta dizendo que, basicamente, não faria isso”, disse Trump, na entrevista.
“A China está muito feliz por eu estar abrindo permanentemente o Estreito de Ormuz”, postou Trump ontem, em sua rede Truth Social – insistindo em sua retórica de que já venceu militarmente o Irã e ironizando o fato de nenhum outro país ter acompanhado os EUA no esforço de desbloquear a via marítima. “Estou fazendo isso por eles também – e pelo mundo.”
As diferenças entre os dois países no âmbito da guerra no Irã se intensificaram significativamente com o bloqueio dos EUA à navegação na entrada do Estreito de Ormuz. Dados da China mostram que os países do Golfo foram responsáveis por 42% das importações chinesas de petróleo em 2025, enquanto cerca de 12% das importações chinesas de petróleo vieram do Irã, segundo a empresa de análise Kpler. Além disso, a China obtém um terço de seu gás natural liquefeito (GNL) do Oriente Médio, com o Catar fornecendo até 28%.
Na terça-feira, qualificando o bloqueio dos EUA em Ormuz como “perigoso e irresponsável”, o governo da China prometeu retaliar caso os EUA aumentem tarifas sobre exportações chinesas – ante a acusação a Pequim de vender armas ao Irã. E, em reuniões com líderes de Espanha e Emirados Árabes Unidos, Xi afirmou que o mundo está em “desordem” e os países não podem permitir um “retorno à lei da selva” na ordem internacional.
“A ordem internacional está se desintegrando no caos”, disse o líder. Foram as primeiras declarações públicas diretas de Xi sobre a guerra no Irã. O presidente chinês disse que o Estado de Direito não pode ser “usado quando for conveniente e descartado quando não for”.
Xi e Trump devem se reunir em Pequim em 14 e 15 de maio – um encontro que estava marcado inicialmente para março e adiado em razão da guerra – para tratar de questões tarifárias que azedam as relações entre Washington e Pequim desde a posse do republicano, em janeiro do ano passado.
Ontem, Xi recebeu no Grande Salão do Povo, em Pequim, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov – em mais um sinal de aproximação estratégica com outro adversário geopolítico de Washington. Xi afirmou que a “estabilidade” e a “firmeza” das relações entre China e Rússia eram “particularmente valiosas”, e pediu ao enviado russo que transmitisse “sinceros cumprimentos ao presidente Vladimir Putin”.
Por seu lado, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, previu que a compra de petróleo iraniano pela China seria “interrompida” em razão do bloqueio dos EUA a navios que atracam em portos iranianos. Ele afirmou que os EUA poderiam impor sanções secundárias a países que compram petróleo do Irã. O Tesouro dos EUA alertou dois bancos chineses para que não processassem ativos iranianos, sob pena de sofrerem sanções, disse ele, sem nomear os bancos.
A China geralmente considera que as sanções dos EUA contra o Irã são unilaterais e, por isso, não é obrigada a submeter-se a elas. Na prática, ela contorna a proibição comprando petróleo do Irã por meios indiretos, usando navios e empresas intermediárias, um sistema conhecido como “frota fantasma”.
Fonte: Valor Econômico
