Seis meses após o início da guerra dos EUA e Israel contra o Irã, o presidente Donald Trump parece entrar em uma encruzilhada diante da falta de perspectiva para o fim do conflito. Com os dois lados cada vez mais indispostos a ceder em suas posições, especialistas avaliam que o possível fracasso das medidas de pressão econômica mais recentes de Washington sobre Teerã ameaça prolongar a guerra por tempo indeterminado, criando novos desafios e impactos duradouros para a influência dos EUA no Oriente Médio.
Na sequência dos primeiros ataques ao Irã, em 28 de fevereiro, Teerã retaliou contra bases militares, instalações de energia, aeroportos e outras infraestruturas em toda a região, fazendo com que os países do Golfo reavaliassem a dependência dos EUA como principal garantidor da segurança no Oriente Médio. Em um indicativo dessa preocupação, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram recentemente um pacto de defesa mútua, sinalizando que a defesa contra o Irã deverá ser administrada de forma cada vez mais regional.
“O que os países árabes do Golfo descobriram foi que os EUA não conseguiram protegê-los completamente de ataques”, Elliott Abrams, ex-representante especial para o Irã e a Venezuela durante o primeiro governo Trump. “Os EUA poderiam, por exemplo, fornecer sistemas Patriot e reduzir os danos causados pelo Irã, mas não conseguiram impedir que o Irã os atacasse. Então, é claro que eles repensam a situação.”
Embora especialistas alertem que os EUA continuam sendo um parceiro de defesa indispensável para o Golfo, o conflito se arrasta para uma crise que está remodelando o Oriente Médio de maneiras que terão repercussões duradouras para Washington. Uma das questões levantadas por esse cenário, por exemplo, é a distribuição das bases americanas na região, à medida que os países começam a questionar o valor dessas instalações em seus territórios diante dos ataques.
Os EUA possuem bases por todo o Golfo Pérsico. A maior base americana no Oriente Médio é a Base Aérea de Al Udeid, no Catar, onde aproximadamente 10 mil soldados americanos estavam antes da guerra atual. Todas estão ao alcance de ataques do Irã. Nesse cenário, um novo padrão de posicionamento das bases militares americanas certamente está sendo debatido, inclusive dentro do Pentágono, segundo Abrams.
“Mas acho que não haverá nada instantâneo, imediato ou dramático que vá mudar. O que eu acho é que, se olharmos para trás daqui a alguns anos, digamos, em 2030, haverá mudanças”, diz Abrams, hoje pesquisador sênior em estudos do Oriente Médio no Council on Foreign Relations (CFR), em Washington. “O que pode acontecer sob Trump já aconteceu, que é o seguinte: se você voar hoje para Israel e pousar no aeroporto Ben Gurion, não verá British Airways, Air France, United, Delta. Sabe o que verá? Aviões militares americanos. Eles simplesmente transferiram muitos dos aviões para a Jordânia e Israel. Agora, com a base naval, é mais complicado.”
Ainda assim, no curto prazo, as tensões na região tendem a se agravar nos próximos meses. Após um Memorando de Entendimento (MOU, na sigla em inglês) que interrompeu os combates por um curto período em junho, mas fracassou em estabelecer um acordo de paz mais amplo no prazo de 60 dias, Washington anunciou nesta semana uma campanha para ampliar as sanções secundárias contra o Irã, em uma tentativa de isolar ainda mais a República Islâmica e intensificar a pressão sobre sua debilitada economia.
No entanto, especialistas alertam que isso deve gerar uma retaliação com a retomada dos ataques a outros países da região, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait e Bahrein.
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“Os iranianos não vão simplesmente ficar parados sem fazer nada em resposta”, diz Aaron David Miller, ex-negociador dos EUA para o Oriente Médio que atuou em governos republicanos e democratas. “Os altos funcionários militares e de segurança do governo iraniano agora são diferentes de Ali Khamenei, o ex-líder supremo morto no início dos combates. Acho que eles estão mais interessados em agir diretamente”
Washington voltou a apostar na pressão econômica para tentar obter concessões de Teerã, à medida que a campanha militar não foi suficiente para atingir seus objetivos políticos. Mas a experiência do primeiro mandato de Trump também sugere os limites dessa estratégia Em 2018, Trump retirou os EUA do acordo nuclear com o Irã e impôs centenas de sanções ao país, mas a campanha de “pressão máxima” não conseguiu forçar concessões e, ao contrário, contribuiu para uma postura mais intransigente de Teerã e para o aumento da atividade nuclear.
Para Mark Cancian, ex-funcionário do Pentágono e consultor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), ao ameaçar com sanções secundárias países que mantêm relações econômicas com o Irã, Washington também corre o risco de atingir parceiros importantes, especialmente a China assim como alguns aliados árabes, como os Emirados Árabes Unidos.
“Os EUA têm muitas atividades e relações econômicas com a China, e Pequim vai retaliar. O mesmo vale para muitos dos outros países envolvidos”. Cancian. “É improvável que isso seja bem-sucedido. Vai ser difícil obter muita influência ou poder de pressão, porque os países que estaríamos sancionando ou são poderosos demais ou são aliados.”
Diante de uma economia iraniana já altamente enfraquecida, especialistas ponderam que a medida eventualmente poderia gerar efeitos, mas não na rapidez esperada pelo governo Trump. O republicano espera soluções para encerrar rapidamente o conflito para que o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz seja retomado e os preços internacionais da commodity recuem. A via navegável, no entanto, se tornou um dos principais desafios das negociações.
Por Ormuz passava, antes da guerra, cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo e gás natural liquefeito. Seis meses depois do início do conflito, o tráfego de navios mercantes caiu para uma média de 15 embarcações por dia, após a retomada das hostilidades em 8 de julho e o fracasso do MOU em 22 de agosto, ante uma média diária de 95 em fevereiro. Agora, o Irã negocia com Omã um acordo para administrar a navegação pelo estreito, o que poderia abrir espaço para que Teerã ampliasse gradualmente sua influência sobre a passagem e transformasse essa posição em uma fonte de receita
Um eventual acordo com Omã, combinado com concessões dos EUA próximas às previstas inicialmente no MOU — como o fim das sanções e a retomada das exportações de petróleo iranianas — poderia, na avaliação de Abrams, alterar o equilíbrio de poder no Oriente Médio. A combinação dessas receitas com a possibilidade de monetizar o Estreito de Ormuz daria ao regime recursos para recuperar sua influência e fortalecer sua posição na região.
“Nessa situação, você teria um Irã que sobreviveu e que está obtendo uma enorme quantidade de dinheiro todos os dias com as exportações de petróleo e com o Estreito de Ormuz”, diz Abrams. “Esse seria um regime que consolidou sua posição e está muito, muito mais forte, e que exercerá influência sobre toda a região.”
Some-se a esses desafios as consequências econômicas de um conflito prolongado, que já vem impactando a economia global há meses. O fornecimento global de energia foi reduzido, os preços do petróleo dispararam e a incerteza se espalhou pelos mercados financeiros internacionais. Nos Estados Unidos, o impacto também chegou aos consumidores, com o preço da gasolina subindo quase 30% no último ano.
“O grande desafio é que os dois lados estão envolvidos no que eu chamo de uma guerra de desgaste econômico”, diz Cancian. “A economia global sofreu, a economia do Irã sofreu muito e os EUA não conseguiram colocar um fim nisso de maneira satisfatória.”
Enquanto Washington se concentra em punir Teerã economicamente, as negociações estão pausadas sem perspectiva para que sejam retomadas. “Não queremos falar com eles. Não estamos interessados em nos encontrar nem nada do tipo”, disse Trump ontem.
Nesse cenário, a guerra que Trump anunciou inicialmente que duraria entre duas e três semanas pode, assim, atravessar as eleições de meio de mandato americanas, em novembro, e se prolongar até o próximo ano.
“Não há nenhum custo que eles não estejam dispostos a suportar. Eu não acredito que seja possível encontrar um equilíbrio de interesses entre os EUA e o Irã em relação à administração e à gestão do Estado iraniano”, diz Miller.”Acho que os iranianos querem muito mais do que os americanos estão dispostos a oferecer.”
Fonte: Valor Econômico


