Assim como a carta de Donald Trump para impor tarifação extra a produtos brasileiros fugiu do escopo econômico e comercial, a leitura da Eurasia, uma das maiores e mais renomadas consultorias de risco político do mundo, é que o governo brasileiro também vai considerar fatores exógenos ao comércio em suas respostas aos Estados Unidos. Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do grupo Eurasia, falou ao Pipeline nesta quinta-feira sobre o tema:
A reação no mercado brasileiro à taxação de Trump parece menos intensa do que os investidores sinalizavam ontem (Ibovespa cai 0,6% e dólar sobe 0,7%). Sinal de negociação à vista?
Ou reconhecimento de que o efeito macro não seja tão severo. A economia brasileira é razoavelmente fechada e os Estados Unidos respondem por 11% das exportações brasileiras. Equivale a 2% do PIB e parte desses produtos pode ser realocada para outros mercados. O impacto no PIB brasileiro seria de 0,2%, 0,3%, segundo estimativa de alguns bancos. Não é um evento catastrófico dada a economia fechada. Também pode ter a expectativa de negociação.
Qual a probabilidade de negociação?
Acredito que uma negociação vai ser bem difícil porque há uma combinação de justificativas do presidente Trump ao colocar a tarifa de pontos inegociáveis para o governo brasileiro, tanto na regulação de redes sociais quanto no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. São agravantes nessa relação bilateral, pois Trump se identifica muito com a família Bolsonaro, até porque é um espelho da política americana. Mas não tem como o Brasil sentar à mesa para contemplar essas exigências.
O governo brasileiro pode fazer contrapropostas, atendo-se apenas à discussão comercial?
Igualmente importante para o governo é a oportunidade eleitoral desse embate, na medida que a decisão dos EUA é uma forma de catalisar Trump e a família Bolsonaro como a aliança que pode tirar empregos no Brasil. Um sentimento nacionalista que pode ajudar o presidente Lula nas pesquisas. São incentivos para adotar uma postura firme com Trump. Pelos itens da carta e por cenário eleitoral de 2026, não vejo um caminho bom para negociar.
Mas ter indústrias importantes demitindo, por exemplo, também teria um peso eleitoral.
O que pode ocorrer é os Estados Unidos darem exceções na lista, como já fizeram em outras ocasiões, com outros países, ao não taxar petróleo e derivados, por exemplo. Também podem abrir exceções para empresas brasileiras que se comprometerem a investir mais no país, por exemplo. Há ainda uma possibilidade de cenário em que o próprio Bolsonaro pediria a redução de tarifas.
Por que ele faria isso?
Se chega a um ponto em que Lula está se fortalecendo com essa situação, Bolsonaro pode se vangloriar pela aliança, agradecer a Trump e pedir que ele reduza taxas em nome dos empregos no Brasil. A oposição ao governo está tentando colar o dano em Lula, como fruto de política democrática desastrosa, fruto de medidas antidemocráticas do Supremo. Mas vejo como uma tendência maior que o Brasil se coloque como vítima de um governo americano injusto, até porque Trump já teve posturas contra aliados históricos, como Canadá.
O timing da carta tem a ver também com a reunião dos BRICs e com declarações do presidente Lula?
A reunião dos BRICs pode ter sido uma influência, mas o comitê foi muito cauteloso em seu comunicado. Nem fez menção à moeda alternativa. As falas do Lula foram menos cautelosas. Mas o timing é pretexto, Trump já queria revidar em nome de Bolsonaro e principalmente pelas questões de mídias sociais. Do ponto de vista comercial, não interessa se o Brasil tem déficit ou superávit, se houver exceções às tarifas será por interesse próprio dos EUA.
Fonte: Valor Econômico


