A intensificação de conflitos no Oriente Médio e a disputa estratégica entre Estados Unidos e China foram os principais temas de um painel sobre cenário global no evento Advance 2026, promovido pela Fami Capital. Gestores presentes no encontro avaliaram que a escalada geopolítica recente, que teve seu último desdobramento na invasão ao Irã, pode representar, na prática, um movimento dos Estados Unidos para reafirmar sua posição dominante no sistema internacional.
Durante o painel, que reuniu Bruno Funchal, CEO do Bradesco Asset; Walter Maciel, CEO da AZ Quest; Alexandre Cruz, CEO da JiveMauá; e Guilherme Abbud, CEO da Persevera, o consenso foi de que a rivalidade entre os dois países vai além de disputas comerciais e deve ser entendida como parte de um arranjo geopolítico mais amplo.
Para Maciel, da AZ Quest, os conflitos recentes não podem ser analisados isoladamente. “A guerra que está acontecendo agora não é uma guerra contra o Irã especificamente, você tem uma disputa geopolítica”, afirmou. Ainda segundo ele, o conflito reflete um processo recorrente de transição de poder entre potências globais.
O gestor citou paralelos históricos para sustentar a tese de disputa por hegemonia, lembrando episódios como a ascensão do Império Britânico sobre a Holanda e, posteriormente, a consolidação dos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Na avaliação dele, a diferença agora é que a China enfrentaria obstáculos estruturais para assumir esse papel, como as questões demográficas e financeiras.
“O grande primeiro problema da China é o problema demográfico”, disse. Segundo ele, a redução da população em idade para trabalhar e o envelhecimento acelerado pressionam o crescimento do país.
Além disso, o executivo apontou o nível de endividamento como outro fator de fragilidade. “Todo mundo preocupado com os Estados Unidos devendo 120% do PIB, mas a China deve 350% do PIB”, afirmou. Para Maciel, a combinação de desaceleração econômica e elevado endividamento tornaria difícil a transição de liderança global.
O gestor avalia, ainda, que os EUA têm adotado uma estratégia mais direta para conter a influência chinesa em diferentes frentes geopolíticas. Na sua leitura, movimentos envolvendo países como Venezuela e Irã fazem parte desse processo, como forma de reduzir a influência chinesa sobre o petróleo venezuelano e mudanças recentes no equilíbrio regional no Oriente Médio.
Maciel também defendeu que, apesar da volatilidade provocada pelos conflitos atuais, o desfecho desse processo poderia levar a um ambiente internacional mais previsível, acrescentando que a superioridade militar e tecnológica americana continua significativa.
Os outros integrantes do painel reforçaram a ideia de que as tensões atuais são parte de uma sequência iniciada com a guerra comercial entre Estados Unidos e China nos últimos anos. Para Alexandre Cruz, a escalada recente deve ser entendida como uma continuidade desse processo. “A guerra comercial foi o primeiro capítulo da geopolítica”, disse.
Apesar de incertezas no curto prazo, especialmente em relação ao preço do petróleo e aos seus efeitos sobre a inflação global, a avaliação dos CEOs foi de que o impacto econômico pode ser limitado. Segundo Bruno Funchal, choques no preço da energia podem alterar projeções macroeconômicas, mas não necessariamente mudar de forma estrutural o cenário. “Tudo mundo está muito preocupado se tudo isso afeta a inflação”, afirmou.
No caso do Brasil, os efeitos tenderiam a aparecer principalmente via inflação e política monetária. Segundo estimativas mencionadas no painel, um petróleo mais caro poderia elevar as projeções de inflação e reduzir o espaço para cortes mais intensos de juros pelo Banco Central. “Pelo menos nas nossas estimativas, a gente estava com uma inflação de 3,9 e vai para 4,5”, disse Cruz ao comentar cenários de preço do petróleo.
Ainda assim, os executivos consideraram que o país pode se beneficiar em alguns cenários por ser exportador líquido de commodities. “Na verdade, por um lado é até positivo, porque a gente é exportador líquido”, afirmou Abbud ao comentar os possíveis efeitos do choque de energia para a economia brasileira.
Fonte: Capital Aberto
