O boom de investimentos em inteligência artificial e o aumento da volatilidade inflacionária deixaram as carteiras balanceadas globais mais concentradas e mais vulneráveis a choques, avalia o Goldman Sachs em relatório de estratégia divulgado neste mês. Para o banco, os investidores precisam manter exposição à inovação, ao mesmo tempo em que se protegem contra a inflação e reforçam a mitigação de risco — um equilíbrio que exige olhar além das ações ligadas à tecnologia.
Segundo os estrategistas, o chamado “World Portfolio”, um benchmark que acompanha cerca de US$ 300 trilhões em ativos financeiros globais, derivou de forma expressiva nos últimos anos rumo a ativos americanos, ações e ao setor de Tech, impulsionado pelo forte desempenho das bolsas desde a crise financeira global e, mais recentemente, pelo entusiasmo com a IA. O peso do setor de tecnologia dentro das ações americanas já supera os níveis observados durante a bolha das pontocom, em torno de 47%, contra aproximadamente 18% em uma carteira “regime-neutral”.
Essa concentração eleva os riscos. O relatório destaca que o atual ciclo de capex [capital expenditure, despesas de capital] em IA aumenta a chance de que a queda na rentabilidade das mega caps de tecnologia pressione os retornos das ações antes que os ganhos de produtividade da adoção da tecnologia apareçam. Os hyperscalers já caminham para destinar a totalidade de seu fluxo de caixa operacional ao capex, e o consenso projeta queda média de 7 pontos percentuais no retorno sobre o patrimônio (ROE) dessas empresas a partir do próximo ano.
Com base em seu modelo de projeção de retornos de longo prazo, o Goldman conclui que, em todos os cenários exceto um otimista de “Goldilocks + AI boom”, os retornos esperados para ações ficam abaixo da média histórica — o que aponta para alocações menores em renda variável. Ainda assim, o banco reconhece que, no curto prazo, ficar subinvestido pode custar caro, já que as ações costumam performar bem até o pico do bull market, e liderar contra o momentum do setor de Tech tem se mostrado difícil e oneroso.
Diante desse dilema entre “time in the market” e “timing the market”, o Goldman recomenda cinco estratégias para permanecer investido com mais equilíbrio: (1) ampliar de forma seletiva a exposição a ativos reais, como ouro, commodities e ações de infraestrutura, imóveis e energia; (2) diversificar estilos dentro da renda variável, com maior peso em baixa volatilidade, dividendos e valor; (3) reforçar a diversificação regional e gerir a dominância do dólar, com espaço para JGBs, bônus de mercados emergentes e ações fora dos EUA; (4) usar estruturas de opções, como calls de longo prazo, put spread collars e conversíveis; e (5) alocar seletivamente em alternativos descorrelacionados, incluindo private markets, commodity carry e trend following (CTAs).
Fonte: Goldman Sachs Global Investment Research — Global Strategy Paper No. 77: Balancing Innovation and Inflation in Portfolios (Christian Mueller-Glissmann, Andrea Ferrario, Alessandro Giglio et al.)

