Por Gregory Zuckerman, Dow Jones — Washington
11/06/2023 19h26 Atualizado há 41 minutos
George Soros, o lendário investidor, filantropo e alvo preferencial da extrema-direita americana, vai passar o controle de seu império de US$ 25 bilhões para o filho mais novo, Alexander Soros, um autodenominado pensador de centro-esquerda que cresceu consciente da riqueza da família e não foi inicialmente pensado como sucessor em potencial.
Alex, de 37 anos, disse ao “Wall Street Journal”, na primeira entrevista desde sua escolha, que está ampliando os objetivos liberais do pai — “Pensamos da mesma forma”, disse o patriarca — ao abraçar algumas causas diferentes. Entre elas estão o direito de voto e de aborto, bem como a equidade de gênero. Ele planeja continuar usando os fundos da família para apoiar políticos de esquerda dos EUA.
“Sou mais político”, disse Alex, comparando-se ao pai. Ele se reuniu recentemente com funcionários do governo Biden, com o líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, e chefes de Estado, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, para defender questões relacionadas à fundação da família.
A rede de organizações sem fins lucrativos Open Society Foundations (OSF), de Soros, destina cerca de US$ 1,5 bilhão por ano a grupos como os que apoiam direitos humanos em todo o mundo e ajudam a construir democracias. O dinheiro da fundação também vai para universidades e outras organizações educacionais.
O super PAC (como são conhecidos em inglês grupos de apoio político que atuam de forma independente dos candidatos) de Soros, o PAC da Democracia, apoiou as campanhas eleitorais de promotores distritais e policiais que buscam reduzir as taxas de encarceramento e o preconceito racial no sistema de justiça americano, entre outros esforços que irritaram a direita.
Alex disse estar preocupado com a perspectiva de retorno de Donald Trump à Casa Branca, sugerindo um papel financeiro significativo para a organização Soros na corrida presidencial de 2024. “Por mais que eu goste de deixar o dinheiro fora da política, enquanto o outro lado estiver fazendo isso, teremos que fazer também”, disse em entrevista no escritório da gestora em Nova York.
Diferentemente de algumas pessoas da esquerda, Alex acredita que falar em campi universitários e em outros lugares ficou restrito demais. “Tenho algumas diferenças com a minha geração a respeito da liberdade de expressão e outras coisas — afinal, fui criado assistindo a Bill Maher antes de dormir”, disse ele, referindo-se à personalidade da TV defensora da Primeira Emenda da Constituição americana (a que garante liberdade de religião, manifestação de ideias, reunião ou petição).
Alguns duvidaram que George, 92, cederia seu lugar enquanto ainda estivesse vivo. Além disso, ele disse em uma entrevista: “Não queria que a fundação fosse assumida por um de meus filhos, por questão de princípio. Achava que ela deveria ser administrada por alguém mais adequado para isso”.
Há anos, pessoas próximas a George acreditavam que o meio-irmão mais velho de Alex, Jonathan Soros, de 52 anos, um advogado com formação em finanças, era o sucessor inquestionável. Alto e atlético, Jonathan jogava tênis com o pai, trabalhou por um período na fundação e estabilizou o fundo hedge de Soros durante tempos turbulentos. Mas ocorreu uma desavença e uma mudança de opinião.
Alex, que usa óculos de armação grande e uma barba primorosamente aparada, acabou conquistando a confiança do pai, ao representá-lo em viagens aos escritórios da organização no mundo inteiro. “Ele mereceu”, disse George.
Em dezembro, o conselho de administração da OSF elegeu Alex como seu presidente, em substituição ao pai. Alex também dirige atualmente a atividade política como presidente do super PAC de Soros. O Soros mais jovem é o único membro da família que participa da comissão de investimentos que supervisiona o Soros Fund Management, a empresa que supervisiona o dinheiro para a fundação e a família. A maior parte de seus US$ 25 bilhões será encaminhada à OSF nos próximos anos, segundo um porta-voz de Soros. Cerca de US$ 125 milhões foram reservados para o super PAC.
O trabalho de Alex na organização familiar se mostrou até agora um estilo de gestão que difere do de seu pai, disseram colegas. Alex dá importância a detalhes que George normalmente ignoraria, ao levar um pequeno notebook a reuniões que ele enche com anotações para compartilhar com os membros da equipe. “Ele consegue deixar louco o pessoal da fundação, por ser tão interativo”, disse Anthony Romero, diretor-executivo da American Civil Librties Union, que recebe financiamento da OSF.
A escolha de Alex, um aficionado do hip-hop e torcedor da equipe de futebol americano New York Jets, era no passado uma possibilidade bastante remota. Desde cedo, Alex mal falava em reuniões e era mais conhecido por sua vida social muito bem-sucedida. “Modelos exuberantes, amigos da NBA [a Associação Nacional de Basquete Americana] e esconde-esconde em sua mansão: Bem-vindo à vida pródiga do filho ‘playboy’ do investidor George Soros”, dizia uma manchete do jornal on-line DailyMail em 2016.
George Soros erigiu sua fortuna nas décadas de 1970 e de 1980, como um pioneiro gestor de fundos hedge que apostava em ações, bônus e mercados de câmbio mundiais com base em suas previsões de mudanças econômicas e políticas. Ele fazia investimentos após examinar uma rede de informações, inclusive as de uma teia de contatos políticos e empresariais. Uma única aposta de que a libra esterlina britânica cairia em 1992 rendeu ao seu fundo mais de US$ 1 bilhão em ganhos.
O que distinguia George era sua capacidade de mudar de direção nos investimentos e de “abandoná-los com a cabeça aberta quando aquela convicção se desvanecia”, disse Stanley Druckenmiller, ex-diretor de investimentos da empresa de fundos hedge de Soros. George tratava seus funcionários como [tratava] ações, disse Druckenmiller em recente entrevista em podcast. “Fui seu nono sucessor.”
Depois da queda do Muro de Berlim, em1989, a filantropia de George se concentrou em apoiar democracias no antigo bloco soviético e em outros países. Em 2024, provocou uma reação adversa nos EUA, ao dizer que evitar a reeleição do presidente George W. Bush era o “foco central” de sua vida. Apoiou a campanha presidencial de Barack Obama em 2008 e despertou novas críticas por apoiar programas de troca de agulhas (serviço social que permite a pessoas que usam drogas injetáveis obter agulhas hipodérmicas a baixo custo para diminuir risco de contração de Aids e hepatite) e a legalização da maconha para uso medicinal.
George, que nasceu na Hungria, tirou sua fundação do país em 2018, após ela ter sido visada pelo premiê Viktor Orban.
As invectivas, desde então, cresceram. No mês passado, Elon Musk tuitou que George Soros “me faz lembrar Magneto”, personagem de gibi da Marvel que, a exemplo de George, é um sobrevivente do Holocausto. Em reação às críticas à comparação, Musk acrescentou que George “quer corroer o próprio tecido da civilização”, o que lhe rendeu uma repreensão da Liga Anti-Difamação, organização não governamental internacional judaica com sede nos EUA.
“Eu sou o preferido quando eles querem culpar alguém”, disse George.
Jonathan é o terceiro filho do primeiro casamento de George, com Annaliese Soros, e tem um irmão e uma irmã. Seus pais se separaram quando Jonathan tinha 7 anos, e seu pai se mudou para um apartamento muito próximo da residência da família, do outro lado da rua do Central Park, em Nova York.
Foi criado em meio à riqueza, mas George ainda não tinha se tornado uma personalidade financeira de projeção internacional. Após se formar na Wesleyan University, em 1992, Jonathan passou dois anos trabalhando em um novo escritório da fundação de Soros em Budapeste. Ingressou na empresa de investimentos de Soros em 2002, depois de receber formação superior em direito e política pública em Harvard. Estabilizou a empresa como presidente após vários diretores de investimentos — irritados com críticas a posteriori de George — terem saído ou sido substituídos. Jonathan conquistou o respeito de colegas e era visto como o herdeiro aparente de seu pai.
“Eu previa que Jonathan seria o cara”, disse Aryeh Neier, presidente da OSF de 1993 a 2012.
Jonathan também supunha que seria arregimentado para comandar as organizações de Soros, embora compreendesse a predileção de seu pai por mudar de rumo. “Sempre soube que ele poderia mudar de ideia”, disse ele. “Como investidor, esse é o traço pelo qual ele é mais conhecido.”
As diferenças entre eles subverteram o plano de sucessão. George era impulsivo. Jonathan, analítico e contemplativo. Jonathan respeitava George mas opunha resistência quando discordava com as decisões do pai, segundo pessoas que trabalhavam com eles. Quando tiveram uma discussão irreconciliável sobre duas opções de contratação destacadas, George sentiu sua autoridade contestada. Jonathan sentiu sua liderança questionada.
Na tentativa de manter a paz na família, Jonathan deixou a empresa de investimentos de Soros em 2011, disse. Seu pai se desencantou com a ideia de escolhê-lo para comandar a fundação. “Nós não conseguíamos nos entender e avançar em determinados pontos”, disse George. “Isso ficou evidente para nós dois, especialmente para ele, e ele quis sair por conta própria.”
Jonathan mora em Manhattan com a esposa e três filhos e, desde 2012, trabalha em projetos de interesse público. É cofundador da Athletes Unlimited, que opera ligas profissionais femininas de softbol, basquete, lacrosse e vôlei.
“Encerramos nossas relações comerciais em condições muito boas”, disse Jonathan. ”Fiquei decepcionado, mas não pesaroso.”
Ele e Alex são cordiais, mas não próximos, segundo pessoas mais achegadas a ambos.
Alex, o mais velho dos dois filhos homens oriundos do casamento de George com sua segunda mulher, Susan Weber, queria muito estar mais próximo de seu pai, ao ser criado no elegante vilarejo de Katonah, Nova York. “Ele estava lá, mas não de corpo inteiro. Ficava pensando em mercados o tempo todo”, disse ele.
Quando menino, Alex era introvertido, tinha sobrepeso e se sentia constrangido com a riqueza de sua família, dizem amigos de infância. Um colega de classe lhe disse: “Seu pai é famoso, você se deveria preocupar seriamente sobre ser sequestrado”, um alerta que deixou Alex com medo, disse ele.
Na adolescência, Alex às vezes teve guarda-costas em viagens no exterior, e seu sobrenome atraía atenção indesejável. Ele abraçou os esportes e a música para se encaixar. “Eu queria ser mais normal, de certa forma”, recorda.
Alex ficou mais próximo de seu pai após sua mãe ter entrado formalmente com um pedido de divórcio, em 2004. Ele era um calouro de 18 anos da Universidade de Nova York na época. “De certo modo, ele levou a paternidade mais a sério após o divórcio”, disse Alex, que se doutorou em história pela Universidade da Califórnia, campus de Berkeley.
Ele não se interessava por finanças e não conseguiu convencer seu pai a assistir futebol americano. Em vez disso, passavam horas discutindo ideias e política global. O assunto de sua tese: “O Dionísio Judeu: Heine, Nietzsche a Política da Literatura”, empolgou seu pai. Para Alex, é “futebol americano, filosofia e política, nessa ordem”, disse Svante Myrick, um de seus amigos.
Durante a temporada de futebol, quando não está viajando para a fundação, Alex fica grudado no NFL RedZone, que salta para marcar jogadas em vários jogos. Myrick disse que evita ligar para o amigo em dias de jogo, quando Alex está focado apenas em vencer a liga informal de apostas. “Ele nunca me faz pagar”, disse Myrick, “mas ele esfrega isso.”
Durante anos, Alex ganhou a atenção da mídia principalmente por participar de festas em locais como Hamptons e Cannes. Ele foi fotografado com celebridades, incluindo Usher e a modelo Chanel Iman, uma ex-namorada.
Alex trabalhou meio período na fundação entre 2004 e 2006 e mais tarde ingressou no conselho da OSF. Ele não impressionou, muito menos como um provável sucessor, segundo pessoas que trabalhavam lá. “Alex costumava ir às reuniões do conselho, mas quase não falava”, disse Neier, ex-presidente da OSF.
Por iniciativa própria, Alex viajou para áreas remotas da Amazônia para se encontrar com líderes indígenas para chamar a atenção para suas necessidades. Ele se juntou ao conselho da Global Witness, um grupo que expõe abusos dos direitos humanos por empresas de mineração e governos.
Em 2015, quatro anos após a saída de Jonathan da fundação familiar, Alex assumiu um cargo em tempo integral. Ele trabalhou com o conselheiro de longa data de George, Michael Vachon, e outros, para aprimorar suas habilidades políticas e de oratória. E emergiu como vice de seu pai.
Após a eleição de 2016, em meio a temores de que o Congresso pudesse investigar a OSF, alguns membros da fundação pediram uma abordagem discreta. Alex pressionou os colegas a intensificar o trabalho. Ele ajudou a aumentar os gastos anuais da OSF na América Latina de US$ 12 milhões para US$ 60 milhões. A fundação apoiou organizações na Colômbia para apoiar o acordo de paz de 2016 que pôs fim a décadas de violência, disse Pedro Abramovay, que dirige o escritório latino-americano da OSF. Nos Estados Unidos, Alex trabalhou com a democrata Stacey Abrams para melhorar a participação eleitoral no sul.
Embora as críticas a George Soros às vezes incluam tropos anti-semitas, a fundação Soros não apoiou muitas causas judaicas. Alex, por outro lado, visitou Israel várias vezes e celebra feriados religiosos judaicos como Rosh Hashaná e Páscoa, o que seu pai não faz.
Alex está mais focado na política doméstica do que seu pai, disse ele. Alex está ajudando os democratas a atrair os eleitores latinos e melhorar a participação dos eleitores negros. Ele pediu aos políticos democratas que melhorem sua mensagem, ampliando o apelo do partido.
“Nosso lado tem que ser melhor em ser mais patriótico e inclusivo”, disse ele. “Só porque alguém vota em Trump não significa que seja um perdedor ou racista.”
Alex não comanda uma sala como seu pai, parecendo desconfortável em grandes ambientes públicos, disseram colegas. E ele é prejudicado por uma relativa falta de experiência no cenário mundial. Mas sua nomeação pode ajudar a organização de uma maneira importante, de acordo com pessoas que trabalham com ele.
“É improvável que Alex seja o bicho-papão que George Soros era para a direita”, disse Romero.
Fonte: Valor Econômico